[Resenha] Piquenique na estrada

piqueniqueSinopse:

A cidade de Harmont está mudada. Desde que foi palco de uma das várias invasões alienígenas na Terra, o clima é de incerteza e medo. Os visitantes anônimos não se comunicaram com os terráqueos, e assim deixaram a humanidade com questionamentos aterradores. Nos locais onde eles estiveram, agora zonas proibidas, fenômenos perigosos continuam acontecendo. O trabalho ilegal de Redrick Schuhart, e de todos os outros stalkers, é invadir esse território para coletar e depois comercializar estranhos e misteriosos objetos trazidos de mundos distantes. Publicado pela primeira vez em 1971 na União Soviética, Piquenique na estrada mistura alusões à Guerra Fria e reflexões sobre a insignificância humana. Adaptado para os cinemas no filme Stalker, de Andrei Tarkóvski, é um dos maiores clássicos da ficção científica no leste europeu.

Fonte: Aleph

Imagine que alienígenas vieram à Terra. Eles passaram um tempo aqui e foram embora, sem jamais se comunicar com os assustados terráqueos que os observavam à distância. Ficamos sem saber por que estiveram aqui e o que estavam fazendo. Os locais visitados se tornaram áreas isoladas, chamadas de Zonas. O acesso às Zonas é restrito a associações governamentais que desenvolvem pesquisas sobre os estranhos objetos e fenômenos encontrados lá.

Nas cidades vizinhas às Zonas, um novo mercado negro se desenvolveu, movimentado pelos stalkers: indivíduos que invadem as Zonas para buscar objetos alienígenas e depois vendê-los. São itens que podem ser usados para decoração, fornecimento de energia ou, na maioria dos casos, peças para as quais os humanos parecem jamais conseguir descobrir uma utilidade, em uma frustrante deficiência de compreensão que comentarei mais à frente.

Redrick é um stalker. Experiente e apegado ao ofício, ele faz do tráfico o ganha-pão para si e para a família. Ao longo dos quatro capítulos que formam o livro, acompanhamos algumas visitas do protagonista à Zona vizinha à sua cidade e descobrimos várias das bizarrices que existem lá. Cada capítulo acontece em uma fase diferente da vida de Redrick, e as visitas mostradas lhe despertam diferentes emoções e afetam de diversas maneiras a sua forma de ver o mundo.

Os pontos de vista de cada capítulo são variados, e o terceiro é o único que não se centra em Redrick, e sim em Richard Noonan, funcionário de Instituto Internacional de Culturas Extraterrestres da cidadezinha em questão. Mas esse é um capítulo essencial para o desenrolar da história do protagonista, e mostra o que o fará ser convidado a uma visita especialmente perigosa à Zona. Além dessas cenas, o livro apresenta a vida em geral na cidade de Harmont: políticos, cientistas do Instituto, famílias, traficantes e os tipos que frequentam os bares. Por meio das conversas entre esses personagens, aprendemos um pouco desse mundo pós-visita alienígena, e descobrimos o que mudou na vida pública e privada.

Paralelamente à história das incursões de Redrick, os autores também apresentam algumas conversas com o cientista Valentin Pillman, que discute alguns aspectos científicos e filosóficos da visita alienígena, refletindo sobre seu propósito e seus efeitos.

A narrativa criada pelos autores soviéticos tem um sem-número de estranhezas e um estilo bem diferente para quem está acostumado à literatura dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. É uma leitura peculiar, mas isso é apenas um dos aspectos que torna Piquenique à beira da estrada uma obra marcante.

Os Strugátski ousam imaginar o que aconteceria se fôssemos incapazes de nos comunicar com inteligências alienígenas. Antes deles, Stanislaw Lem já imaginava esse tipo de conflito (por exemplo, em seu romance Solaris); e mais recentemente, a questão foi apresentada por Ted Chiang no conto “A história da sua vida”, que deu origem ao filme A chegada. O que essas histórias têm em comum com Piquenique à beira da estrada é que todas colocam o ser humano em uma posição não privilegiada, levantando a hipótese de que nosso intelecto não seja capaz de entender as mensagens que o universo tenha para transmitir. É uma perspectiva aterradora, em especial quando os personagens a encaram tão de perto.

Misturando cenas de mistério e bizarrices com os pontos de vista de um velhaco sarcástico como protagonista, esta ficção científica atende às expectativas de quem procura histórias sobre realidades inimagináveis, e também de quem busca questionamentos existenciais que nos fazem nos sentir pequenos perante o universo.

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Piquenique na estrada
Autores: Arkádi e Bóris Strugátski
Tradutora: Tatiana Larkina
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1972
Ano desta edição: 2017
320 páginas

Citações favoritas:

Era um tipo de tradição entre eles, que todos pudessem observar: eis que marcham os heróis da ciência, depositando em prol da humanidade a própria vida no altar da ciência, do conhecimento e do espírito santo, amém!

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Ele estava certo quando disse que a maior proeza da humanidade foi sobreviver e pretender continuar sobrevivendo… Mas, que diabos os carreguem, seus alienígenas nojentos, não poderiam fazer seu piquenique em outro lugar? Na Lua, por exemplo. Ou em Marte… Não, vocês todos são a mesma porcaria, apesar de saberem comprimir o espaço. Um piquenique, droga. Que bela ideia foi essa!

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Quando um homem trabalha, sempre trabalha para alguém, é um escravo e nada mais! E eu sempre quis viver por conta própria, sem depender de ninguém e cuspindo em sua rotina e seu tédio…

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