[Resenha] Como falar dragonês

Esta resenha trata do livro 3 da série Como treinar o seu dragão, mas não contém spoilers para outros volumes.

Como-Falar-Dragones

Sinopse:

Soluço Spantosicus Strondus III foi o mais grandioso herói já visto em todo o território viking. Ele era bravo, impetuoso e muitíssimo inteligente. Mas até mesmo os grandes heróis podem ter dificuldades no começo. Principalmente se têm como companheiro um dragãozinho teimoso e mal-educado. Nessa aventura, o dragão Banguela foi capturado, um nanodragão está prestes a virar refeição e Dragões-tubarões estão à solta. Mais uma vez, os vikings precisam de um salvador… Soluço.

Fonte: Livraria Cultura

 

Como treinar o seu dragão é uma série de livros infantojuvenis MUITO FOFINHOS, cujos volumes podem ser lidos em qualquer ordem. Cada um deles apresenta uma aventura de Soluço e seu dragão Banguela.

Soluço é exatamente aquele personagem que você conheceu no primeiro filme da Dreamworks: um viking magrelo e desajustado, um tipo intelectual em meio a brutamontes, cuja maior dificuldade na vida é tentar alcançar as expectativas de seu pai, Estoico, líder dos Hooligans. Já o Banguela dos livros é completamente diferente: em vez de um fúria-da-noite, ele é um dragão-comum-de-jardim: um lagartinho verde muito pequeno e desdentado, que não assusta ninguém. Ou seja, mais um motivo de bullying para o pobre Soluço.

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Este livro começa em meio a uma aula prática de como invadir naus inimigas, na qual Soluço e seu melhor amigo, Perna-de-Peixe, não estão se dando muito bem. O barco que eles construíram, o Papagaio-Esperançoso-do-Mar, é um péssimo barco, impossível de controlar e ainda por cima com infiltrações. Para piorar a situação, os meninos não podem contar com a ajuda de seus dragões. Enquanto o Banguela do filme tem o comportamento de um gatinho (curiosamente mudado, no segundo longa, para o comportamento de um cão), o do livro é mais como um mini-Smaug: mesquinho e mimado, só faz manha e pirraças. Já a dragoa de Perna-de-Peixe não faz nada além de dormir.

Como tudo na terra dos Hooligans é exagerado, a desgraça dos meninos também é: como se a aula já não estivesse bem ruim, os dois se perdem num mar infestado de dragões-tubarões, e em seguida invadem, por engano, um navio de guerra dos maiores inimigos dos vikings: os romanos.

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As aventuras de Soluço são sempre uma delícia de ler. Apesar de parecerem grandes estereótipos cobertos de testosterona, os vikings do livro têm personalidades distintas. Estoico está sempre sendo durão com o filho, mas tem que se esforçar para não transparecer o amor que sente por ele. Perna-de-Peixe é medroso e muito reclamão, mas, assim como Banguela, nunca abandona os amigos nos momentos de perigo. E Banguela, é claro, apesar de parecer um pária, tem habilidades que apenas os vikings não reconhecem: em um mundo de brutamontes violentos, o garoto é um acadêmico nato. Dedica seu tempo livre a observar e aprender mais sobre os diversos tipos de dragões, e a treinar uma habilidade que apenas ele, entre os humanos, tem: falar dragonês.

 

– Ah, já ouvi falar de você – disse ela. – Você é o nerd que conversa com dragões…

– Falar com dragões não é ser nerd – disse Soluço irritado. – Encantar dragões é uma arte muito antiga e rara.

 

As conversas de Soluço com os dragões à sua volta são o que faz a trama andar – ele negocia, engana e convence os dragões sempre que possível. Aliás, parte da diversão do livro é ver como se desenrolam os planos do garoto, que, apesar de inusitados e inteligentes, muitas vezes consistem de truques que o leitor infantil pode também já ter usado, como fazer o inimigo olhar para trás e usar sua distração para fugir. As tramas são complexas, mas inocentes a esse nível, o que torna o livro uma boa diversão para as crianças e adultos. Ao mesmo tempo, o leitor não é protegido demais – em diversas situações, fica bem claro que os inimigos são sanguinários, e os protagonistas correm risco de vida. Afinal, estamos falando de vikings e romanos!

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Neste volume em especial, em meio a conspirações romanas, Soluço e seus amigos se enfiam em grandes perigos – e saem deles – umas três vezes, e contam com a ajuda inusitada de alguns dragões bem peculiares que encontram no caminho, e que têm lições ótimas para ensinar ao leitor. Além disso, também conhecem a primeira personagem feminina da série: Camicasi, a herdeira da tribo das Ladras do Pântano. A menina é extremamente teimosa e briguenta, se comportando do mesmo jeito que os meninos Hooligans – e achei ótimo ela não ser diferenciada deles, sendo uma guerreira como os demais personagens. Ainda acho estranho o fato de o livro separar uma tribo exclusivamente masculina (a dos Hooligans) de outra exclusivamente feminina (como essa gente se reproduz?). Mas talvez isso aproxime o livro da mentalidade do leitor, já que ele é voltado para crianças por volta de 9 anos, que em geral se segregam por gênero.

A diagramação do livro também é uma graça. As ilustrações, feitas pela própria autora, têm um traço infantil um tanto bruto, que deixam o leitor imerso na ideia de que as histórias foram escritas por Soluço (embora sejam contadas em terceira pessoa porque, como Soluço explica no prefácio, foram há tanto tempo que parecem ter acontecido com outra pessoa). Além disso, o livro está escrito em diversas fontes, que variam quando os personagens falam em dragonês, ou quando estão gritando, por exemplo.

Com um humor inteligente e ao mesmo tempo acessível a crianças e adultos, esta é uma leitura rápida e muito divertida, que satisfaz, mas deixa com vontade de ler mais aventuras da série.

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Como falar dragonês
Série: Como treinar o seu dragão (livro 3 de 12)
Autora: Cressida Cowell
Tradutora: Heloisa Prieto
Editora: Intrínseca
Ano desta edição: 2010
240 páginas

 

Citação favorita

Naquele momento, se Soluço fosse um Herói Hooligan tradicional, ele teria sacado sua espada, Diligente, e se lançado em defesa do amigo, soltando o Urro de Guerra Viking o mais alto possível.

Mas se Soluço fosse um Herói Hooligan tradicional, ele teria sido morto como um arenque defumado muitos livros antes. Um arenque nobre; talvez um arenque gloriosamente corajoso, mas, ainda assim, um arenque muito, muito morto.

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