[Resenha] O sol é para todos

Sol e para todos.inddSinopse:

Considerado um dos romances norte-americanos mais importantes do século XX, O sol é para todos surpreende pela atualidade de seu enredo e estilo. A lamentável permanência do tema, o racismo, percorre a narrativa de Scout, criança sensível, filha do advogado Atticus Finch, responsável pela defesa de um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca em Maycomb, pequeno município do Alabama, no sul dos Estados Unidos.

Fonte: José Olympio

Eu já tinha ouvido falar de O sol é para todos por ser uma obra muito famosa: vencedora do prêmio Pulitzer de literatura, leitura obrigatória em escolas norte-americanas e adaptada para os cinemas em 1963. Se não bastasse isso, a quarta capa me informa que a obra foi eleita pelo Library Journal como o melhor romance do século XX. Mas a recomendação que me convenceu foi feita, na verdade, por uma personagem fictícia: Sarah, do infantojuvenil Claros sinais de loucura, cujas relações com o livro de Harper Lee eu comento neste vídeo.

O sol é para todos é narrado por Scout Finch, uma garotinha americana do município de Maycomb, no Alabama. Scout narra a sua infância no interior nos anos 1930, e o mais importante acontecimento do livro é o julgamento de Tom Robinson, um homem negro acusado de estuprar uma jovem branca nos arredores da cidade. O pai de Scout, Atticus Finch, é designado como advogado de Tom Robinson e, em um lugar e época extremamente racistas, isso lhe causa problemas (em um conflito ético que me lembrou o do filme Ponte dos espiões): a cidade não respeita um homem que, com vontade e de bom grado, defenda um negro.

Mas os demais acontecimentos do livro não giram em torno do julgamento, que demora umas cem páginas pra ser mencionado. Sem pressa nenhuma, a autora nos apresenta com calma a cada um de seus personagens: os Finch, seus vizinhos, cada família de Maycomb, com sua história, tradições e peculiaridades. Das brincadeiras infantis na rua até o testemunho de crimes hediondos, Scout, junto com seu irmão mais velho, Jem, e seu amigo Dill, passam pela infância e pelo fim da inocência, vivendo diversos episódios que lhes ensinam muito sobre a dureza do mundo e o caráter das pessoas. Tudo isso é narrado num clima quase idílico, com a tranquilidade do interior e a visão bem-humorada e cheia de curiosidade de uma criança.

Apesar desse ritmo calmo, ao longo das 350 páginas a autora trata de assuntos muito pesados, como racismo, imposição de papéis de gênero, exclusão social e estupro. A narradora aprende a lidar com esses assuntos sob a orientação de seu pai viúvo, Atticus Finch, que sempre dá bons conselhos e é muito paciente e sábio na criação dos filhos. Não é à toa que Atticus se tornou uma figura muito querida da literatura mundial: na obra, ele é retratado como um símbolo de justiça e retidão, raramente demonstrando fraqueza ou medo – pelo menos não na frente de seus filhos.

Os demais personagens também são muito bem escritos. Jem, o irmão mais velho da protagonista, também é ótimo e evolui perante os olhos do leitor. Quem tem e cresceu com irmãos vai se identificar com o relacionamento entre os dois – Jem exclui Scout de algumas brincadeiras na infância e, durante a pré-adolescência, se mantém distante, mas está sempre protegendo e apoiando a irmã.

Gosto em especial de Calpúrnia, a empregada da família, cuja imagem e descrição vai se tornando cada vez mais afetuosa à medida que Scout cresce e aprende a reconhecer os sacrifícios dessa mulher que ajudou a criá-la. É claro que, para o leitor do século XXI, as descrições que a obra faz dos negros e de seu papel na sociedade são bastante racistas, mas, devido à época em que foi escrita (e principalmente à época retratada), a obra sempre foi considerada um discurso em prol da igualdade racial. (Parece que a continuação publicada em 2015, Vá, coloque um vigia, muda bastante essa visão, destruindo a imagem que temos de Atticus Finch. Fiquei curiosa e pretendo ler em algum momento!)

As descrições extremamente sensíveis e as lições de vida ensinadas pelos personagens, aliadas a um final inusitado e de tirar o fôlego, me fizeram entender por que esta obra é tão importante e querida, e por isso a recomendo fortemente.

*

O sol é para todos
Autora: Harper Lee
Tradução: Beatriz Horta
Editora: José Olympio
Ano de publicação: 1960
Ano desta edição: 2015
350 páginas

 

Citações favoritas

[…] às vezes a Bíblia na mão de um determinado homem é pior do que uma garrafa de uísque.

*

– Essas pessoas certamente têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter sua opinião respeitada – considerou Atticus. – Mas antes de ser obrigado a conviver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa.

*

O argumento de que Atticus tinha sido obrigado a fazer a defesa teria evitado muitas discussões e confusões. Mas será que explicava a atitude dos moradores da cidade?

*

Cheguei à conclusão de que as pessoas eram estranhas. Por isso, mantinha distância e só pensava nelas quando era obrigada.

*

Atticus tinha razão. Uma vez ele disse que a gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica lá um tempo.

2 respostas em “[Resenha] O sol é para todos

  1. Esse livro é maravilhoso e sua resenha conseguiu traduzir toda a grandiosidade da obra. Você não pode deixar de ler Vá, coloque um vigia, ele desconstrói a figura do herói mas é muito mais factível se comparado à época em que é retratado. O final de O sol é para todos é uma grata surpresa e em Vá, coloque um vigia todo o enredo é envolvente. 😉

    • Oi, Maria! Li sua resenha sobre Vá, coloque um vigia e gostei bastante. Quero ler esse livro, pelo menos pelo desenvolvimento da relação entre pai e filha!

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