[Resenha] Planetes

planetes1Sinopse:

Em um futuro não tão distante, viver no espaço é uma realidade. Com a recente colonização lunar, é preciso lidar com os problemas que surgem nesse ambiente tão hostil para os humanos. Yuri, Hachimaki e Fee são três lixeiros espaciais que enfrentam seus próprios medos e dramas, ao mesmo tempo em que mudam a vida de muitos à sua volta.

Fonte: Panini Comics

Na segunda metade do século XXI, ir e voltar do espaço é uma atividade corriqueira. Uma avançada e bem equipada base lunar serve de ponto de convergência para astronautas de diversos países, além de receber turistas. Voos comerciais e de passageiros passam a ser feitos em aviões que saem da atmosfera para tornar a viagem mais rápida. E a Terra é cercada por muita sujeira espacial, milhões de detritos que precisam ser constantemente recolhidos para não causar acidentes com os diversos aviões e naves que viajam constantemente pelas redondezas.

É em uma nave coletora de detritos que trabalham os protagonistas de Planetes, este mangá escrito na virada do século. A tripulação da DS-12 é composta por uma pilota norte-americana e dois técnicos em atividades extraveiculares.

Cada capítulo deste mangá (que é dividido em quatro volumes) conta uma história fechada, geralmente sobre um dos astronautas principais, mas que tem relação com uma trama científica e política em que eles acabam se envolvendo.

A maior parte dessa trama é focada no astronauta japonês Hashimaki, que trabalha recolhendo detritos apenas a fim de juntar dinheiro e comprar sua própria nave, para finalmente realizar seu sonho de explorar o espaço livremente. Seus planos acabam mudando quando ele decide se alistar na primeira missão tripulada a Júpiter, uma ousada viagem para expandir os limites da humanidade.

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Hashimaki muda muito ao longo dos quase dez anos em que se passa a história. É um personagem extremamente bem trabalhado, cujos dramas pessoais vão evoluindo, se desenrolando e influenciando suas decisões e a relação com os personagens à sua volta. Ele enfrenta conflitos específicos de astronautas (relativos à vida no espaço e aos questionamentos filosóficos ocasionados por ela), mas também alguns problemas com os quais o leitor pode se identificar facilmente, principalmente em suas relações interpessoais. É muito satisfatório acompanhar suas transições e crises, embora algumas cenas desses conflitos se desenrolem muito melhor do que outras (algumas chegam a ser bem fraquinhas e tem até um momento muito clichê em que o amor salva a vida do personagem).

Também é muito gostoso acompanhar as histórias de seus colegas. Yuri é um russo que decidiu trabalhar no espaço depois de uma triste perda, e Fee é uma norte-americana séria e disciplinada cuja vida pessoal permanece em mistério até os capítulos finais da história. Há também Tanabe, uma japonesa que demora um pouco para aparecer, mas que cativa o leitor com seu jeito idealista e bondoso. O leitor vai pouco a pouco conhecendo a fundo esses personagens, sua família, história e objetivos.

Os personagens secundários também são cativantes. Desde uma mulher nascida e criada na Lua até um homem de comportamento constrangedor que alega ser um alienígena, vários deles são apresentados em capítulos que narram tramas menores e sem tanta ligação com a linha geral de acontecimentos. O autor habilmente intercala e interlaça essas histórias com as dos protagonistas, permitindo ao leitor alguns respiros em meio à trama principal.

Ao traçar paralelos entre as histórias espaciais e acontecimentos mais comuns na Terra, a obra deixa bem explícita a relação metafórica entre ficção científica futurista e a realidade que conhecemos, o que demonstra a profunda compreensão que o autor tem sobre o gênero e seu uso como ferramenta para tratar de assuntos tão humanos. Crises políticas, conflitos familiares, sonhos e ambições, amor e amizade são alguns assuntos tratados aqui com tanta importância quanto as estrelas. Aliás, apesar de este mangá ser classificado como hard science fiction, a compreensão do vocabulário técnico chega a ser dispensável para a compreensão da história – e quando o leitor se sentir muito confuso com algum termo, pode consultar o glossário ao final de cada volume.

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A representação de personagens femininas não é a pior que já vi, mas em alguns trechos aquele monstrinho problematizador que vive dentro de mim simplesmente não se aguentava. Ao passo que as astronautas da história são, em geral, representadas como mulheres duronas e respeitadas, outras personagens femininas são tratadas com misoginia e respondem a isso com naturalidade, como se, no final do século XXI, esse tipo de comportamento fosse ainda mais comum do que hoje. Alguns exemplos chateantes são:

  • Um homem passa a mão nos seios de uma mulher sem sua permissão e ela fica brava. Os outros personagens fazem piadas com isso e uma mulher chega a dizer “Ah, é que ela é complexada por ter seios muito grandes”. Ou seja, o problema não foi a atitude dele, e sim a forma como a vítima do abuso enxerga o próprio corpo. ¬¬’
  • Uma cena em que uma mulher na Terra leva o filho para a escola na garupa da moto, e as crianças ficam todas espantadas. “É o seu pai?” “Nossa, eu nunca vi uma mãe assim.” Além disso, na mesma cena, os personagens definem como uma família “normal” aquelas em que o pai trabalha fora e a mãe fica em casa. Não sei o quão normal esse tipo de afirmação parece para a cultura japonesa, mas não posso deixar de questionar: se, no começo do milênio, essas ideias já parecem ultrapassadas, como o autor pode retratar uma realidade assim em 2077?

Consegui fazer vista grossa para esses grandes deslizes e continuar apreciando a história apesar deles – principalmente graças ao destaque dado as mulheres, algumas das quais realmente bem construídas.

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A arte desta série, desenhada pelo próprio autor, foi mudando e evoluindo bastante ao longo do tempo – a ponto de alguns personagens se tornarem quase irreconhecíveis entre um volume e outro. Mas são desenhos lindos desde o começo, com algumas páginas de tirar o fôlego, do tipo que te lembra por que você ama histórias de viagem espacial. A edição, muito cuidadosa, traz algumas páginas coloridas no começo de cada capítulo; todos os volumes têm capa com orelha e o primeiro veio com um marcador de páginas – alguns cuidados que foram uma novidade agradável para esta leitora relapsa que não comprava mangás há uns dez anos e não sabia como andavam as edições nacionais.

Planetes é uma ficção científica excelente, de leitura fácil e agradável, que proporciona momentos de reflexão, tensão e humor em quantidades equilibradas, com uma narrativa envolvente e bem estruturada. Mas um de seus principais méritos é nos inspirar e nos lembrar que, como indivíduos, somos parte do universo que tanto admiramos, e que ele está presente em cada um de nós.

*

Planetes
Mangá completo em 4 volumes
Autor: Makoto Yukimura
Tradutora: Lídia Ivasa
Editora: Panini
Ano de publicação: 1999-2004
Ano desta edição: 2015-2016
240-336 páginas por volume

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