[Resenha] Michelangelo: uma vida épica

michelangeloSinopse:

A arte ocidental não seria a mesma sem Michelangelo Buonarroti. Vaidoso, ciumento, obsessivo, tímido, excêntrico e genial, ele transformou para sempre nossa ideia do que pode ser um artista. Se sua vida e a complexidade das obras que produziu podem ser comparadas à saga de um herói da mitologia clássica, igualmente hercúleo foi o esforço empreendido por Martin Gayford nesta biografia. Do jovem artista tentando agradar um protetor rico, passando pelo homem que com apenas 26 anos escolhe um bloco de mármore para retirar dele o Davi, até o reconhecido mestre, já no início da velhice, pintando o enorme afresco do Juízo Final na capela Sistina, acompanhamos a trajetória de alguém que viveu paixões intempestivas, guerras e pequenos apocalipses no epicentro das transformações de uma Europa entre a Renascença e a Contrarreforma.

Fonte: Cosac Naify

Imortalizado como uma das Tartarugas Ninjas, Michelangelo Buonarroti (1475-1564) também é conhecido por outras coisas. Blasfêmias à parte, quando comecei a ler a biografia de Martin Gayford, publicada pela Cosac Naify em uma das edições mais lindas que já tive o prazer que possuir, eu nem suspeitava de todas as áreas em que o artista atuou, nem de tudo pelo que passou: ao longo de seus 89 anos (!), viu o pontificado de oito papas, sobreviveu a pestes, invasões estrangeiras e guerras civis, e presenciou a Reforma e a Contrarreforma – tudo isso enquanto revolucionava a pintura, a escultura e a arquitetura, escrevendo ainda poemas nas horas livres.

Antes de falar da obra, preciso elogiar a edição. O livro é um calhamaço com mais de 500 páginas de biografia, algumas dezenas de páginas de notas, 82 ilustrações de trabalhos do artista em papel couché, árvores genealógicas da família Buonarroti e dos Medici, lista dos papas durante a vida de Michelangelo e um mapa da fragmentada Itália na juventude do artista. O miolo é impecável, as aberturas de capítulo mostrando detalhes de desenhos de Michelangelo, com remissões nas margens das páginas às obras presentes no caderno de imagens, e, maravilhosamente, dois marcadores de página em tecido para você poder acompanhar o livro e as notas ao mesmo tempo. Parabéns a todos os envolvidos.

Michelangelo se tornou uma figura tão celebrada e polêmica em seu tempo que recebeu duas biografias ainda em vida (uma do famoso Giorgio Vasari, autor de Vida dos mais excelentes arquitetos, pintores, escultores italianos), mas certamente tinha uma vida pessoal e interior conturbada. Seus principais problemas remetem ao fato de nascer de uma família nobre decadente, com dificuldades financeiras (o que tornou-o bastante sovina mais tarde); o fato de ser um homem muito religioso que ao mesmo tempo tinha desejos intensos – sexuais e amorosos – por outros homens; e sua própria personalidade.

Dizer que Michelangelo era uma pessoa difícil é um enorme eufemismo. A palavra italiana terribilità é usada várias vezes ao longo da obra para defini-lo, e seus contemporâneos certamente concordavam. Um amigo, ao escrever-lhe uma carta sobre uma audiência com o papa da vez, disse que o pontífice “demonstra que te conhece e te ama, mas que tu intimidas todo mundo, inclusive os papas” – o que não é difícil de imaginar, considerando que Michelangelo uma vez terminou uma carta a um dos irmãos com “Vou te dar motivo para chorar lágrimas de sangue” (sua relação com o pai e os irmãos sempre foi… complicada). O artista era dramático, irascível, rabugento, antissocial e socialmente inepto (até aqui me identifiquei bastante), fugindo de reuniões com amigos e conhecidos a todo custo, recusando hóspedes e até, em uma das minhas anedotas preferidas, se livrando, sem muito tato, de companhias indesejadas:

 

De quando em quando, Michelangelo se cansava do amigo por causa da ininterrupta tagarelice, então mandava-o comprar figos e, depois que ele saía, aferrolhava a porta às suas costas. Quando voltava, Jacopo batia em vão durante longo tempo até que por fim, “num repente de cólera, pegava os figos e as folhas e espalhava-os na soleira da porta”. Os dois homens ficavam meses sem se falar, então se reconciliavam.

 

A contradição em sua personalidade, no entanto, pode ser ilustrada por essa comparação com o contemporâneo Leonardo da Vinci:

 

Cosmopolita e elegante no trajar, Leonardo era um cortesão por natureza, ótimo nas artes cortesãs da música e do debate intelectual. […] Em tudo isso, no entanto, havia um paradoxo. Por equânime que fosse, Leonardo parecia não se envolver profundamente com outras pessoas. […] Por outro lado, Michelangelo, antissocial e mal-educado, tinha dentro de si um vulcão emocional. Suas ideias e sentimentos, que podem parecer tão egoístas, eram cheios de amor (ou, por outro lado, ódio e cólera) pelas pessoas que participavam de sua vida.

 

Um homem passional ao extremo, Michelangelo era profundamente afetado pelas pessoas à sua volta. Supostamente disse que: “Quando vejo alguém que deve ter talento, que deve mostrar alguma vivacidade mental, que deve saber fazer ou dizer algo melhor que os demais, fico propenso a me apaixonar por ele, e me torno presa dele de uma maneira que já não sou eu mesmo: sou todo dele”. Na verdade, a biografia indica que muitos desses homens, a maioria jovens, dos quais Michelangelo “se tornava presa” não eram particularmente talentosos, apenas bem apessoados e charmosos de algum modo. De qualquer modo, a personalidade do artista não tinha meios-termos: ou ele era extremamente rude, sarcástico e mal-educado (desde com o pai até com o papa), ou estava escrevendo lindos sonetos de amor e cartas rebuscadas a um jovem ou outro.

Michelangelo também se recusava a dar sua opinião sobre questões de arte (ele sempre dizia que pintura, arquitetura e a maioria das coisas que fazia “não eram a sua profissão”), e demonstrava uma profunda insegurança em vários momentos, que se manifestava em sua insistência em trabalhar de noite e/ou escondido, além de queimar milhares de seus papéis para não deixar que ninguém visse seu processo de pensamento e pensasse que ele era menos que perfeito (seu esforço para manter uma imagem intocável de si próprio envolveu inclusive negar qualquer aprendizado com outros artistas, o que, sem dúvida, aconteceu). Também não suportava trabalhar com pessoas talentosas – sempre que era obrigado a ter ajuda, contratava profissionais medíocres ou artesãos que só deviam implementar seus projetos. Relutou em se comprometer com vários projetos (a capela Sistina foi um deles) e sofria longos períodos de ansiedade e estresse quando, após concordar com a encomenda, seus planos quase impossíveis para obras monumentais enfrentavam dificuldades de ordem prática.

Aliás, as obras mais famosas do artista, consideradas o ápice de sua produção – a Pietà, o Davi e o teto da capela Sistina – foram feitas na juventude. Essa última levou quatro anos para ser feita e foi uma entre muitas obras do artista que causaram certa consternação pela quantidade de nus masculinos, tópico pelo qual ele tinha uma clara predileção (outra, ainda mais polêmica, foi o afresco do Juízo Final, também feito na capela Sistina mas ao final da vida de Michelangelo, quando a Contrarreforma já impunha um gosto bem menos classicista e mais rígido).

sistine

Confesso que li o livro só pra postar esse tweet.

O biógrafo passa até que rapidamente por esses trabalhos, enquanto outros projetos menos conhecidos ocupam muitas páginas. Isso porque Michelangelo tinha um sério problema em completar suas encomendas, irritando pessoas importantes (papas, cardeais, governantes) por todos os estados italianos e fora deles, uma vez até causando um incidente diplomático. O caso mais famoso de procrastinação foi o do sepulcro de Júlio II, um projeto escultórico que se arrastou por nada menos que quarenta anos; mas também houve um altar de mármore nunca feito e cujo pagamento foi devolvido após a morte do artista, quase 60 anos depois do prazo original para a entrega da obra. Além disso, o biógrafo nota com bastante imparcialidade que o artista podia fazer coisas medíocres quando não estava 100% comprometido com o projeto – em suma, quando estava fazendo algo por obrigação, de má vontade.

Ao longo de seus muitos anos, Michelangelo passou por períodos conturbados, que ocupam boa parte das páginas da biografia. O fato de ser protegido de um personagem importante ou outro muitas vezes causava dificuldades ao artista em tempos de intrigas políticas, em que os Medici entravam e saíam do poder em Florença (Lourenço de Medici foi o seu primeiro protetor; Michelangelo se relacionaria com outros membros da família ao longo da vida, mas nem sempre apoiava a causa deles).

Assim, a biografia naturalmente toca em muitas questões políticas (das quais a minha história preferida tem que ser a vez que, em um período conturbado, os florentinos elegeram Jesus Cristo como rei de Florença). Michelangelo até chegou a ser governador das fortificações de Florença, na época em que a cidade sofreu um cerco de exércitos espanhóis e do Sacro Império Romano. O autor também aborda as cisões religiosas que ocorriam na Igreja, tentando desvelar a posição de Michelangelo em relação a elas. A religião era um aspecto importante de sua vida, e o artista se tornou mais devoto com a idade. Curiosamente, Tommaso de Cavalieri, seu grande amor – ao que tudo indica, meramente platônico e não sexual –, também entrou em sua vida quando já estava na meia-idade. O mesmo não pode ser dito de outros homens com quem Michelangelo pode ter se relacionado, e tudo indica que, apesar de alegar abstinência quando já velho, na juventude ele definitivamente não era tão casto quanto gostaria. (Florença, aliás, tinha fama de ser um centro de sodomia generalizada.)

Além disso, a Itália (especialmente Florença) no século XVI era uma reunião inacreditável de personagens: Michelangelo tinha contemporâneos como o pregador ultrarradical Girolamo Savonarola (cujas ideias muito o influenciaram), Nicolau Maquiavel, Leonardo da Vinci, Botticelli e Rafael da Sanzio, só pra mencionar alguns nomes mais conhecidos. Aliás, suas relações com Leonardo (mais velho que ele) e Rafael (mais novo) são representativas de sua personalidade e é fascinante ver um lado mais pessoal dessas famosas figuras. Assim, ficamos sabendo que ele e Leonardo discordavam muito sobre arte (este último privilegiava a pintura em vez da escultura, e tinha uma postura um tanto condescendente em relação a Michelangelo, inclusive tendo feito rascunhos sobre como “melhorar” o Davi), e lemos algumas anedotas sobre briguinhas que esses dois gigantes tinham em Florença.

Já Rafael foi seu rival direto em Roma – enquanto Michelangelo pintava a capela Sistina, Rafael trabalhava nas suas stanze no Vaticano (Heráclito, em A escola de Atenas, supostamente representa Michelangelo). Rafael ganhou a melhor por muitos anos, em grande parte por uma questão de personalidade: era muito mais tratável e sabia delegar tarefas a pessoas talentosas, aproveitando o melhor de cada um, enquanto Michelangelo era um control freak que não queria por perto ninguém que pudesse rivalizar com seus talentos. Isso dificultou sua vida, especialmente na hora de conseguir as encomendas que queria (sim, porque nem ter a capela Sistina no currículo era garantia de trabalho!).

O autor faz um ótimo trabalho integrando as mais diversas fontes para criar um retrato do artista, como suas biografias contemporâneas e cartas suas e de uma série de pessoas ao seu redor, além de interpretar (embora às vezes faça alguns chutes sem muito fundamento) seus rascunhos e rabiscos e os 302 poemas de sua autoria, escritos principalmente após conhecer Tommaso. Embora alguns trechos sobre política (e as infinitas negociações de Michelangelo) me parecessem um pouco tediosos, em geral a leitura é muito envolvente, impulsionada pela personalidade forte e singular do biografado.

O livro apresenta aspectos de uma época fascinante em que foram criadas algumas das maiores obras de arte da história, além de fornecer uma visão íntima de uma figura difícil e atormentada, mas indiscutivelmente genial. Recomendadíssimo para quem se interessa por história da arte ou pelo Renascimento e pra quem pretende visitar Florença e Roma, onde a maioria das obras do artista se encontra – garanto que você terá uma visão diferente do que verá por lá.

*

Michelangelo: uma vida épica
Autor: Martin Gayford
Tradutores: Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra
Editora: Cosac Naify
Ano desta edição: 2015
752 páginas

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