[Resenha] Jonathan Strange & Mr. Norrell

Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês da Bloomsbury. A tradução de trechos foi feita por mim.

jsmncapaSinopse:

A prática da magia foi considerada extinta da Inglaterra desde os tempos medievais do Rei Corvo. Em 1806, aqueles que se intitulam magos são apenas estudiosos da história da magia. Mas, um dia, dois desses magos teóricos resolvem investigar os motivos do desaparecimento da magia. E assim conhecem Mr. Norrell, um mago recluso que desafia todos ao mostrar seus poderes. Para provar que a magia ainda existe, Mr. Norrell reúne os magos teóricos na catedral de York e faz com que as estátuas de pedra comecem a falar. Em troca de seu ato, exige a imediata dissolução da Sociedade de Magos. Agora com fama e poder, ele abandona a reclusão e vai para Londres, onde colabora com o governo no combate a Napoleão Bonaparte. Começa então a colocar em prática seu plano secreto de controlar a magia na Inglaterra. Tudo vai bem, até o momento em que seu discípulo, o arrogante e impetuoso Jonathan Strange, resolve se rebelar contra a visão restrita de Norrell sobre o lugar destinado à magia. Strange decide seguir seu próprio rumo como mago e resgatar os poderes do lendário Rei Corvo, mas acaba colocando em risco a si próprio, aos que o cercam e a toda a Inglaterra.

Fonte: Livraria Cultura

Existem livros bons. Existem livros ótimos. E existem livros que tão sensacionais que levam qualquer leitor-aspirante-a-escritor a querer abandonar o exercício da escrita para sempre. Sentimentos de espanto, admiração e amor fervoroso se misturam com uma leve (ou não tão leve) inveja. E o leitor atordoado se pergunta: como raios uma pessoa criou algo assim?

Finalmente – 13 anos depois da publicação, 11 anos depois da tradução em português, 8 anos depois que uma amiga o recomendou fortemente e quase um ano depois que saiu a série inspirada nele – eu li Jonathan Strange & Mr. Norrell. Toda vez que ouvia falar desse livro, ele vinha acompanhado de elogios tão entusiásticos que comecei a ficar com medo de me decepcionar. Mas, raramente, algumas obras superam a hype – e foi o caso. Tanto que já escrevi dois parágrafos de pura enrolação antes de começar a falar do livro, simplesmente PORQUE NÃO SEI POR ONDE COMEÇAR.

Não é um livro fácil de descrever, mas a obra – de mais de 800 páginas – pode ser definida como uma história alternativa que começa no início do século XIX. No universo do livro, a magia era praticada na Inglaterra até o século XVI, mas depois disso desapareceu, deixando para trás lendas, grandes nomes e magos “teóricos” apenas (estudiosos das obras remanescentes sobre magia). Nesse contexto, os dois personagens do título serão os responsáveis por trazer a magia de volta para a Inglaterra.

E eles não podiam ser homens mais diferentes. Em Mr. Norrell, Clarke se esforça pra criar um dos personagens mais antipáticos da literatura. Ele é desconfiado, egoísta, antissocial, alienado das necessidades alheias e muitas vezes mesquinho, tendo como missão pessoal impedir que outros magos além dele surjam na Inglaterra (para isso, reúne todos os livros de magia que consegue encontrar e os guarda ferozmente). Já Jonathan Strange (que demora um pouco pra aparecer na obra) é um personagem que dificilmente você não vai amar. Um cara deliciosamente comum no início, sem nada de extraordinário, ele começa seu aprendizado em magia depois que uma profecia o informa do seu destino de ser um mago. Strange é curioso, aberto, sarcástico, corajoso, apaixonado pela esposa (embora seus interesses o distraiam bastante do casamento), e um mago intensamente prático e experimental, ao contrário de Norrell, que é extremamente cauteloso com tudo.

O que os dois têm em comum é que a primeira coisa em suas vidas e corações é a magia. E ambos sabem que mais ninguém no mundo os entenderia como um ao outro.

Além da dinâmica cheia de conflitos entre essas duas forças, o livro tem uma série de outros personagens envolventes: a esposa de Strange, Arabella; Stephen Black, um criado negro que se envolve acidentalmente com o mundo das fadas; Mr. Segundus, um mago teórico que impulsiona toda a trama; Childermass, serviçal misterioso de Norrell; Drawlight e Lascelles, sanguessugas que tentam se aproveitar da fama alheia para construir sua fortuna; figuras históricas como o duque de Wellington e um deliciosamente cretino lorde Byron; entre outros. Destaque para os habitantes de Faerie, um mundo paralelo ao nosso onde fadas dão bailes delirantes que me lembraram de outro livro maravilhoso, O Mestre e Margarida.

O incrível do mundo criado por Clarke é como ela o torna complexo e verossímil por meio de estratégias narrativas. O livro é escrito como se fosse uma biografia dos personagens-título e está cheio de notas de rodapé com referências bibliográficas das obras sobre magia mencionadas pelo narrador, além de histórias paralelas sobre eventos mágicos ocorridos no passado, explicações históricas, etc. – ou seja, é como uma obra escrita no próprio mundo em que a obra se passa. O narrador em terceira pessoa menciona uma infinidade de fatos sobre eventos do passado vinculados à magia, de modo que desde o primeiro capítulo você já se sente imerso em uma história muito antiga e muito vasta.

E também vasta e assombrosa é a magia. Não espere regras estabelecidas e limites definidos – quase tudo é possível, sem grandes explicações. A magia está ligada intimamente ao território inglês e a sua geografia e elementos – às colinas, aos campos, aos ventos, ao sol… e às fadas, criaturas imprevisíveis, perigosas e tricksters. É uma magia intensa, primeva e por vezes descontrolada, além da compreensão total de qualquer mago, que pula das páginas em descrições com enorme força imagética. A narrativa, aliás, não só descreve as manifestações mais diversas dessa magia – que vai desde acordar estátuas e mortos até criar estradas para o mundo das fadas – como também apresenta uma enorme riqueza de detalhes ao representar a Inglaterra (e outros países europeus) no século XIX. Eventos importantes aparecem lado a lado à vida cotidiana, descritos em uma prosa elegante e com um profundo conhecimento histórico. E se a magia está conectada ao solo britânico, a narrativa está imbuída de um humor britânico – sutil, sarcástico e inteligente – que torna a leitura toda deliciosa.

Os personagens, como já indiquei, são muito bem caracterizados, e vale dizer que mesmo Norrell despertou minha simpatia em vários momentos, apesar dos seus muitos defeitos de personalidade. De Strange basta dizer que é um dos meus personagens preferidos da vida. Também tenho que mencionar dois aspectos tratados com imensa sensibilidade: o primeiro, por meio de Stephen Black, é a escravidão e o que significa ser negro em uma sociedade ainda escravocrata; o segundo são as pequenas injustiças e repressões sofridas pelas mulheres em um mundo dominado por homens (as quais nem sempre mostram os protagonistas homens do livro sob a melhor das luzes). Também vale mencionar as amizades entre mulheres, das quais há mais de um exemplo lindo e que nunca desabam para inveja ou intrigas, por mais que a trama pudesse facilmente levar a isso.

O livro abarca um período de vários anos e os capítulos, especialmente na primeira metade da obra, são quase como histórias fechadas. Isso e o fato de que o ritmo da história não é frenético (exceto pelas últimas dezenas de páginas, os capítulos não terminam de um jeito que te obrigue a continuar) em parte explicam por que demorei duas semanas para ler o livro. Em parte, foi meu simples desejo de saborear toda a riqueza da obra. Se eu tivesse que apontar um defeito do livro ou algo que poderia repelir um leitor em potencial, seria justamente o tamanho e a densidade da história, contada sem pressa.

Mas acredito que a persistência vale a pena. Ao chegar ao fim, senti uma daquelas ressacas literárias tão temidas por nós leitores, um pouco por sentir falta dos personagens e seu mundo mágico em que estive absorvida; mas também por saber que nunca mais vou poder ler este livro pela primeira vez. É uma daquelas obras sui generis, absolutamente originais e impactantes. E ainda sinto que não consegui expressar meu amor por ela adequadamente nessa resenha, então, por favor, imagine que estou agarrando seus ombros e olhando profundamente nos seus olhos repetindo “É muito bom. É muito bom.” até você ficar bem desconfortável e ir atrás do livro.

*

Jonathan Strange & Mr. Norrell
Autora: Susanna Clarke
Tradutor: José Antonio Arantes
Editora: Seguinte
Ano de publicação: 2003
Ano desta edição: 2005
824 páginas

 

Citações preferidas

“E se ele falhar”, observou o sr. Lascelles secamente, “todo mundo na Inglaterra irá fechar as portas ao notório sr. Norrell.”

“Meu caro Lascelles”, exclamou Drawlight, “que tolices você diz! Eu lhe digo, não há nada no mundo tão fácil de explicar como o fracasso – é, afinal de contas, o que todo mundo faz o tempo todo.”

*

“Eu tenho o amor de um estudioso pelo silêncio e a solidão. Sentar e passar horas e mais horas em tagarelices inúteis em uma sala cheia de desconhecidos é para mim o pior tipo de tormento.”

*

Mas, quando a fada cantou, o mundo todo o ouviu. […] Ele entendeu pela primeira vez que o mundo não é surdo, mas meramente aguarda alguém que lhe fale numa língua que compreende. Na canção da fada, a terra reconheceu os nomes pelos quais chamava a si mesma.

*

“Um mago pode matar um homem com magia?” Lorde Wellington perguntou a Strange.

Strange franziu a testa. Ele pareceu desgostar da questão.

“Suponho que um mago poderia”, ele admitiu, “mas um cavalheiro jamais o faria.”

*

“Que tolice!” declarou o dr. Greysteel. “Quem já ouviu falar de gatos fazendo algo útil?”

“Exceto por encarar alguém de uma maneira desdenhosa”, disse Strange. “Isso tem um tipo de utilidade moral, suponho, ao deixar a pessoa desconfortável e incentivar reflexões sóbrias sobre suas próprias imperfeições.”

8 respostas em “[Resenha] Jonathan Strange & Mr. Norrell

  1. Já me disseram que esse livro é lindo. Já me disseram que esse livro é leitura obrigatória pra qualquer fã de fantasia. Em breve eu o lerei e, pelo que vejo/ouço por aí, vou adorar essa obra tanto quanto você.

    Um forte abraço!

  2. Isadorable, de nada. =P

    É… estou me sentindo diva por ter indicado um livro bom pra você! Normalmente acontece o contrário, rs! Prometo que, na outra vida, quando descobrir outro livro tão bom quanto esse, recomendarei. Por ora, só digo que fiquei com muita vontade de reler! Efeito da excelente resenha, claro.

    P.S.: conheço você há oito anos! como o tempo passou rápido. 🙂

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