[Resenha] Mindhunter

Sinopse:

Em detalhes assustadores, Mindhunter mostra os bastidores de alguns dos casos mais terríveis, fascinantes e desafiadores do FBI.

Durante as mais de duas décadas em que atuou no FBI, o agente especial John Douglas tornou-se uma figura lendária. Em uma época em que a expressão serial killer, assassino em série, nem existia, Douglas foi um oficial exemplar na aplicação da lei e na perseguição aos mais conhecidos e sádicos homicidas de nosso tempo. Ele confrontou, entrevistou e estudou dezenas de serial killers e assassinos, incluindo Charles Manson, Ted Bundy e Ed Gein. Com uma habilidade fantástica de se colocar no lugar tanto da vítima quanto no do criminoso, Douglas analisa cada cena de crime, revivendo as ações de um e de outro, definindo seus perfis, descrevendo seus hábitos e, sobretudo, prevendo seus próximos passos.

Fonte: Intrínseca

Como já foi dito anteriormente na história deste blog, um dos meus gêneros favoritos de leitura é o de histórias reais meio horríveis. E esse livro está recheado delas. O tom da narrativa fica entre a não ficção e a ficção: embora seja um relato em primeira pessoa de John Douglas, um dos responsáveis pela Unidade de Ciência Comportamental, cada caso que o ajudou a construir a unidade me absorveu como um conto. Mark Olshaker, coautor da obra, fez um bom trabalho organizando as experiências pungentes de Douglas em um formato interessante.

Também assisti à série da Netflix, que na primeira temporada aproveita essa estrutura para mostrar ao espectador os casos em um estilo “monstro da semana” – mas aos poucos nos mostra o arco de desenvolvimento do próprio Douglas e de sua equipe. Jonathan Groff, que representa o protagonista, tem ótima atuação e sua evolução na tela é bem perturbadora. A vida de Douglas aparece no livro como informações paralelas polvilhadas ao longo da descrição dos casos e de sua rotina profissional, mas na série torna-se o ponto de apoio, e podemos observar os impactos do trabalho na sua personalidade e no cotidiano familiar.

Se tem uma coisa pela qual a série está de parabéns, é pela caracterização Ed Kemper, um dos assassinos entrevistados por Douglas. O livro possui algumas fotografias e quando vi a desse assassino, fiquei pasma com como conseguiram deixar Cameron Britton parecido.

Apesar disso tudo, o livro me impactou mais do que a série, mesmo que esta tenha o benefício de recursos gráficos. O narrador já começa o livro dizendo que tem muito em comum com seus objetos de estudo e não nos surpreendemos ou incomodamos tanto nos momentos em que isso fica mais explícito. Isso me fez focar mais nas brutalidades descritas caso a caso e na análise dos crimes e de seus autores.

A empatia de Douglas, que lhe permite compreender os assassinos, me lembrou muito de Will Graham, personagem da série Hannibal – uma das minhas favoritas. Mesmo assim, não foi sem surpresa que descobri que Thomas Harris (o autor dos livros de Hannibal) inspirou-se diretamente em Douglas para construir o personagem Jack Crowford e que Brian Fuller deu a Will uma encefalite autoimune, mesma doença que acometeu Douglas em um forte episódio de estresse.

O livro traz muita informação que achei interessante. Por exemplo:

* Há muito mais homens assassinos em série e geralmente os crimes (mesmo quando sexuais) são sobre poder. E as vítimas são frequentemente prostitutas ou mulheres interpretadas como permissivas, pois “sob um ponto de vista psicológico, abusar de prostitutas é uma maneira comum de se vingar de mulheres em geral”.

* A princípio ele menciona que geralmente os serial killers não matam fora de sua própria etnia – mas ao falar de um caso de 1990 ele comenta que conforme “a sociedade se tornou mais tolerante, homicídios interraciais de motivação sexual se tornaram mais comuns”.

* Muitos assassinos têm fascínio pela polícia.

* Muitos dirigiam fuscas ou kombis. Ninguém sabe exatamente por quê.

* Ele explica a diferença entre modus operandi e assinatura, termos que costumam aparecer de maneira confusa em muitas histórias de investigação.

Outro elemento de que gostei foi a descrição mais detalhada da estrutura do FBI e dos preconceitos que, até à época, pareciam retrógrados. Porém o narrador de vez em quando vem com umas como “o estado de Delaware teve o bom senso e a decência de executar Pennel por injeção letal no dia 14 de março de 1992”. Para alguém que se dedica a resolver crimes brutais, é meio estranho falar nesses termos sobre uma morte.

Incômodos à parte, um aspecto bem interessante do livro é a frequente menção ao espanto de repórteres, policiais e mesmo de outros agentes do FBI com a eficiência do método desenvolvido pela Unidade de Ciência Comportamental – inclusive frequentemente comparado a magia. Aparentemente eles não se opunham muito à magia e à época era comum chamar videntes para prestar consultorias em casos difíceis. O próprio Douglas não ridiculariza esse hábito, como eu esperava que fizesse. Ao contrário, ele reconhece que por vezes os chamados videntes são apenas pessoas com uma percepção aguçada e capacidade de ligar os fatos intuitivamente.

A edição brasileira está bem bonita e, além de fotos, conta com um índice remissivo que está bem feito. O texto poderia ter sido melhor cuidado, pois às vezes incorre em uma informalidade truncada. Mas na maior parte do tempo a leitura flui bem, e as vezes em que precisei interrompê-la foi por precisar de um tempo longe do tema. Recomendo para pessoas que consigam lidar bem com descrições neutras de brutalidades e que tenham interesse psicologia comportamental e investigação.

*

Mindhunter Autores: John Douglas e Mark Oshalker

Tradutor: Lucas Peterson

Editora: Intrínseca

Ano desta edição: 2017

384 páginas

Livro cedido em parceria com a Intrínseca.

Citações favoritas:

Todos somos vulneráveis. Não importa o quanto você sabe, quanta experiência tem ou quantos interrogatórios bem-sucedidos já realizou. Não importa se você compreende a técnica. Todos nós podemos ser atingidos, desde que alguém consiga descobrir onde e como somos vulneráveis.

*

Quem eram aqueles homens mascarados? Eles deixaram essa bala de prata para trás.

Quem, ele? Eles eram de Quantico.

Neste caso em particular, Jim e Roy (…) voaram de volta para casa na classe turística, amontoados entre veranistas alegres e crianças barulhentas nos fundos de um avião comercial.

*

Você vai morrer essa noite, pensa Jud. Não vai escapar dessa de jeito nenhum. Mas sabe como essas coisas funcionam. Você não quer que os detetives entrem aqui amanhã e digam: “O pobre coitado nem reagiu. Apenas deixou que eles entrassem aqui e o executassem”. Então Jud decide que, quando os detetives encontrassem a cena, saberiam que ele tinha lutado pra cacete com esse cara.

*

E então me falaram sobre Hansen, sua profissão e família, sua posição na comunidade e sua reputação como ótimo caçador. Isso soava como alguém capaz de cometer esses crimes?

Respondi que sim, com certeza.

Uma resposta em “[Resenha] Mindhunter

  1. Ainda não li esse livro, mas adorei a série! Gosto desta temática em livros e séries como A Sangue Frio, Hannibal, Criminal Minds…
    E fiquei muito intrigada com essa informação sobre fuscas e kombis!! 😮

O que achou deste post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s