[Resenha] Bem-vindos ao paraíso

Sinopse:

bem-vindos ao paraísoEm um resort luxuoso nas belas praias de areia branca da Jamaica, Margot luta para manter Thandi, sua irmã mais nova, na escola. Ensinada desde pequena a usar o corpo para sobreviver, ela está determinada a proteger Thandi do mesmo destino. Mas quando a construção de um novo hotel ameaça sua vila, Margot enxerga uma oportunidade de independência financeira e a chance de admitir um segredo chocante: seu amor proibido por outra mulher. Bem-vindos ao Paraíso é um romance de estreia poderoso e um hino sensível aos dramas de um mundo escondido na vasta extensão de mar turquesa, um lugar que muitos turistas veem apenas como um paraíso.

Fonte: Morro Branco

O Caribe é um dos destinos turísticos mais populares do mundo, mas qual o verdadeiro custo do paraíso que desfrutamos?

Bem-vindos ao paraíso é o premiadíssimo romance de estreia de Nicole Dennis-Benn, uma jamaicana que não hesita em destrinchar a realidade pós-colonial de personagens que vivem dilemas derivados de sua raça, gênero, sexualidade, religião e do direito sobre seus corpos.

Acompanhamos quatro mulheres negras em um contexto não apenas racista, mas também colorista. Thandi é uma adolescente em quem a mãe e a irmã depositam todas as esperanças de um futuro melhor. Ambas se esforçam para mandá-la a uma escola católica de elite – na qual Thandi é ora ignorada, ora zombada por ser a menina de pele mais escura por lá. Assim, não é de se admirar que ela passe cremes abrasivos e se embrulhe em plástico filme para tentar clarear sua pele e assim sentir-se digna de atenção e afeto.

 

“Pena qui cê num tem a pele do teu pai.” Thandi não tem nem a cor de noz-moscada que faz de Margot uma amante honrada – um degrau abaixo de uma esposa de pele luminosa – nem é negra como Delores, cuja pele desperta a solidariedade das pessoas quando olham para ela. “Quem qui quer ser negra dessi jeito aqui nesse lugar?”

 

Delores, a mãe, vende souvenires para turistas que passam por Montego Bay. É a uma das melhores negociadoras do local e se esforça esperando que Thandi lhe pague 10 vezes mais quando finalmente se tornar médica. Sua relação com Margot é absolutamente distante e, conforme a história é aprofundada com flashbacks, descobrimos o acontecimento que abalou a relação entre mãe e filha.

Margot é uma mulher ambiciosa que se percebe subutilizada na recepção de um resort. Para garantir a educação de Thandi, ela secretamente se prostitui para os hóspedes, além de submeter-se às investidas do dono do lugar. Aqui é interessante notar que a descrição das cenas em que ela está com clientes não é degradante, embora o turismo sexual seja fortemente problematizado pela obra. Quando Margot escolhe vender o próprio corpo, ela se reconhece como portadora de poder na transação.

Porém, é por uma mulher que Margot é apaixonada. Verdene Moore mora na casa mais bonita da vila e provoca reações ambíguas nos demais personagens: ora é respeitada por ser praticamente estrangeira depois de anos na Inglaterra, ora considerada o demônio – enviada para a Inglaterra justamente para evitar as consequências drásticas que a descoberta de seu lesbianismo pode ter em uma comunidade altamente homofóbica. Porém Verdene está de volta, assim como seus sentimentos por Margot, e elas oscilam entre a descoberta de uma convivência gostosa e o medo de seu relacionamento ser descoberto.

A tradução mantém o patuá presente nos diálogos do original, o adaptando para o português de maneira crível e que nos ambienta ainda mais. A história é regida por contrastes gritantes que nos fazem ter empatia por decisões que, em outro contexto, pareceriam inaceitáveis. A leitura de Bem-vindos ao paraíso consegue nos mostrar o lado feio dos cartões postais – de um jeito maravilhoso.

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Bem-vindos ao paraíso
Autora: Nicole Dennis-Benn
Tradutora: Heci Regina Candiani
Editora: Morro Branco
Ano desta edição: 2018
416 páginas

Livro cedido em parceria com a Morro Branco

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Citações favoritas:

No início, ela desprezava a si mesma por permitir que ele a tocasse. Mas depois passou a se desprezar por ser orgulhosa a ponto de acreditar que tinha escolha.

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Margot começa a caminhar com objetividade pela bruma leve, acalentando essa ideia como a um bebê recém-nascido. A mente dela antecipa a possibilidade de abandonar River Bank por uma bela casa de veraneio em frente ao mar em uma comunidade silenciosa, fechada, em Lagoons – um lugar distante de River Bank onde Margot poderia se entregar livremente, confortada pela serena indiferença dos estrangeiros ricos da Europa e dos Estados Unidos. Seria como viver em outro país. Desde que, anos atrás, Reginald Senior fez uma festa para alguns poucos amigos em uma casa de verão luxuosa na região e a convidou, quis morar lá. Margot ficou impressionada com a vida que os ricos levam na Jamaica; como, para eles, a ilha é realmente um paraíso – uma mulher que se oferece sem malícia, costas arqueadas em colinas e montanhas, barriga contra o sol. Porque até mesmo nessa seca seus rios correm longa e profundamente, suas praias são amplas e tentadoras

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“No fim du dia, nossa vida é isso. Olha em volta, minina. Olha onde cê tá. Essi pedaço di terra vale mais qui a gente. Cê sente esse ar qui a gente respira? É dívida qui a gente faiz.”

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