[Resenha] As fontes do paraíso

capafontesSinopse:

Há dois milênios, Kalidasa desafiou sua família e sua religião para empreender uma verdadeira maravilha arquitetônica: a construção de um suntuoso palácio no topo de uma montanha, que o alçaria aos céus e o igualaria aos deuses. Dois mil anos depois, o ambicioso engenheiro Vannevar Morgan, que já unira dois continentes com a Ponte Gibraltar, se propõe a construir uma nova ponte, desta vez ligando a Terra ao espaço sideral. O que ele não imagina, porém, é que em seu caminho está um monastério budista, localizado sobre a única montanha na qual seu projeto poderia ser construído. Em paralelo, a humanidade detecta um estranho sinal de rádio, de origem não humana. Pela primeira vez na história, o planeta Terra é contatado por uma raça alienígena que, ao que tudo indica, está cada vez mais próxima.

Fonte: Aleph

Foi um mês de muita ficção científica pra mim, mas acho que este livro é o que mais merece a alcunha. Duna é quase uma fantasia épica; Kenobi, um space opera western. Já As fontes do paraíso é pura ficção especulativa, respondendo àquela velha questão que todo mundo já se fez: “E se a gente construísse uma torre gigante até o espaço?”.

Certo, talvez nem todo mundo. E, mesmo no século 22, quando Vannegar Morgan, engenheiro-chefe da Corporação de Construção Terráquea, tem a ideia, algumas sobrancelhas se erguem em ceticismo. E em oposição também: os monges do país fictício da Taprobana (inspirado no Sri Lanka), cuja montanha sagrada é o único ponto na Terra em que a torre pode ser erguida, não querem abrir espaço para Morgan. Esse é o conflito básico da obra.

A história é narrada em terceira pessoa do ponto de vista de diversos personagens: Morgan, pela maior parte, mas também uma jornalista e um ex-diplomata. E o livro começa sob o ponto de vista do antigo rei Kalidasa, que construiu as tais “fontes do paraíso”, dois mil anos antes.

Há também alguns momentos muito legais de narrador onisciente, que apresentam o Planador Estelar – uma sonda interestelar que é o primeiro contato da humanidade com civilizações alienígenas – e como ele afetou a percepção das pessoas sobre o seu lugar no universo. As mensagens trocadas entre a humanidade e o Planador (que rapidamente aprende a se comunicar conosco) estão entre minhas partes preferidas do livro.

A premissa da obra é bastante original – precisei de algumas páginas para me situar nessa história louca! – e as oposições enfrentadas por Morgan (não só em termos de engenharia, como também psicológicas e políticas) são bem interessantes e erguem questões diversas, com o conflito entre tradição e inovação. Os personagens não são muito desenvolvidos (Morgan é o mais interessante), mas acho que não era esse o objetivo do livro, que se concentra em questões maiores: religião, legado, a ambição humana…

Mas, pra falar a verdade, quando terminei a obra, não sabia dizer se tinha gostado ou não – e acho que o problema é que as ideias expostas são mais bem estruturadas do que a narrativa em si. Alguns SPOILERS a seguir. A obra é bem lenta; no início há muita discussão que se estende por um período de meses, mas a última parte do livro decorre em apenas algumas horas. Além disso, no começo achei que havia algum mistério quanto ao rei Kalidasa e as fontes, porque voltamos ao ponto de vista da antiguidade em mais alguns capítulos. Assim, pensei que teríamos histórias paralelas, mas minhas expectativas foram quebradas quando essa linha narrativa simplesmente desapareceu. Além disso, a questão do contato com alienígenas (sobre a qual eu teria adorado ler mais) fica um tanto jogada na narrativa, e é menos uma subtrama do que um jeito de “preparar” o final da obra e o que ela tenta nos dizer. (Mas tenho que admitir que adorei a última frase do livro, que me fez gritar “VOCÊ ESTÁ DE BRINCADEIRA COMIGO!”. Não dá explicar essa, só lendo mesmo.)

Esse é meu primeiro livro de Clarke e não posso compará-lo com as outras obras do autor, mas não foi uma leitura muito rápida e a narrativa é bem inconstante. Mesmo assim, a prosa sutil do autor me impressionou, e acredito que fãs de ficção científica devem gostar da originalidade da trama e de suas ideias ambiciosas.

*

As fontes do paraíso
Autor: Arthur C. Clarke
Tradutor: Susana L. de Alexandria
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1979
Ano desta edição: 2015
352 páginas

Livro cedido pela editora Aleph.

 

Citações preferidas

Obstáculos feitos pelo homem […] nunca o detiveram antes. A natureza era seu real antagonista – o inimigo amistoso que jamais trapaceava e sempre jogava limpo, mas nunca falhava em aproveitar cada pequeno deslize ou omissão.

*

Assim como a verdadeira compreensão da geologia era impossível até sermos capazes de estudar outros mundos além da Terra, uma teologia válida deve aguardar o contato com inteligências extraterrestres. Não pode haver nenhuma disciplina chamada religião comparada, enquanto estudarmos apenas as religiões do homem.

*

04 de junho de 2069, 07h59 (Hora Média de Greenwich). Mensagem 9056, sequência 2.

Planador Estelar para Terra:

Sou incapaz de distinguir de forma clara entre suas cerimônias religiosas e o comportamento aparentemente idêntico nos espetáculos esportivos e culturais que me foram transmitidos. Refiro-me em particular aos Beatles, 1965; à Final da Copa do Mundo, 2046; e ao show de despedida de Johann Sebastian Clones, 2056.

14 respostas em “[Resenha] As fontes do paraíso

  1. Olá, Isa.
    Eu li esse livro recentemente e amei. E concordo com muitos dos pontos apresentados.
    A leitura é realmente mais lenta no começo, até porque esse não é um FC cheio de ação. Mas, mesmo assim a leitura é bem agradável.
    Realmente a questão da nave alienígena ficou meio solta no livro. Imagino que o autor a colocou apenas como uma crítica ao modo de agir humano e, também, para mostrar o motivo da mudança da postura da sociedade da época. Mas ainda assim é meio solto. rs
    Excelente resenha.

    http://desbravadoresdelivros.blogspot.com.br

  2. Oi Isa!
    Eu ainda não li Arthur C.Clarke, mas o autor está na minha lista (provavelmente eu comece por “2001”).
    Gostei dos abordagens psicológicas e políticas que você mencionou e dos conflitos entre tradição e inovação. Acho que são as coisas que fazem a ficção cientifica tão interessante (ainda mais uma que tem essa abordagem “tradicional” que você mencionou).
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

    • Oi, Mariana! A Babi leu “2001” (e fez a resenha), dê uma olhada! Gostei bastante dos assuntos tratados por esse livro, mesmo que a estrutura não tenha me agradado muito. Achei as discussões bem interessantes!
      Obrigada pelo comentário! 🙂

  3. Oi Isa!
    Acabei de ler ontem o livro e gostei muito. Sou grande admirador da obra do Clarke, já tinha lindo 2001, O Fim da Infancia e Encontro com Rama, todos muito bons. Estava só no aguardo deste lançamento. Adorei a sua resenha, concordo com tudo que falaste. Em todos os livros dele na verdade fica algo em aberto, o mistério nunca é totalmente decifrado. Uma pena o autor á não estar mais entre nós!
    Abraços!!!

    • Oi, Eduardo! Que bom que gostou da resenha. Não li mais nenhum livro dele, mas fiquei intrigada pelo estilo, talvez arrisque outro uma hora dessas. Obrigada pela visita!

  4. Pingback: [Especial] Livros favoritos de 2015 | Sem Serifa

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