[Resenha] Changeling: sombras de Nova York

changelingSinopse:

Foi na literatura que Apollo Kagwa encontrou refúgio depois de seu pai abandoná-lo e é do amor aos livros que ele faz sua renda, com um negócio chamado Improbabilia. Ele está se adaptando à nova rotina depois de ter um filho com Emma, sua esposa bibliotecária, quando algo nela muda. A falta de energia e de interesse da mãe pela criança poderiam ser sintomas de uma depressão pós-parto – mas quando Emma toma uma atitude drástica, fica claro que o problema é mais grave que isso. Agora, em busca de sua família, Apollo vai descobrir o que se esconde nas sombras de Nova York. Nesta jornada sombria, ele encontrará lugares há muito perdidos e aprenderá a temer mais as nuances das pessoas que ama do que as lendas que se concretizam diante de seus olhos.

Fonte: Morro Branco

Um drama sobre ter filhos no mundo moderno, misturado com um conto de fadas sobre magia antiga: foi assim que os jornais estrangeiros descreveram o novo livro de Victor Lavalle. Changeling é uma história com toques de horror e magia, que mistura feitiços tecnológicos com criaturas ancestrais.

A trama começa narrando a trajetória da família Kagwa, imigrantes vivendo em Manhattan, desde o momento em que Lilian Kagwa conhece Brian West, passando pelo nascimento do filho deles, Apollo, a separação do casal e o subsequente desaparecimento de Brian, até a vida de Apollo a partir de então. O garoto cresce e se torna um comerciante de livros antigos, sempre garimpando vendas de garagem à procura de volumes raros que possam ser vendidos a colecionadores. Acaba se casando com uma bibliotecária e se tornando pai. Esse início apresenta uma trama mais realista, mas alguns elementos fantásticos já se escondem nas descrições feitas pelo narrador, anunciando o tom que a história vai assumir: o de um conto de fadas urbano e contemporâneo.

A paternidade é um tema central em Changeling. O protagonista, Apollo, passa a infância tendo pesadelos sobre seu pai ausente, nos quais frequentemente o vê como um monstro. Ao se tornar pai, Apollo assume uma missão pessoal de ser presente e participativo. Não é um trabalho fácil, especialmente quando sua esposa passa por um pós-parto estressante e começa a ter comportamentos paranoicos. Então algo terrível acontece com a família (em uma cena de violência pesada e assustadora), e Apollo descobre que proteger seu bebê é uma missão ainda mais difícil do que parecia. Essa é só uma parte dos conflitos de paternidade que o livro apresenta. Ao longo da trama, enquanto acompanhamos Apollo em sua luta para cuidar do filho, conhecemos a história de vários homens que repetem os erros dos pais ao tentar corrigi-los. Geração após geração, destroem suas famílias e culpam o mundo ao redor.

Assim como os contos de fadas tradicionais, essa história abala nossa ideia da infância como um momento mágico e inocente, e mostra como o mundo é visto pelas crianças: perigoso e assustador. O livro traz paralelos explícitos com várias histórias do gênero, desde as mais clássicas como Rapunzel até versões mais modernas como Outside Over There (livro de Maurice Sendak que tem tudo a ver com a trama de Changeling – e que foi uma das inspirações para Labirinto: a magia do tempo, aquele maravilhoso filme com o David Bowie).

É também um livro sobre narrativas e interpretações. A arte de contar histórias está muito presente na vida dos personagens, não apenas na forma de livros, que fazem parte das profissões de Apollo e de sua esposa Emma, mas na tradição das narrativas orais, com pais, tutores e professores repassando contos tradicionais para as crianças, em momentos muito significativos para a trama. A questão da subjetividade dos narradores também é colocada. Mais de uma vez, narrativas que já foram apresentadas ao leitor ao longo do livro são desmentidas, recontadas em outra versão ou com outro ponto de vista, à medida que os personagens descobrem outras verdades e percebem que nem tudo é o que parece – nem mesmo as histórias que vivenciaram.

Alguns outros elementos e sacadas inteligentes do autor complementam o que torna Changeling uma obra tão rica e envolvente. Por exemplo, Lavalle desconstrói a romantização da mulher forte, ao mostrar uma personagem que só foi poderosa quando a situação ao redor a obrigou. Mas ela não é “super” e não vai fazer sacrifícios quando estiver em uma situação ideal, na qual conta com ajuda. Aliás, além de discussões sobre o papel do homem em um relacionamento, exemplos de sororidade também estão muito presentes no livro.

Outra questão que permeia a história é a racial. Apollo é negro (assim como sua família e seus melhores amigos), e esse fato gera alguns empecilhos para ele – ele é impedido de entrar na casa de um cliente e até em algumas lojas. Em um momento crucial para a trama, o autor descreve um ironia uma cena em que o protagonista é parado e ameaçado pela polícia simplesmente por estar em um bairro de brancos, o que acaba atrasando e atrapalhando seus objetivos. Como diz seu amigo Patrice, “Heróis como nós não podem cometer erros”.

Changeling é sem dúvida um dos melhores livros que li em 2019, uma história intrigante e criativa permeada de nuances e discussões. Será adaptado para uma série televisiva pelo canal FX e foi publicado no Brasil pela Morro Branco, que também trouxe ao Brasil a novela A balada de Black Tom, do mesmo autor.

*

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Changeling: sombras de Nova York
Autor: Victor Lavalle
Tradução: Petê Rissatti
Editora: Morro Branco
Ano desta edição: 2019
560 páginas

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