[Resenha] Duna

dunaSinopse: 

A vida do jovem Paul Atreides está prestes a mudar radicalmente. Após a visita de uma mulher misteriosa, ele é obrigado a deixar seu planeta natal para sobreviver ao ambiente árido e severo de Arrakis, o Planeta Deserto. Envolvido numa intrincada teia política e religiosa, Paul divide-se entre as obrigações de herdeiro e seu treinamento nas doutrinas secretas de uma antiga irmandade, que vê nele a esperança de realização de um plano urdido há séculos. 

Fonte: Editora Aleph

A quarta capa de Duna apresenta uma citação de Arthur C. Clarke dizendo que não conhece nada que se compare com este livro, exceto O senhor dos anéis. Uma afirmação ousada, que me fez começar a leitura com grandes expectativas. Já adianto que sim: Duna é épico, a construção de mundo é de cair o queixo e vê-se facilmente por que o livro é considerado um dos pilares da ficção científica – mas, no fim, ainda prefiro O senhor dos anéis.

Vamos lá: a história se passa em um futuro distante (segundo a internet me informa, cerca de 21 mil anos após a nossa época), em um império intergaláctico feudal (o que por si só é a melhor expressão que você vai ouvir hoje). No planeta de Caladan, somos apresentados a Paul Atreides, de 15 anos, e sua mãe Jéssica, que faz parte de uma irmandade de mulheres conhecidas como Bene Gesserit, que possuem poderes mal delineados, entre os quais um treinamento físico e mental, observação penetrante e a capacidade de controlar pessoas. Chega em Caladan a Reverenda Madre das Bene Gesserit, que censura Jéssica por ter tido um filho homem, acusando-a de ter feito isso na esperança de dar à luz o “Kwisatz Haderach”, o único homem que poderia acessar um local proibido aos poderes das Bene Gesserit.

Se algum fã de fantasia está lendo isso, deve estar pensando o mesmo que eu: Robert Jordan certamente se inspirou em Duna para criar as Aes Sedai, as mulheres poderosas de A roda do tempo, pra não mencionar as semelhanças entre o destino profético de Paul e o de Rand al-Thor. Como as Aes Sedai, as Bene Gesserit também são vistas com temor e desconfiança: o que talvez seja ainda mais justificado no caso delas, pois suas tramas atingem diversos planetas.

Voltando a Paul: ele descobre que vem sendo treinado a vida toda para se tornar um Mentat (uma pessoa de poder lógico supremo), além de receber treinamento da mãe nas doutrinas das Bene Gesserit. E já no começo do livro começa a ter visões do seu futuro, uma habilidade que vai se desenvolver mais ao longo da história. Nessas visões, ele já vê que seu destino está entrelaçado ao do planeta Arrakis – ou Duna –, um lugar deserto para onde a família Atreides está sendo enviada. O planeta, até então, estivera sob o jugo feroz da casa Harkonnen, inimigos dos Atreides. Fica claro que alguma jogada política está por trás da mudança, envolvendo inclusive o imperador. A Reverenda Madre já avisa Paul logo de cara que não há esperança para a sobrevivência de seu pai, Leto. Mas, sem escolha, a família se muda para Duna, torcendo pra conseguir virar o jogo antes que sejam destruídos.

Duna é um planetinha bem ruim pra se viver. É exatamente o que o nome indica, e como se o calor, a areia e a falta de água não fossem o suficiente, há também vermes da areia gigantes (chegando a centenas de metros) que podem surgir do subterrâneo pra te devorar. Por que raios alguém se interessaria pelo lugar? O motivo é o melange, uma especiaria com alto valor, que é explorada pelos governantes do planeta e rende fortunas inimagináveis aos Harkonnen. Preferencialmente, você extrai o negócio antes de ser devorado por um verme da areia – não que os Harkonnen se importem muito com a vida de seus funcionários.

Além da população das poucas cidades do planeta, há também os habitantes nativos: os fremen, homens e mulheres que vivem na areia e no subterrâneo e que são meio desprezados como selvagens inúteis pelos Harkonnen e outros. Leto Atreides e seus conselheiros, no entanto, enxergam o potencial dos fremen como aliados. A questão é se vão conseguir se aproximar do elusivo povo do deserto antes que a conspiração dos Harkonnen se desenrole.

Essa, aliás, não é mistério: no capítulo 2, o autor ousadamente já apresenta todo o plano dos antagonistas, revelando inclusive quem é o traidor na casa dos Atreides. O barão Vladimir Harkonnen, o principal antagonista, está louco pra destruir Leto e a família inteira dele, e para pôr seu sobrinho, o desprezível Feyd-Rautha, no lugar do imperador. Harkonnen é esperto e implacável. Infelizmente, o autor achou que precisava complementar a caracterização com o fato do homem ser grotescamente obeso e abusar de garotinhos, o que achei bem desnecessário. De qualquer forma, essa estratégia de escancarar o plano do inimigo é bem interessante: o mistério é se as coisas acontecerão como eles pretendem. Não direi o que acontece, mas já adianto que, de uma forma ou de outra, antes da metade do livro já descobrimos como a armadilha acaba.

E não só as tramas já começam com tudo, o universo da obra também: não há exatamente uma curva de aprendizagem – é mais uma escalada íngreme. Ao final da edição há um glossário enorme com centenas de termos sobre o mundo de Herbert. Fiquei dividida: por um lado, é legal ser jogado de cara num mundo tão completo e complexo. Por outro, acho que os livros deveriam bastar a si próprios e não obrigar o leitor a recorrer a glossários, o que tive que fazer constantemente pelas primeiras 100 páginas, pelo menos, deixando a leitura bem fragmentada.

Mas é inegável que o mundo de Herbert é muito bem pensado, e tem vários aspectos interessantes. A topografia de Arrakis é muito bem desenvolvida, explicada por meio da biologia e da química, enquanto as estratégias dos fremen para sobreviver a um ambiente onde praticamente não há água são uma aula de construção de mundo: tudo na vida deles, dos rituais às roupas, dos tabus aos ritos fúnebres, está conectado com as características do planeta. (Só achei meio cansativos os aspectos mais machistas do mundo: por exemplo, se um guerreiro é morto por outro, sua esposa vira criada do homem que o matou. Oi?)

Mas o destaque desse universo, pra mim, foi a religião. O tema religioso é fortíssimo no livro, pois Paul, ficamos sabemos por meio das citações que iniciam cada capítulo (tiradas de livros que seriam escritos no futuro sobre ele), se torna uma espécie de messias/líder religioso.

A religião do Império é uma mistura das antigas religiões humanas reunidas na chamada Bíblia Católica de Orange, cujos preceitos ecoam diversas correntes de pensamento da nossa Terra. É bem interessante ver como Herbert fez um amálgama dessas crenças, encontrando pontos em comum entre elas e criando algo bem verossímil. Além disso, uma das ideias mais mirabolantes e geniais do livro é a de que as Bene Gesserit implantam profecias em certos lugares, à espera do dia em que elas serão úteis para seus propósitos. Isso aconteceu em Arrakis, e a religião dos fremen contém profecias que eles acreditam se referir a Jéssica e Paul. Essa desmistificação de previsões, no entanto, vai de encontro com a própria ideia um tanto fantástica do Kwisatz Haderach, de modo que o livro oscila um pouco entre fantasia e ficção científica.

A narração é em terceira pessoa onisciente, focada no ponto de vista de Paul e Jéssica, com incursões pela mente do barão Harkonnen, seu sobrinho e outros personagens secundários (e excelentes, como os homens de armas do duque Leto, que treinaram Paul na infância e adolescência, e Kynes, o planetólogo de Arrakis). Assim, temos o ponto de vista dos antagonistas – mas, ao contrário das fantasias contemporâneas, não para “vermos os dois lados”: sabemos muito bem quem são nossos heróis.

Os destaques são os protagonistas, Paul e seus pais. Leto Atraides: o que dizer desse cara que mal pude conhecer e já considero pacas? Cheio de contradições e culpa, o duque é inteligente, cínico, prático mas extremamente compassivo, e meu personagem preferido. Jéssica é uma mulher fascinante e inteligente, e sua relação com o filho é bem peculiar, pois ela tem toda a frieza calculista de uma Bene Gesserit e o manipula frequentemente – mesmo que para o próprio bem dele, e mesmo que o ame profundamente. Paul também a ama, mas vai percebendo que a mãe moldou a sua vida e começa a tomar suas próprias decisões. Essa tensão entre eles rende ótimas cenas.

Meu maior problema, porém, foi a evolução de Paul ao longo do livro. Ele começa como um garoto orgulhoso, irascível e protetor de seus entes queridos; mas, à medida que ganha seus poderes, vai se tornando frio, quase uma máquina. Além disso, embora eu tenha amado o capítulo em que sua mente se “expande” e ele vê passado, presente e os futuros possíveis, a repetição desse tipo de coisa foi ficando bem cansativa. Toda a questão messiânica deixou-o cada vez menos humano, e ao final do livro eu não me importava muito com o personagem.

Um comentário sobre os nomes dos personagens: de início estranhei a mistura louca de influências diversas, mas depois percebi como isso passa a ideia de miscigenação – e antiguidade, como é o caso dos Atreides, pois este é o nome de família de Agamêmnon e Menelau, em Homero. Isso me chamou atenção pois Agamêmnon é famoso pela história de sua esposa, que tramou para assassiná-lo. Fiquei esperando pra ver se a trama refletiria a influência… mas claro que não darei spoilers!

E, falando em nomes, devo elogiar a tradução dos muitos neologismos de Herbert, que foram recriados de modo bem interessante.

Em conclusão: a primeira metade do livro é mais empolgante que a segunda, que tem um ritmo mais lento e não apresenta grandes surpresas ou revelações. Gostei bastante de todas as questões políticas e econômicas da obra: se você curte esse tipo de coisa, vai adorar as intrigas desse livro. Mas, por mais que a construção de mundo seja elaborada, os personagens não me cativaram tanto quanto eu gostaria. Fiquei com vontade de saber o que acontece em seguida… mas não de reencontrar Paul.

*

Duna
Autor: Frank Herbert
Tradutor: Maria do Carmo Zanini
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1965
Ano desta edição: 2010
544 páginas

Este livro foi cedido em parceria com a Aleph.

Citações preferidas

Paul entendia os propósitos terríveis. Eram irrefreáveis. Eram uma necessidade em si mesmos. Paul sentiu-se infectado por um propósito terrível. Não sabia ainda qual.

*

A grandeza é uma experiência transitória. Nunca é consistente. Depende em parte da imaginação criadora de mitos da humanidade. A pessoa que experimenta a grandeza precisa perceber o mito no qual está inserida. Precisa refletir o que nela é projetado. E precisa entender muito bem o sarcasmo. É isso que a desatrela da crença em suas próprias pretensões. O sarcasmo é tudo que lhe permite se mover dentro de si mesma. Sem essa qualidade, até mesmo a grandeza ocasional destruirá um homem.

*

As trevas são uma recordação cega, ela pensou. Escutamos atentamente, esperando ouvir os ruídos da alcateia, os gritos daqueles que caçavam nossos ancestrais num passado tão remoto que só nossas células mais primitivas ainda recordam.

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15 respostas em “[Resenha] Duna

  1. Tenho “Duna” aqui na minha estante e sempre tive vontade de ler, ainda mais por ser um dos clássicos da ficção científica e a maioria dos leitores fala bem dessa obra. Vamos ver se me empolgo e pego para ler ainda em 2015. Espero gostar um pouco mais do que você, mas tudo é possível. ASHUSAHUAHSUHSA

    Gostei da resenha!! Abraços.

    • Oi, Vagner! Leia sim. Apesar das minhas críticas, não me arrependo de ter pego o livro. É um mundo bem original e interessante. Acho que todo fã de fantasia/sci fi deveria conhecer. Obrigada pela visita!

    • Acho que vale a pena, viu! O mundo é muito bem elaborado. Por mais que eu não tenha me apaixonado pelos personagens, o universo é bem legal. Obrigada pelo comentário 🙂

  2. Oi Isa!
    Adorei a resenha. Não é sempre que a gente se diverte lendo uma resenha. E sim “império intergaláctico feudal” é, sem dúvida, a melhor expressão que eu vou ouvir hoje (quiça na semana! Haha)
    Acho incrível como a Editora Aleph tem um catálogo que dá para ser lido de cabo a rabo, né? Todos os livros parecem interessantes. Mas confesso que “Duna” não está no topo dos meus desejados.
    Concordo com você sobre o livro ter que se bastar. É importante que o autor encontre maneiras de tornar aqueles termos próprios do seu mundo inventado familiares para o leitor ao apresentá-los na narrativa. Mas acho bacana a atenção da editora em fazer o glossário.
    Gostei do detalhe dos nomes representando a miscigenação.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

    • Oi, Mariana! Que bom que gostou da resenha 😀
      Eles têm livros ótimos, né? Estou começando a me aventurar na ficção científica só agora, e Duna foi com ctz um bom lugar pra começar, apesar das minhas ressalvas. E embora prefira conhecer o universo do livro só pela narrativa, foi até interessante ter que ir ao glossário: foi como se estivesse lendo algo realmente produzido em uma outra cultura, sabe?
      Enfim, obrigada pela visita!

  3. Pingback: [Resenha] Kenobi | Sem Serifa

  4. Isa, você desenvolveu também a resenha, explicando cada detalhezinho do livro, que fiquei encantanda e morrendo de saudade do mundo de Duna! A resenha está maravilhosa, parabéns! 🙂

    Também tive esse conflito com Paul, no início ele parecia um personagem BEM interessante, mas no fim ele era tão…foda-se pra tudo, que passou a me incomodar bastante.

    Tô pensando aqui se começo a ler logo O Messias de Duna.

    Beijão!
    http://www.ummetroemeiodelivros.com

    • Oi, Babi! Obrigada, fico feliz que vc gostou! O mundo é bem envolvente mesmo, mas tenho tanta coisa pra ler que não sei se um dia chego nas continuações… mas se ler O Messias, me fale se vale a pena! Bjos!

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