[Resenha] Norte e Sul

Essa resenha foi feita com base no e-book do Project Gutenberg. A tradução de trechos foi feita por mim.

nortesulSinopse:

Norte e Sul é um romance de Elizabeth Gaskell, publicado em forma de livro pela primeira vez em 1855, sendo que já havia sido publicado inicialmente na revista literária Household Words, entre setembro de 1854 e janeiro de 1855 em 22 partes semanais. A trama gira em torno do contraste existente entre o modo de vida da Inglaterra industrializada do norte e da Inglaterra rural e inocente do sul, em uma época marcada pela revolução industrial do século 19.

Fonte: Livraria Cultura

 

Eu achava que não podia amar nenhum romance das antigas tanto quanto Orgulho e preconceito e Jane Eyre, mas Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell, fechou o trio. Resolvi lê-lo porque sabia que havia uma minissérie da BBC sobre ele – e onde há uma minissérie baseada em um livro do século XIX, lá estou eu – e para a minha surpresa devorei a obra em poucos dias.

A protagonista, Margaret, no início não impressiona: meiga e paciente, mora com uma tia rica em Londres, enquanto os pais moram numa vila do interior do sul da Inglaterra. Quando volta a morar com os pais, começam os choques que transformarão sua vida e revelarão seu caráter: o pai, um pároco, decide se afastar da Igreja da Inglaterra e torna-se um dissidente. Sem emprego, vira tutor em uma cidade industrial do norte, Milton, um lugar cinza, cheio de proletários e comerciantes e o mais distante possível da vida idílica que a família levava no sul. A mãe de Margaret – que sofre com a mudança de circunstâncias e com a falta do filho Frederick, desaparecido por motivos que serão explicados ao longo do livro – logo adoece na nova cidade. Já o pai começa a se envolver no clima dinâmico e cheio de ideias novas de Milton e, em especial, com um de seus pupilos: o bem-sucedido comerciante sr.  John Thornton.

Margaret é forçada a lidar com a nova condição de vida e o faz admiravelmente. Depois que a mãe adoece, dedica-se a cuidar dela e do pai, que é um homem amoroso, mas fraco, e que logo cede sob a pressão das dificuldades. (Por sinal, em vários momentos fica claro que ela é muito superior aos homens que a cercam.) Margaret tem vários preconceitos contra Milton e seus habitantes, vendo sua corrida por lucro como antirreligiosa e até digna de desprezo. Aos poucos, começa a se envolver com alguns trabalhadores das fábricas, pessoas muito mais pobres que ela, demonstrando enorme compaixão e coragem. Seu verdadeiro problema é com os mestres das fábricas – entre os quais se encontra o sr. Thornton, que fica extremamente ofendido com o desprezo que a garota demonstra por sua amada cidade. Ou, nas palavras dele, como em um Orgulho e preconceito ao contrário: “Uma garota mais orgulhosa e desagradável eu nunca vi. Até sua enorme beleza é apagada da memória devido aos seus modos desdenhosos”.

Duas pessoas teimosas que ficam brigando mas secretamente se admiram e eventualmente se apaixonam, só pra continuarem separadas por mal-entendidos e convenções sociais da sociedade vitoriana? GOSTARIA DE QUINHENTAS PÁGINAS COM UMA PORÇÃO DE FRITAS POR FAVOR.

Parece uma fórmula padrão para romances desse século escritos por mulheres – mas, apesar da semelhança com Austen e de ser quase contemporâneo com Jane Eyre, Norte e Sul é muito diferente daqueles. Embora haja em seu cerne um romance, o livro também trata de questões como industrialização, greves e relações trabalhistas, assim como dissidência religiosa. Alguns desses aspectos são mais fáceis de compreender que outros. Não é explicado, por exemplo, em que consiste exatamente a dissidência do pai de Margaret, e pra quem não conhece os meandros religiosos das diferentes Igrejas inglesas, é bem confuso o motivo exato que o fez desistir do posto de pároco (nesse ponto teria caído bem uma edição com notas e comentários). O preconceito de Margaret contra comerciantes também é um pouco bizarro e leva certo tempo até que você se acostume com as ideias aristocráticas da garota.

No entanto, outros aspectos são surpreendentemente atuais: as relações entre patrão e empregados, o funcionamento de greves e de sindicatos, a raiva de ambos os lado do conflito, a pobreza e o desespero das classes trabalhadoras e a condescendência e o paternalismo dos chefes, por exemplo, pouco mudaram nos últimos 150 anos. O livro inclui muitas discussões e – o que é legal, considerando que Thornton é o herói da obra – nos deixa vislumbrar as ideias dos trabalhadores também (em especial, do sr. Higgins, um dos funcionários com que Margaret faz amizade). Gaskell chega a propor, até o fim do romance, que um relacionamento mais humano e próximo entre essas classes é a começo para relações mais tranquilas.

A narrativa é em terceira pessoa onisciente, mas segue principalmente Margaret e o sr. Thornton – e o ponto de vista desse último, aliás, contribui muito para a trama romântica. Enquanto não temos a chance de saber o que Darcy ou Rochester estão pensando, em Norte e Sul sabemos o que se passa pela mente de Thornton e seus dilemas internos. Talvez justamente por sabermos o que ele está pensando, o livro seja tão angustiante durante todas as centenas de páginas em que ele e Margaret não se entendem. Ambos são teimosos e muito orgulhosos de suas respectivas classes e cidades. Ele é um homem prático, focado, disciplinado, extremamente rígido, mas com uma compaixão latente que é despertada ao longo do livro; ela pode ser bastante rude e inflexível. Também gostei que Gaskell nos deixa entrever outros “pecados” nos protagonistas – pequenos egoísmos, intolerâncias e coisas afins que deixam os personagens tão mais verossímeis.

As confissões de amor vêm um tanto abruptamente para o leitor, mas combinam com a personalidade dos protagonistas. Só fiquei chateada com o final, que é meio corrido e quase não te dá tempo de aproveitar a resolução do drama. Considerando toda a distância e o tempo que separavam os dois, eles se entenderam um pouco rápido demais. O relacionamento de Margaret com os pais também é muito bem escrito. Ambos são bons personagens, em especial a mãe, que começa meio histérica e que eu já tinha colocado no papel de “sra. Bennet”, mas que se torna mais bem delineada e complexa ao longo da obra. Também temos a chance de ter o ponto de vista da incrível sra. Thornton, mãe de John, uma mulher forte e pragmática que idolatra o filho – e detesta Margaret por desprezá-lo, rendendo cenas e discursos maravilhosos. O interessante é que fica claro que essas duas mulheres muito diferentes possuem a mesma coragem e firmeza de caráter que falta a vários outros personagens.

Ao longo da obra há alguns episódios meio inúteis – mas que passam rápido, felizmente – e alguns personagens que dão nos nervos (como Bessy Higgins, amiga de Margaret que está sempre falando que vai morrer a qualquer minuto, ao ponto de que – spoiler! – quando isso finalmente aconteceu, eu fiquei aliviada). Mas, de modo geral, é um livro extremamente envolvente. A modernidade das questões sobre a vida nas cidades e o capitalismo pode torná-lo mais “vívido” para o leitor contemporâneo do que romances de Austen (os quais, no entanto, certamente influenciaram Gaskell). Por si só, a evolução de Margaret é maravilhosa: ela se torna uma mulher autônoma e assertiva em uma sociedade que não dá muita liberdade para as mulheres – na verdade, sua condição em relação a Thornton ao final do livro espelha um pouco a de Jane e Rochester, em Jane Eyre.

Pra quem for ler em inglês, a narrativa é muito clara, com belas descrições das paisagens do campo e da cidade, embora alguns personagens de Milton (Higgins e as filhas, por exemplo) falem com um sotaque que come várias letras das palavras, o que é bem chatinho de entender. Mas há duas edições em português, citadas abaixo. Em resumo, recomendo-o fortemente para fãs de romances do gênero – com certeza vocês vão se apaixonar tanto quanto eu.

 

A minissérie (2004)

northsouthcover

Embora Richard Armitage seja mais conhecido por O Hobbit, eu já era fã do cara desde a série Robin Hood, nos idos de 2006. Pra falar a verdade, só li o livro só pra vê-lo no papel de Thornton – e ele não decepciona. Com aquela expressão de emoção contida, é garantia de vários suspiros e encarna o personagem perfeitamente.

O elenco, por sinal, é a grande força da minissérie: Margaret está excelente, a sra. Hale e a sra. Thornton são ótimas, o sr. Bell é muito charmoso e Higgins é ninguém menos que o sr. Bates de Downton Abbey (que não é nada como eu imaginava Higgins, mas ainda é ótimo). Bessy é muito mais animada e menos religiosa que no livro, o que foi uma boa mudança, porque a personagem é bem chatinha no romance. Só achei o sr. Hale não suficientemente indeciso e dependente da filha.

A minissérie de 4 episódios é quase universalmente amada, mas talvez por eu ter acabado de ler o livro quando a vi (literalmente, quatro horas antes) eu tenha reparado e me incomodado um pouco com mudanças na trama. Por exemplo, as circunstâncias do primeiro encontro de Margaret e Thornton são completamente diferentes; Margaret deixa a mãe doente para ir na Exposição Universal em Londres, onde Thornton também está (algo que não acontece no livro); eles discutem a questão de ela ter sido vista com Frederick; e a cena do pedido de casamento me pareceu deixar Margaret mais irracional do que no livro. Mas, de modo geral, a série consegue manter a personalidade dos personagens intacta, o que é raro e eu apreciei. A cena final é mais impactante no livro, na minha opinião; por outro lado, fazer Henry assistir a eles se beijando em público foi a cereja no bolo. Em resumo: uma boa adaptação de um ótimo livro.

*

Norte e Sul (e-book)
Autora: Elizabeth Gaskell
Ano de publicação: 1855
433 páginas

Em português: Landmark (trad. Doris Goettems, 2009) e Martin Claret (trad. Carlos Duarte, 2015)

 

Citações preferidas

Depois de uma vida pacata em um curato do interior por mais de vinte anos, havia algo deslumbrante para o sr. Hale na energia que conquistava dificuldades imensas com facilidade; o poder do maquinário de Milton, o poder dos homens de Milton, o impressionavam com um senso de grandeza, ao qual ele se rendia sem se dar ao trabalho de inquirir os detalhes do seu exercício. Mas Margaret saía menos entre maquinários e homens; via menos do poder em seu efeito público e, por acaso, tinha relações com um ou dois daqueles que, em todas as medidas afetando massas de pessoas, devem ser sofredores agudos pelo bem de muitos. A questão sempre é: tudo foi feito para tornar o sofrimento dessas exceções tão pequeno quanto possível? Ou, no triunfo da processão apinhada, os indefesos foram pisoteados, em vez de serem gentilmente postos de lado da estrada do conquistador, quando não têm o poder de acompanhar a sua marcha?

*

“Uma pessoa consegue suportar dor e sofrimento melhor se pensa que eles foram profetizados há muito tempo para ela: de algum modo, faz parecer que minha dor era necessária; caso contrário, parece que foi-me enviada sem nenhum propósito.”

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“Minha teoria é um tipo de paródia da máxima ‘Consiga dinheiro, meu filho, honestamente se puder; mas consiga dinheiro’. Meu preceito é, ‘Faça algo, minha irmã, faça o bem se puder; mas, de qualquer modo, faça algo’.”

“Não excluindo travessuras,” disse Margaret, sorrindo de leve através das lágrimas.

“De modo algum. O que eu excluo é o remorso posterior. Apague seus delitos (se for particularmente conscienciosa) com uma boa ação, logo que puder; assim como fazíamos uma soma correta na escola, na lousa, onde uma incorreta estava apenas meio apagada. Era melhor que desperdiçar nossa esponja com lágrimas.”

*

“É a primeira mudança nas coisas familiares que cria um mistério tão grande do tempo para os jovens; depois, nós perdemos o senso de mistério. Eu aceito mudanças em tudo que vejo como algo natural. A instabilidade de todas as coisas humanas é familiar para mim, enquanto para você é nova e opressiva.”

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“O que as outras pessoas podem pensar de certo e errado não é nada em comparação com o minha própria certeza profunda, minha convicção inata de que foi errado. Mas não precisamos mais falar sobre isso, por favor. Está feito – meu pecado foi cometido. Agora tenho que colocá-lo atrás de mim, e ser honesta para todo o mais, se puder.”

“Muito bem. Se você gosta de sentir-se desconfortável e mórbida, que seja. Eu sempre mantenho minha consciência trancada como um palhaço numa caixinha de surpresas, pois quando ela pula pra fora, me surpreende com seu tamanho.”

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