[Resenha] Kenobi

kenobicapaSinopse:

Após os terríveis acontecimentos que deram fim à República, coube ao grande mestre Jedi Obi-Wan Kenobi a missão de proteger aquele que pode ser a última esperança da resistência ao Império. Vivendo entre fazendeiros no remoto e desértico planeta Tatooine, nos confins da galáxia, o que Obi-Wan mais deseja é manter-se no completo anonimato e, para isso, evita o contato com os moradores do local. No entanto, todos esses esforços podem ser em vão quando o “Ben Maluco”, como o cavaleiro passa a ser conhecido, se vê envolvido na luta pela sobrevivência dos habitantes de um oásis esquecido no meio do deserto e em seu conflito contra o perigoso Povo da Areia.

Fonte: Editora Aleph

Este é o segundo livro da editora Aleph passado num planeta desértico que eu leio este mês. Mas, ao contrário de Duna, que demorei pra terminar, devorei Kenobi em alguns dias. Antes de começar a resenha, porém, babem nesta edição maravilhosa:

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Ewan McGregor é sempre uma boa escolha.

Tan tan TAN, TAN, TANANANNNNN NAN, TANANAAAAAAAN NAN, tananan…

Tan tan TAN, TAN, TANANANNNNN NAN, TANANAAAAAAAN NAN, tananan…

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Ostentação: as partes e os capítulos começam todos em páginas duplas.

Bom, vamos à história. Obi-Wan Kenobi chega a Tatooine com Luke Skywalker e deixa o garoto com os Owen, preparado para se enfurnar no deserto e só sair de lá quando Luke estiver pronto para ser útil para a galáxia. E então o Jedi some por umas 80 páginas enquanto o livro nos apresenta a uma série de outros personagens. Mas não tema: estes são bem interessantes e, embora você fique ansioso para o personagem-título aparecer, logo se envolve nos dramas dos demais.

Conhecemos A’Yark, líder do Povo da Areia, que odeia os “colonos” (todo mundo que não é do Povo da Areia) e comanda ataques a fazendas de umidade da região. O maior dos fazendeiros é Orrin Gault, o homem mais rico por ali, que organizou um tal de Fundo do Chamado dos Colonos, um sistema de ajuda mútua contra ataques do Povo da Areia. Por meio dele Orrin fomenta uma sensação de comunidade, a qual se concentra principalmente no Lote do Dannar, um complexo que é loja, bar e ponto de encontro dos habitantes do deserto. A dona do Lote é Annileen, esposa do tal Dannar, o qual morreu num ataque do Povo da Areia anos atrás e deixou para trás dois filhos, Jabe e Kallie. Orrin era o melhor amigo de Dannar, e a família de Annileen e a de Dannar (que tem dois filhos arruaceiros, Mullen e Veeka) estão fortemente conectadas – por hábito e por negócios, já que Orrin praticamente se instalou no Lote e o usa como o centro do Fundo do Chamado dos Colonos.

O livro é todo narrado em terceira pessoa pelo ponto de vista de terceiros, especialmente Annileen, Orrin e A’Yark. Só ouvimos os pensamentos de Obi-Wan em alguns interlúdios, ou melhor, “meditações”, nas quais ele conversa com seu falecido mestre Qui-Gon. Pode parecer estranho, mas funciona: é bem mais interessante ver os outros personagens tentando entender quem é o eremita misterioso que simplesmente surge um belo dia. O ponto de vista de A’Yark é especialmente fascinante, pois ficamos sabendo das crenças e da mitologia do Povo da Areia, e vemos como eles tiram conclusões bastante erradas a partir do que está acontecendo ao redor. Como sabemos quem é “Ben” Kenobi e tudo o que aconteceu antes de sua vinda a Tatooine, não precisamos de explicações.

Mas não se preocupe: não é preciso rever a Nova Trilogia pra ler o livro. Lembrando por cima do que aconteceu – que o Anakin matou umas crianças, que o Obi-Wan o deixou “morto” no vulcão etc. – você já pode pegar o livro. Se você nunca viu a Nova Trilogia… primeiro, parabéns; as más notícias são que você devia fazer isso, porque embora a trama de Kenobi seja bem envolvente, o mais legal é entrever o Obi-Wan que conhecemos por trás de suas evasões e meias-palavras.

Enfim, Obi-Wan tenta, mas não consegue ficar parado enquanto outras pessoas estão correndo risco de vida. Quando percebe, já incitou a curiosidade dos locais, especialmente de Annileen, que logo se afeiçoa ao Jedi. Isso poderia dar muito errado, narrativamente falando: fiquei me perguntando se ia surgir um romance forçado, mas felizmente não foi o que aconteceu. Eles estabelecem uma ligação, sim, mas é tudo muito bem escrito e a fascinação de Annileen pelo homem é bem natural (afinal, se um cara barbudo cai do céu e salva seus filhos sem pedir nada em troca, você fica de olho nele).

Claro que ajuda o fato de Annileen, por si só, ser uma personagem incrível. Mãe preocupada e comerciante capaz, ela pode não ser uma “heroína” padrão, mas faz de tudo para proteger a família e tem muita compaixão por Ben, o qual ela logo vê que está sofrendo profundamente por alguma coisa. O Jedi se recusa a dar informações sobre si, mas não consegue não ser afetado pelas pessoas ao redor. Ele sente falta não apenas de uma conexão pessoal, mas também de uma comunidade à qual pertencer. (É possível que eu tenha derramado uma lágrima.)

Aliás, embora hoje os anti-heróis estejam mais na moda, tenho que dizer que amo um personagem nobre, e Obi-Wan se encaixa perfeitamente no papel. O fato de ainda acreditar na redenção (depois de tudo!) e de não conseguir se omitir quando vê injustiças é a grande força do personagem, e não há como não se apegar a ele. Ter nobreza de caráter não quer dizer que alguém seja estúpido ou inocente, nem que lhe falte senso de humor.

Parabéns ao autor, aliás, por conseguir capturar o espírito do personagem perfeitamente: dá quase pra ouvi-lo falando os diálogos do livro, desde os discursos profundos até as tiradas sarcásticas. E ri com quão pouco impressionado ele estava com os filhos cretinos de Orrin, que desde o começo prometem ser insuportáveis e tentam ameaçar o Jedi.

Achei meio estranho, de início, os dois adolescentes serem propostos como antagonistas, além de A’Yark, pois me pareciam adversários meio babacas. E de fato eles não se provam uma grande ameaça, ficando meio jogados na trama, embora se envolvam nos acontecimentos finais. Mas vários personagens mudam de cara até o final do livro e a coisa fica mais interessante do que apenas uma rebelião adolescente. E já que estou falando de jovens, os filhos de Annileen são ótimos: o revoltado Jabe, que quer vingar a morte do pai e fazer alguma coisa da vida, e Kallie, que tem um crush imenso em Ben e está sempre causando dor de cabeça à mãe, proporcionam momentos divertidos e bem sensíveis ao longo do livro.

Boa parte da ação se passa em alguns dias, principalmente na segunda metade do livro, o que cria um ritmo acelerado. Tive apenas dois problemas com a história (SPOILERS até o fim do parágrafo): primeiro, é sugerida uma ameaça ao próprio Luke, que prometia causar grandes problemas mas não chega nem perto de ser concretizada; segundo – e o pior – foi que achei a resolução entre Obi-Wan e Annileen meio decepcionante, pois senti que ela merecia mais respostas do que acabou ganhando.

O autor diz que a proposta era transformar Star Wars num western, e deu certo. Agora, eu queria muito que isso virasse um filme. Alguém aí tem o telefone do George Lucas?

*

Kenobi
Autor: John Jackson Miller
Editora: Aleph
Tradutor: Fábio Fernandes
Ano desta edição: 2015
528 páginas

Livro cedido pela editora Aleph, aquela linda.

Citações preferidas

“Algumas pessoas atraem problemas”, sua mãe havia lhe dito. E por “pessoas” sua mãe queria dizer “homens”, e por “algumas” ela queria dizer “todos”.

*

─ Todos os deuses fracassam – disse A’Yark, cruzando os braços. – As sombras do fracasso acompanham todas as coisas vivas. Com os deuses não é diferente.

*

─ Eu tento evitar as palavras “sempre” e “nunca” – disse Ben. – Coisas que parecem permanentes, garantidas, podem encontrar um jeito de mudar rapidamente, tornando-se algo que você nem sequer é capaz de reconhecer. E nem toda mudança é para melhor.

*

─ Uma vida que parece pequena por fora pode ser infinita por dentro. Até mesmo alguém vivendo no lugar mais remoto do universo pode se preocupar com centenas de outras pessoas. Ou com toda a galáxia.

*

─ Sei que não é justo. A ordem que há em nossas vidas pode simplesmente desaparecer. Às vezes, porque não somos diligentes o bastante. Às vezes, porém, não é culpa de ninguém…

8 respostas em “[Resenha] Kenobi

  1. Estou ansiosa por ler este livro, Obi Wan é um personagem fabuloso. 🙂

    Fiquei um tanto decepcionada com a leitura de Herdeiro do Império. Senti que a tradução ficou meio pobre. Erros grotescos, frases mal construídas. Não sei, não curti.

    (PS: posso fazer uma sugestão? As imagens dos posts são tão pequenas… Seria uma leitura muito mais proveitosa se elas estivesse em tamanho maior ou alcançassem toda a largura do post <3)

    • Obi-Wan é um lindo! E não li Herdeiro do Império, mas em Kenobi não encontrei erros de tradução, e achei que o texto flui bastante bem. 🙂

      (As imagens ampliam se vc clicar nelas, mas vc tem razão: vou tentar deixá-las um pouco maior no post. Obrigada pela sugestão!)

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