[Resenha] O príncipe de Westeros e outras histórias

Principe_de_Westeros_lombada25mm_Final.inddSinopse:

Obras inéditas de autores do gênero irão surpreendê-lo com enredos ardilosos e reviravoltas intrigantes. O próprio George R. R. Martin apresenta uma nova história do apaixonante e violento mundo de A Guerra dos Tronos, introduzindo um dos personagens mais canalhas da história de Westeros. Acompanhe grandes autores, como Gillian Flynn, Neil Gaiman, Patrick Rothfuss, Scott Lynch e muitos outros, nesta coleção de histórias emocionantes sobre vigaristas, mercenários e ladrões.

Fonte: Livraria Cultura

Cara Saída de Emergência: agradeço muito por trazer este livro ao meu conhecimento, mas precisamos falar sobre a loucura marqueteira que é essa edição. Entendo a tentação de colocar o nome de GEORGE R. R. MARTIN num corpo gigante bem no centro do livro, mas achei que trocar o nome da coletânea de Rogues (“Malandros” ou ”Canalhas”) para O príncipe de Westeros e outras histórias, sumindo com a referência ao tema principal de todas as histórias, acabou sendo omisso. O que une todos os contos (muito diferentes entre si, por sinal) é mencionado apenas no finalzinho da quarta capa – a qual, inclusive, fala apenas de “autores do gênero”, embora a coletânea inclua autores e contos que não são de fantasia nem ficção científica. E, pra você que ainda não captou a mensagem, a primeira página do livro é um trecho do conto de Martin num corpo igualmente gigante. No fim, acho que todo esse destaque para GRRM/fantasia acabou reduzindo o alcance da obra, quando o próprio Martin nos incentiva, na introdução, a expandir nossa visão e ler gêneros diferentes. Comentários editoriais à parte, o livro foi uma boa aquisição e alguns dos contos para os quais eu tinha menos expectativas foram os meus preferidos.

O livro começa forte com um conto de Neil Gaiman, “Como o Marquês recuperou o seu casaco”, passado no mundo do livro Lugar Nenhum – a Londres de Baixo. É apenas o primeiro de vários contos do livro em que os autores reutilizam personagens e/ou cenários, às vezes com resultados bons, outras nem tanto. Neste caso, funcionou. Você não precisa conhecer a obra de Gaiman para entender o conto perfeitamente. A Londres de Baixo é um lugar perigoso, cheio de seres metade animais, metade vegetais, em que o Marquês – um “faz-tudo” – vai atrás de seu casaco preferido, roubado pelo grupo dos “pastores” (não deixe se enganar pelo nome inocente, são uma das coisas mais assustadoras do livro). A história é bem-humorada, sarcástica e tem um ritmo rápido. Me diverti bastante.

O segundo conto, “Proveniência”, de David W. Ball, não tem nada de fantasia: passa-se em Nova York e o personagem principal, Max Wolff, é dono de uma galeria de arte. Quando uma obra de Caravaggio perdida durante a Segunda Guerra chega às suas mãos, ele resolve oferecê-la (por debaixo dos panos) para um conhecido. Então explica ao cara a origem do quadro e sua história conturbada. O conto é entremeado por flashbacks aos anos 40 e 50, onde vemos roubo de arte, negócios escusos e nazistas sendo nazistas. Eu estava gostando do conto, até o final – e daí passei a adorá-lo. Não vou falar mais nada pra não estragar a leitura.

Os próximos dois contos não me agradaram muito. O de Gillian Flynn, “Qual é a sua profissão?”, simplesmente por uma questão de gênero – não curto muito essa coisa de terror/suspense psicológico. Mas é muito bem escrito (narrado por uma ex-prostituta que vira cartomante e se envolve com uma cliente) e acredito que quem gosta da obra da autora (e de suas personagens piradas) vá gostar bastante, pois está cheio de surpresas e rogues. Já o conto de Paul Cornell, “Um jeito melhor de morrer”, é o principal caso de reaproveitamento de uma obra anterior que não deu certo – simplesmente porque achei o conto incompreensível. Meio ficção científica, meio fantasia, envolve mundos paralelos que as pessoas visitam e onde podem trazer seus eus mais jovens de volta (?), mas é tudo muito confuso. Tem worldbuilding aí suficiente pra um livro inteiro, e me interessei pelo universo, mas achei a escolha equivocada para uma coletânea.

Então Scott Lynch me reanimou com “Um ano e um dia na velha Theradane”. Quem gosta de fantasia deve saber que Lynch escreve uma série chamada Nobres Vigaristas, justamente sobre um grupo de malandros, então não é surpresa que seu conto seja um dos melhores do livro. Já apreciei que ele não reutilizou os personagens da série, mas inventou algo novo: a história é sobre Amarelle Parathis e sua antiga gangue criminosa, agora aposentada após magos dominarem a cidade de Theradane. Certa noite, depois de beber demais, Amarelle vai bater na porta da maga Ivovandas pra falar para ela e os outros magos pararem suas batalhas, que estão destruindo a cidade. Ivovandas aproveita para forçá-la a realizar um serviço. Não vou falar mais da trama, então só destaco algumas coisas preferidas: muitas personagens femininas (só na gangue são quatro, incluindo um casal), autômatos (sim, temos robôs e magos!), várias tentativas frustradas e criativas de realizar a missão, e magia e criaturas bem legais. Pra não mencionar o humor: ri alto várias vezes, e no final fiquei desejando que o conto se transformasse num romance inteiro.

O próximo conto, “A caravana para lugar nenhum”, de Phyllis Eisenstein, é muito diferente em tom, mas também achei maravilhoso. A autora usa um personagem seu, Alaric, o Bardo, cujo poder é bem fácil de entender: ele pode pular de um lugar para outro em um piscar de olhos. Alaric se encontra numa taverna quando o líder de uma caravana que vai atravessar um deserto (não temos muitos detalhes do mundo, mas eles não são necessários) o convida a se juntar a eles, para animar as noites solitárias na areia. Alaric, curioso, aceita. Então encontra dois mistérios: o filho do líder, um garoto meio enlouquecido, e a visão de uma cidade fantasma a distância. Embora a história não seja tão surpreendente quanto a de outros contos, achei deliciosa, com descrições bem-feitas, suspense constante e um protagonista cauteloso, mas nobre. Minha única crítica é que o conto não é exatamente sobre malandros, mas, ao final, fiquei com vontade de procurar os livros da autora.

O próximo conto me deixou com a mesma sensação, embora seja totalmente diferente. “Galho envergado”, de Joe R. Lansdale, se passa numa cidade fictícia do Texas e envolve dois personagens do autor que são rapidamente caracterizados: Hap Collins, um cara de quarenta e tantos anos que faz trabalhos diversos, incluindo uns bicos de detetive com seu melhor amigo, Leonard Pine (autodefinido como “preto viado e maloqueiro”). O objetivo da vez é encontrar a filha da mulher de Hap, uma garota envolvida com drogas e prostituição. Ri demais o conto inteiro, o que é surpreendente porque a trama envolve tráfico sexual e é bem pesada. Mas os personagens são tão sarcásticos (e, às vezes, terríveis) que é impossível não se divertir, mesmo que de um jeito meio sombrio. A dinâmica é aquela coisa de “parceiros detetives” que a gente já viu várias vezes, mas é muito bem escrita e fiquei querendo mais dos dois ao terminar.

Então chegamos a um dos contos que eu mais esperava: “A árvore reluzente”, de Patrick Rothfuss. Sou suspeita pra falar, pois o conto é sobre o personagem Bast, de A crônica do matador do rei, por acaso um dos meus personagens preferidos. A questão é se Rothfuss consegue entreter quem não leu seus livros – e a resposta, acredito, é sim. Bast aparece como o assistente de um estalajadeiro, mas a história é toda sobre o que faz quando Kvothe não está por perto. Isso envolve acordos com crianças – favores ou respostas em troca de segredos ou outros favores – o que o leva a conhecer tudo o que se passa na cidadezinha. No conto, um garoto pede um grande favor a Bast, que então vai tentar resolver. Acho que não é grande spoiler revelar que (mas fuja do resto do parágrafo se você não quiser saber nada sobre a série!!!) Bast pertence ao mundo dos Fae, e uma das partes mais fascinantes do conto é quando o personagem revela um pouco sobre a magia para uma das crianças que vêm procurá-lo. Como acontece frequentemente com a narrativa de Rothfuss, o conto nos deixa com mais dúvidas que respostas, e a prosa, como sempre, é deliciosa, com momentos engraçados e muito bonitos. Fãs da série devem gostar.

O penúltimo conto, “Em cartaz”, de Connie Willis, não me agradou nem um pouco. Situado num futuro próximo, em que os cinemas se transformaram em enormes complexos com centenas de salas, envolve uma universitária que não consegue assistir a um filme, porque é continuamente interrompida por amigos, conhecidos ou desconhecidos. Me lembrou de vários pesadelos meus (sabe quando você precisa fazer alguma coisa mas nunca consegue sair de casa???). Há um mistério envolvendo o complexo de cinema, que o ex-namorado da protagonista está investigando, mas achei tudo meio irritante e não consegui me importar muito.

Por fim, chegamos ao último conto. Sim, vocês adivinharam: “O príncipe de Westeros”, de George R. R. Martin. Nesses tempos difíceis em que Game of Thrones se tornou inassistível à medida que seus personagens preferidos passam pelo raio D-&-D-tizador, é um alívio ler algo que não foi tocado pela HBO. Infelizmente, acho que quem não é fã da série/não leu os livros não vá gostar muito deste conto. Ele é parte da história oficial de Westeros escrita por um arquimestre, então tem aquele ar de livro de história – do que eu gostei bastante, ainda mais porque narrador insere visões divergentes de um mesmo evento, o que nos deixa naquele mistério de “o que aconteceu mesmo”, mas que pode entediar e confundir alguém que não se interessa pelo universo da obra. O malandro da vez é Daemon Targaryen, príncipe de Westeros, mas, como estamos falando de As crônicas de gelo e fogo, gente ruim é o que não falta. Uma das coisas mais legais é ver a vida dos Targaryen antes da chamada “Dança dos dragões” (em que eles todos foram mortos): tem criança de três anos com dragão de estimação, e os Targaryen usam dragões como meio de transporte o tempo inteiro. Você também pode esperar as intrigas políticas e escândalos sexuais com os quais a série é recheada. Foi interessante, mas não é o conto mais forte da coletânea.

Em resumo: o livro vale a pena e alguns dos contos devem surpreender positivamente o leitor que o pegou apenas por alguns dos autores mais conhecidos. A tradução dos contos (feita por nove pessoas) está muito boa, embora haja lapsos de revisão aqui e lá. Não costumo ler contos e acho um dos gêneros mais difíceis de escrever, mas foi bem legal ver certos autores condensarem uma história interessante e emocionante em trinta ou quarenta páginas. Recomendado!

*

O príncipe de Westeros e outras histórias
Organizadores: George R. R. Martin e Gardner Dozois
Tradutores: Petê Rissati, Taíssa Reis, Ana Resende, Eric Novello, Marina Boscato, Débora Isidora, Ivar Jr., Carol Chiovatto, Ana Death Duarte
Editora: Saída de Emergência
Ano desta edição: 2015
480 páginas

Citações preferidas

Os livros deveriam ampliar nossa visão, nos levar a lugares onde nunca estivemos e mostrar coisas que nunca vimos, expandir nossos horizontes e nossa maneira de olhar o mundo. Limitar a leitura a um único gênero acaba com essa missão. Também nos limita, nos torna menores. Para mim, tanto no passado como agora, parece haver boas e más histórias, e essa era e ainda é a única distinção que realmente importa.

(Introdução)

*

O Marquês de Carabas sempre tinha um plano, e sempre tinha um plano B; e, por trás desses planos, sempre tinha um plano real, um que não deixaria nem ele mesmo saber, para quando o plano original e o plano B tivessem falhado.

(“Como o Marquês recuperou seu casaco”)

*

– Você canta bem – disse o homem de olhos escuros. – Poderia trabalhar na casa de alguém rico. Até mesmo na casa de um rei, creio eu.

[…]

– Eu tive minha cota de casas de ricos. Até mesmo de reis. Mas o horizonte me atrai – disse, erguendo os olhos. – Quero ver o que está além dele.

(“A caravana para lugar nenhum”)

*

– O que vou fazer é quebrar as pernas de vocês dois – disse ele. – Uma de cada.

– Não precisa disso, Leonard – falei.

– Eu sei. Mas eu quero.

– Olha só – disse Kevin. – Ouça o seu amigo. Nós só trabalhamos para aquele retardado. Estamos fora. Esperamos que vocês consigam a garota de volta.

– Ah, nós vamos pegá-la de volta, se der – disse Leonard – Mas prestem atenção: vocês iam matar o meu amigo. Se eu não tivesse aparecido, vocês teriam matado. Então, qual perna?

[…]

– Mas vamos morrer se nossas pernas forem quebradas.

– Não sejam tão dramáticos, cacete – disse Leonard. – Vocês ainda poderão se arrastar, talvez até achar um pau pra se apoiar ou sei lá. Sério, não é problema nosso. Qual perna? Ou eu escolho.

(“Galho envergado”)

*

Encantamento era uma segunda natureza. Tratava-se simplesmente de fazer as pessoas verem o que queriam ver. Fazer as pessoas de bobas era tão simples quanto cantar. Enganar e contar mentiras era como respirar.

Mas isso? Convencer as pessoas da verdade que elas eram deformadas demais para ver? Como poderia sequer começar?

Era uma confusão. Essas criaturas eram frágeis e assustadiças em seu desejo. Uma cobra nunca se envenenaria, mas essas pessoas fizeram disso uma arte. Se enrolavam em seu medo e choravam por sua cegueira. Era enfurecedor. O suficiente para partir um coração.

(“A árvore reluzente”)

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