[Resenha] Olhos d’água

Sinopse:

Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida?

Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.

Fonte: Pallas

Eu estava me devendo ler a magnífica Conceição Evaristo há tempos. Fiquei tão comovida por finalmente tirar um tempinho para lê-la que esses contos passaram rápido demais e terminei Olhos d’água já desejando Ponciá Valencio, outro livro da autora. Qual foi a última autora brasileira viva que você leu?

Esta obra é composta de 15 contos curtinhos, mas super densos, em que Evaristo conta histórias de realidades brasileiras, em maioria de mulheres negras. Quase todos os contos têm o nome da personagem que acompanharemos a partir dali. A própria autora dá o nome de escrevivência ao que faz e de fato a vivência é palpável na sofisticação estilística do texto, marcado por oralidade e por seu conteúdo muito muito cru e tão verdadeiro. Os neologismos, fruto da junção de duas palavras, aliás, são uma das marcas mais legais do estilo da autora.

Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida. Outro dia, tarde da noite, ouvi um escritor dizer que ficava perplexo diante da fome do mundo. Perplexo! Eu pedi para ele ter a bondade, a caridade cristã e que incluísse ali todos os tipos de fome, inclusive a minha, que pode ser diferente da fome dos meus. Falei, mas pelo menos naquele momento, me pareceu que ele fazia ouvidos moucos.

Trecho do conto “A gente combinamos de não morrer”

Apesar de ser um livro que descreve muitas dificuldades e absurdos socialmente aceitos, há também algumas pitadas de humor, como quando, durante um assalto, o assaltado começa a se despir e recebe como reação: “Não, doutor, a cueca não! Sua cueca não! Sei lá se o senhor tem alguma doença ou se tá com o cu sujo!”.

O conto que dá nome ao livro é de fato maravilhoso, apesar de não ser o meu favorito. Nele, a protagonista está perturbada por não se lembrar qual a cor dos olhos da própria mãe. Você pode escutar o conto inteirinho na voz da autora:

O livro passa de temas como fome e constrangimentos para sexualidade, aborto e suicídio, abordando a vulnerabilidade dos amores e lágrimas fingidas que aliviam lágrimas verdadeiras. Apesar da brutalidade do contexto das personagens, a riqueza da prosa nos permite empatizar com cada uma e humanizar os seus sofrimentos.

— Ei, fulana, o troço desceu! — E soltava uma gargalhada aliviada de quem conhecia o valor da vida e o valor da morte.

Já ficou claro que esse livro vai derramar lágrimas de quem é mais sensível, mas não se intimidem: as histórias também nos consolam com bonitos lampejos de conexão. Meu conto favorito é “Luamanda”, em que uma senhora de cinquenta anos relembra os amores sexuais de sua vida. É uma perspectiva muito generosa e com experiências diversas (inclusive não heteronormativas <3), que “Ana Davenga”, o conto sobre a esposa de um traficante, também apresenta.

Um dia, aos treze anos, a cama do gozo foi arrumada em pleno terreno baldio. A lua espiava no céu denunciando com a sua luz um corpo confuso de uma quase menina, de uma quase mulher. Corpo-coração espetado por um falo, também estreante. Um menino que se fazia homem ali, a inaugurar em Luamanda o primeiro jorro, fora de suas próprias masturbantes mãos. E ambos se lambuzavam festivamente um no corpo do outro. Luamanda chorando de prazer. O gozo-dor entre as suas pernas lacrimevaginava no falo intumescido do macho menino, em sua vez primeira no corpo de uma mulher. O amor é terremoto?

Trecho de “Luamanda”

Olhos d’água ganhou um prêmio Jabuti e entrou na lista de diversos vestibulares e Evaristo escreve também romances e poesia. Não restam dúvidas de que Conceição Evaristo é uma gigante que vai perdurar nas nossas prateleiras e memórias, bem como no patrimônio cultural brasileiro.

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Olhos d’água
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas
Ano de publicação: 2014
116 páginas

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Citações favoritas

Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e de todas as mulheres de minha família.

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Depois então, os dois ainda de corpos nus, ficavam ali. Ela enxugando as lágrimas dele. Era tudo tão doce, tão gozo, tão dor! Um dia pensou em se negar para não ver Davenga chorando tanto. Mas ele pedia, caçava, buscava. Não restava nada a fazer, a não ser enxugar o gozo-pranto de seu homem.

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Ana sabia bem qual era a atividade de seu homem. Sabia dos riscos que corria ao lado dele. Mas achava também que qualquer vida era um risco e o risco maior era o de não tentar viver.

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Era preciso reinventar a vida, encontrar novos caminhos. Não sabia ainda como.

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Na terceira barriga ela sabia de tudo que ia acontecer. Na primeira e na segunda fora apanhada de surpresa. Bilico, amigo de infância, crescera com ela. Os dois haviam descoberto juntos o corpo. Foi com ele que ela descobriu que, apesar de doer um pouco, o seu buraco abria e ali dentro cabia o prazer, cabia a alegria.

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(…) por um repetir constante do eu te amo, declaração feita, muitas vezes, em voz silenciosa, audível somente para dentro, fazendo com que o eco dessa fala se expandisse no interior mesmo do próprio declarante.

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E por que não gritar, não pichar pelos muros, não expor em outdoor a grandeza do sentimento? Não, não era a ostentação que aquele amor pedia. O amor pedia o direito de amar, somente.

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Nada de gastar o tempo curto e raro. É preciso correr, para chegar antes, conseguir a vaga, o lugar ao sol, pegar a fila pequena no banco, encontrar a lavanderia aberta, testemunhar a metade da missa. O padre era lento e o ritual também. Assistia a metade da liturgia, pelo menos não ficava com o remorso inteiro. Não perder a missa aos domingos foi a única recomendação que a mãe fizera. Alguns hábitos ela havia deixado para trás, outros reforçara e havia adquirido alguns novos.

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Lumbiá tinha ainda outros truques. Sabia chorar, quando queria. Escolhia uma mesa qualquer, sentava, abaixava a cabeça e se banhava em lágrimas. Sempre começava chorando por safadeza, mas em meio às lágrimas ensaiadas, o choro real, profundo, magoado se confundia.

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Não sei porque o medo, pensou Bica. Se ao menos o medo me fizesse recuar, pelo contrário, avanço mais e mais na mesma proporção desse medo. É como se o medo fosse uma coragem ao contrário. Medo, coragem, medo, coragemedo, coragemedo de dor e pânico.

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Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas. Meu filho dorme. Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito…

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E quando a dor vem encostar-se a nós, enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando a solução.

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