[Resenha] História da sua vida e outros contos

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Publicadas originalmente em volumes diversos, as narrativas de Ted Chiang estão pela primeira vez reunidas em uma coletânea. Entre as histórias dotadas de rigor científico, humanidade e lirismo estão “A torre da Babilônia”, na qual um minerador sobe a famosa torre com a missão de escavar a abóbada celeste; “Divisão por zero”, uma reflexão precisa e devastadora sobre o fim da esperança e do amor, e “História da sua vida”, na qual uma linguista aprende um idioma alienígena que modifica sua visão de mundo.

Fonte: Intrínseca

Faz apenas alguns anos que a ficção científica se tornou pop e lucrativa no Brasil, criando um fenômeno que atraiu a atenção de muitas editoras. Isso tem nos possibilitado ler autores importantíssimos do gênero, mesmo que com grande atraso. Um deles é Ted Chiang, um autor pouco prolífico mas muito premiado (com uma coleção que inclui Nebula, Hugo e Locus) e que também acabou de ser descoberto por Hollywood – o incrível filme de Denis Villeneuve A chegada, que estreou no ano passado, é baseado no conto que dá título a esta coletânea.

Os contos de Chiang são uma delícia. Inteligentes e impactantes, eles transitam pelas mais diversas áreas do conhecimento e, como diz o elogio da Bookwire na quarta capa, “Ted Chiang devolve a ciência à ficção científica de modo brilhante”. O autor conta suas histórias enquanto traça fortes paralelos com conceitos científicos avançados, que ele explica ao leitor – física, termodinâmica, matemática, linguística e até teologia são exploradas aqui –, e são influenciadas por grandes nomes do gênero, como Clarke, Dick, Asimov, Huxley e outros. A linguagem é técnica e os contos são densos, para se ler com calma e concentração. Precisei fazer várias pausas e anotações ao longo da leitura, tanto para entender melhor o conteúdo dos contos como para contemplar a genialidade do autor, mas o resultado desse esforço é muito recompensador.

Apesar de ser classificado como ficção científica hard – na qual um conceito é apresentado e todos os seus aspectos e desdobramentos são destrinchados –, o trabalho de ficção especulativa de Chiang se aproxima um pouco da fantasia. Com a maior naturalidade, insere em seu texto criaturas fantásticas, feitiços, milagres, fetos seminais e memória racial. Mas tudo isso é sempre explicado com uma visão bastante científica, o que torna definitivo o gênero da obra.

Como uma boa coletânea, logo no primeiro conto ela já mostra a qualidade da escrita, a criatividade e o impacto que o autor é capaz de causar. Apelidado de “ficção científica babilônica”, A torre da Babilônia conta a trajetória de uma equipe de mineradores contratados para subir a torre de Babel e cavar um túnel na abóbada celeste. Apesar da inspiração religiosa, o conto é bastante científico, dando explicações técnicas para cada fenômeno, e faz isso numa narrativa envolvente e poética. A subida dos trabalhadores pela torre é linda e empolgante, e seguida por um final surpreendente (que, confesso, me deixou extremamente confusa).

Entenda retoma um tema clássico da ficção científica: super-humanos e a dualidade do bom mutante versus mau mutante, ao refletir sobre as consequências da indução de superinteligência. É um dos contos mais difíceis de ler (afinal, é narrado em primeira pessoa justamente por um homem com a tal superinteligência) e menos inovadores.

As histórias mais sentimentais e poéticas de Chiang são bem interessantes. Em Divisão por zero, o autor faz uma homenagem à beleza da matemática ao contar a triste história de uma estudiosa que deixa de ver sentido na vida quando descobre uma equação que prova que toda a matemática está errada. Em uma narrativa organizadinha quase como um ensaio científico, o autor vai explicando conceitos matemáticos e ao mesmo tempo conta a história de sua personagem. Ele estabelece um paralelo perfeito entre essas duas coisas, de forma que as situações vividas pela personagem servem para explicar os conceitos científicos, e vice-versa – e a conclusão de ambos é a mesma. Outro conto que segue esse modelo é História da sua vida, no qual uma linguista é contratada para decifrar a linguagem de uma raça alienígena pacífica e passiva, cujo propósito na Terra é um mistério. Apesar dessa baita trama de ficção científica (que ficou bem mais empolgante e dinâmica no cinema), o foco da história é na maternidade e em reflexões sobre o livre arbítrio e a reação das pessoas perante situações inevitáveis (tema também presente em “Divisão por zero”).

Setenta e duas letras é o conto que mais se aproxima da fantasia. Ambientada na Inglaterra vitoriana, na qual unicórnios e grifos são reais, a história envolve o uso de feitiços escritos (nomes complexos, sempre com 72 letras) para animar golens e lhes fazer executar tarefas. O autor encontrou aqui um jeito bem diferente de retomar a tradicional temática dos robôs substituindo seres humanos, e cercar a discussão com uma trama política e religiosa no século XIX.

Escrito originalmente para a revista Nature, A evolução da ciência humana é justamente um editorial de revista científica, mas em uma realidade ficcional em que, mais uma vez, a superinteligência foi desenvolvida e saiu do controle de humanos comuns. Em apenas 4 páginas, o autor desenvolve um texto jornalístico sintético, mas que pinta um quadro muito mais complexo de uma situação distópica para o desenvolvimento científico.

Para quem gosta de discussões inteligentes sobre filosofia e religião, O inferno é a ausência de Deus é um conto incrível. Em um mundo onde milagres e aparições angelicais são reais e comprovados, assim como a existência de Deus e do inferno, as pessoas não são mais divididas entre as que acreditam ou não em Deus, mas sim nas que são devotas a ele ou não. E ser devoto, como no nosso mundo, pode ser uma provação, quando tantas injustiças e sofrimentos são justificadas com amor divino e os misteriosos planos de Deus. O conto narra a trajetória de três personagens tentando entender esses planos, e suas diferentes experiências com milagres. O autor se inspirou no Livro de Jó e, sobre os dilemas apresentados em seu texto, afirma: “Uma variedade enorme de conselhos religiosos foi dada a partir de uma perspectiva religiosa para aqueles que sofrem, e parece claro que não há uma resposta única que possa satisfazer a todos; aquilo que conforta uma pessoa inevitavelmente parece ultrajante para outra”.

Por fim, o último conto do livro é provavelmente o meu favorito: Gostando do que vê: um documentário é um documentário feito em uma realidade na qual foi criada uma intervenção médica para “desligar” a habilidade cerebral de enxergar beleza ou feiura em rostos. Chamada de “cali”, essa técnica pode ser aplicada ou removida por processos simples, e alguns pais começam a matricular seus filhos em escolas onde todas as crianças têm cali. O resultado é um convívio no qual não existe discriminação por beleza – garotas lindíssimas são tratadas como iguais e namoram rapazes feios, e crianças com cicatrizes no rosto se tornam populares e são eleitas representantes de classe. O autor apresenta a ideia da beleza física como uma droga, um vício da sociedade moderna. O documentário acompanha a polêmica quando uma universidade quer tornar obrigatório o uso de cali para todos os seus estudantes, e traz diversos pontos de vista sobre a questão. É a história de pessoas que tentam criar uma utopia, e dos empecilhos que encontram. Com relatos de alunos pró e contra cali (inclusive uma série de entrevistas com uma jovem que, após 18 anos sem enxergar beleza, desligou seu implante e descobriu o mundo como os outros o veem), além de alarmantes denúncias do envolvimento de empresas de publicidade e cirurgias plásticas na discussão, o conto analisa cada aspecto dessa descoberta científica – questões políticas, filosóficas, sociais – em um baita ensaio que, graças ao seu formato, ficou muito palatável. Ele leva a refletir sobre como a tecnologia facilita que optemos por não enxergar o que nos desagrada, e também sobre a nossa inevitável suscetibilidade a discursos políticos e publicitários.

O livro de Chiang deixa o leitor sem fôlego e ansiando por mais – não é todos os dias que deparamos com textos de tamanha complexidade e elegância e, até encontrar outra obra no mesmo nível, vou indicar esta para o máximo de pessoas que eu conseguir.

História da sua vida e outros contos
Autor: Ted Chiang
Tradutor: Edmundo Barretos
Editora: Intrínseca
Ano desta edição: 2016
368 páginas

Livro cedido em parceria com a Intrínseca.

*

Citações favoritas

Pela primeira vez, ele soube o que realmente era a noite: a sombra da própria terra, projetada no céu.
(“A torre da babilônia”)

*

Quando você aprender a andar, terei demonstrações diárias da assimetria em nosso relacionamento. Você vai estar correndo sem parar de algum luar para outro, e cada vez que se chocar com o batente de uma porta ou ralar o joelho, a dor vai parecer ser em mim. Vai ser como criar um membro errante, uma extensão minha cujos nervos sensoriais transmitem muito bem a dor, mas cujos nervos motores não reproduzem meus comandos. Não é justo: vou dar à luz uma boneca vívida de vodu de mim mesma. Não vi isso no contrato quando assinei. Fazia parte do acordo?
(“História da sua vida”)

4 respostas em “[Resenha] História da sua vida e outros contos

  1. Esse livro é incrível mesmo, pena que o autor precisou de ter um de seus textos adaptado para os cinemas para ser publicado por aqui. E falando em adaptação, imagina o conto “Gostando do que vê” adaptado em formato de documentário? Ótima resenha!

    • Pois é Joe, mas é uma garantia que as editoras têm, né? De que vale a pena apostar em um livro. Espero que esse faça sucesso!
      Eu acho que, tirando “História da sua vida”, “Gostando do que vê” é o mais adaptável para hollywood. Queria ver esse filme!

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