[Resenha] Serpentário

serpentarioSinopse:

Na Ilha das Cobras, eles viram o inimaginável. Todos precisaram deixar algo para trás. As pernas de Hélio. O coração de Mariana. A mente de Caroline. A vida de Paulo. Mas o veneno ainda corre em suas veias. E, mais uma vez, a ilha chama por eles.

Fonte: Intrínseca

Quem frequenta este blog há algum tempo (gosto de acreditar na existência de leitores regulares) já conhece um pouquinho do meu gosto literário. Um dos tipos de histórias que me prendem são as de adolescentes fazendo merda. Então vocês podem me imaginar feliz da vida lendo Serpentário, um livro sobre adultos lidando com as consequências pesadíssimas de merdas que eles fizeram quando eram adolescentes.

Mas dizer que fiquei “feliz da vida” é um pouco duvidoso, considerando que esse é um romance bem assustador. Ele conta a história de três adolescentes ricos que costumam passar as férias juntos nas casas de praia das respectivas famílias, ocasião em que também encontram Paulo – seu amigo que mora ali no litoral norte de São Paulo e é filho de uma empregada doméstica. Juntos, os quatro amigos acabaram passando juntos por uma experiência bizarra quando, no réveillon do ano 2000, foram parar na misteriosa Ilha das Cobras. O que aconteceu na ilha deixou três deles traumatizados e o quarto, Paulo, morto.

Dezenove anos depois, apesar de as lembranças do evento serem falhas em sua memória, Caroline lida com as sequelas diariamente – entre elas, um medo incontrolável de serpentes, que a faz ter alucinações e foi a causa de ela ter desistido de sua carreira dos sonhos como veterinária. Mas quando descobre que Paulo está inexplicavelmente vivo, Caroline decide desenterrar o passado e marcar um reencontro dos quatro amigos no litoral.

A história é contada em uma narrativa que intercala dois tempos. Os dias atuais têm aquele gostinho amargo de amizades que se desfizeram com o tempo, além de situações dignas de jogos de escape room (se você um dia deixou seu amigo para morrer numa ilha desconhecida, talvez não seja seguro aceitar um convite para jantar com ele, mas quem sou eu pra dizer isso). Já a época em que aconteceu a visita à Ilha das Cobras constrói os personagens e apresenta o evento traumático. Entre os capítulos, interlúdios contam reminiscências de outras histórias relacionadas à Ilha das Cobras, e vão formando um quebra-cabeças dos mistérios desse lugar.

Serpentário é um livro cheio de suspense, intrigante e difícil de largar. Os monstros criados por Castilho são capazes de despertar nossos medos tanto de ameaças concretas como abstratas e desconhecidas. Ele equilibra a construção de um mito atemporal e sobrenatural com uma narrativa contemporânea, que dialoga fortemente com outros problemas assustadores do Brasil (e do mundo) atual, abordando temas como elitismo, corrupção, racismo e homofobia.

Tudo isso é construído em uma narrativa muito bem-humorada, e é impossível não citar o uso de memes. Como ele mesmo menciona nos agradecimentos finais, Castilho tem um impressionante banco de dados de “cultura inútil”, e o usa de forma muito divertida em Serpentário. O livro é cheio de referências culturais, especialmente a bobeiras da televisão dos anos 90 e da internet atual. Na maior parte do tempo é divertido reconhecer essas sacadinhas que nos fazem dar um sorriso de cumplicidade para o autor, mas às vezes também é desesperador quando uma personagem sob ameaça de morte decide lembrar de musiquinhas chiclete da televisão (e, consequentemente, contaminar a mente do leitor).

Se eu tivesse que dar apenas um adjetivo para Serpentário, diria que é impressionante. É uma história de impacto, criativa e bem amarrada, com personagens palpáveis e assombrações deliciosamente misteriosas. Recomendo!

*

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Serpentário
Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2019
368 páginas

Citações favoritas:

A compulsão do cidadão de bem que amarrava suspeitos em postes já deveria ter sido erradicada, da mesma forma que a peste bulbônica e outras doenças do passado.

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Quando amanheceu, estava indisposta e a vontade de viver a abandonara, o que significava que era um dia normal, como qualquer outro.

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Na minha opinião, a maneira mais covarde de ataque é fazer com que alguém acredite ser mais fraco do que é. Fazer com que uma história seja esquecida é igualmente cruel. Covardia pura. Porém, preciso admitir, é eficaz.

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Sentir piedade em vez de medo era uma grande etapa naquele eterno ciclo de nascer e morrer.

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