[Resenha] Fahrenheit 451

Fahrenheit-451Sinopse:

Escrito após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1953, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, é um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário dos anos 1950, revelando sua apreensão numa sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. O livro se propõe a descrever um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. A leitura deixou de ser meio para aquisição de conhecimento crítico e tornou-se tão instrumental quanto a vida dos cidadãos, suficiente apenas para que saibam ler manuais e operar aparelhos.

Fonte: Livraria Cultura

Em um futuro não muito distante, o trabalho do corpo de bombeiros é queimar livros. O contexto para isso é uma sociedade privada de informações e cultura, cujo tempo de lazer é preenchido com programas televisivos super realistas mas sem nenhum conteúdo relevante, em um país que está às vésperas da guerra, mas que jamais permite a seus cidadãos ter acesso a notícias. Um lugar onde livros são proibidos e a posse deles, geralmente denunciada pelos amedrontados “cidadãos de bem”, é punível com prisão.

Esse é o assustador cenário de Fahrenheit 451, distopia clássica de Ray Bradbury, que inspirou o filme homônimo de François Truffaut. A obra é narrada do ponto de vista de Guy Montag, um bombeiro comum e plenamente satisfeito com sua vida e trabalho, até o dia em que conhece Clarisse, sua jovem e estranha vizinha. Clarisse não trabalha e não assiste televisão – ela passa o dia caminhando ao ar livre, sentando-se na grama e tomando chuva, e à noite costuma conversar com a família. Todos esses hábitos são impensáveis para Montag, que fica perturbado mas um tanto curioso para saber mais sobre a garota.

Conhecer Clarisse, que passa a conversar com ele casualmente quando o encontra na rua de casa, é também o ponto de virada para que Montag comece a se sentir incomodado com sua vida. Ele começa a questionar seu trabalho como bombeiro, se perguntando o que pode haver de tão perigoso nos livros, além de se sentir extremamente infeliz ao lado da esposa, Mildred, com quem jamais tem conversas minimamente relevantes. Mildred passa o dia inteiro em sua sala de televisão, com o que chama de “família”: atores reproduzidos em tamanho real nas telas que ocupam todas as paredes da sala, e que atuam de forma a dar ao expectador a sensação de interação. Para Mildred – e para os cidadãos ordinários dessa sociedade – a televisão e seus programas vazios, mas aconchegantes, é o que há de mais importante.

Pouco tempo após o contato com Clarisse, Montag passa por um dia especialmente perturbador de trabalho: o corpo de bombeiros incendeia uma biblioteca doméstica juntamente com a dona da casa, que fez questão de morrer junto a seus amados livros. O incidente leva Montag mais um passo em sua evolução de um homem comum a um ousado questionador da ordem vigente.

O leitor presencia esse evento e os seguintes, acompanhando de perto as transformações e sofrimentos de Montag, narrados com uma linguagem rebuscada, mas envolvente. O autor não economiza metáforas para descrever a sociedade e os pensamentos de seu protagonista, e achei especialmente inteligente o uso de elementos da natureza em metáforas para objetos e impressões do mundo de Montag, que não tem nada de natural.

A obra é dividida em três partes, que não são separadas em capítulos. A leitura é contínua e narra eventos rápidos intercalados com reflexões intensas e diálogos cheios de significado. A aventura de Montag é de tirar o fôlego, tanto na ação como nas falas dos personagens, e leva a um final fascinante que não vou revelar aqui, mas que me encantou e reverbera em minha mente desde a primeira vez que assisti ao filme.

Em Fahrenheit 451, Bradbury enxergava o potencial da indústria cultural e a criticava, profetizando uma sociedade na qual a cultura seria completamente pasteurizada e desprovida de significado; uma sociedade que busca apenas informação com finalidades práticas, e não reflexivas ou filosóficas. Nessa sociedade, Bradbury visualizou um apocalipse intelectual da humanidade, e sua narrativa assustadora nos leva a imaginar um mundo em que toda a produção literária do homem seja destruída e esquecida, e toda forma de pensamento crítico, julgada e punida.

É uma reflexão pertinente e muito necessária, mas confesso que algo me incomodou muito nos argumentos do autor. Por meio do chefe dos bombeiros Beatty, um personagem fascinante que explica a Montag a história dos bombeiros e da queima de livros, o autor explica uma opinião polêmica (que, para que não haja dúvidas, ele reitera no posfácio da obra). Ele afirma que as minorias (homossexuais, negros, judeus, feministas e chineses, para citar alguns exemplos do próprio autor), com sua preocupação por representatividade e pelo politicamente correto, foram responsáveis pela extinção dos livros. Na história contada por Beatty, as feministas começaram a queimar livros que não tinham representação feminina, os negros queimaram os livros que os ofendiam e assim por diante, até que nenhum trabalho literário fosse permitido, uma vez que seria impossível agradar a todos. Bradbury defende veementemente aquela ideia que tanto ouvimos hoje em dia, de que “o mundo ficou chato” e de que o politicamente correto está limitando a arte.

Fiquei um tanto decepcionada ao encontrar opiniões tão elitistas em uma obra tida como símbolo da resistência à opressão. Mas espero que Bradbury, se vivesse nos dias de hoje, se sentisse aliviado ao perceber que essa parte de seu pesadelo não se concretizou. Grandes clássicos da literatura são, sim, questionados em seus aspectos preconceituosos, mas isso não significa que deixem de ser lidos, estudados e apreciados. A começar por Fahrenheit 451, que, apesar de me incomodar nesse ponto, foi uma leitura instigante e recompensadora, que deve ser interessante para todos os amantes dos livros e da liberdade.

*

Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Tradutor: Cid Knipel
Editora: Biblioteca Azul
Ano de publicação: 1953
Ano desta edição: 2012
216 páginas

 

Citações favoritas

Como o rosto dela se parecia também com um espelho! Impossível. Pois quantas pessoas seriam capazes de refletir a luz de uma outra?

*

E lembrou-se de ter pensado naquela hora que, se ela morresse, decerto ele não choraria. Pois seria a morte de uma desconhecida, um rosto da rua, uma foto do jornal e, de repente, a ideia lhe fora tão forte que ele começara a chorar, não pela morte, mas pela ideia de pensar em não chorar diante da morte, um homem ridículo e vazio junto de uma mulher ridícula e vazia […].

*

Não precisamos que nos deixem em paz. Precisamos realmente ser incomodados de vez em quando. Quanto tempo faz que você não é realmente incomodada? Por alguma coisa importante, por alguma coisa real?

*

Os livros servem para nos lembrar quanto somos estúpidos e tolos. São o guarda pretoriano de César, cochichando enquanto o desfile ruge pela avenida: “Lembre-se, César, tu és mortal”. A maioria de nós não pode sair correndo por aí, falar com todo mundo, conhecer todas as cidades do mundo. Não temos tempo, dinheiro ou tantos amigos assim. A única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas será num livro.

*

Veja o mundo. Ele é mais fantástico do que qualquer sonho que se possa produzir nas fábricas. Não peça garantias, não peça segurança, jamais houve semelhante animal. E se houvesse, seria parente do grande bicho-preguiça pendurado de cabeça para baixo numa árvore o dia inteiro, todos os dias, a vida inteira dormindo. Para o inferno com isso, balance a árvore e derrube o grande bicho-preguiça de bunda no chão.

*

Nos tempos antes de Cristo, havia uma ave estúpida chamada Fênix que, a cada cem anos, construía uma pira e se consumia em chamas. Deve ter sido prima-irmã do homem. Mas, toda vez que se queimava, ressurgia das cinzas e novamente renascia. E parece que estivemos fazendo e refazendo inúmeras vezes a mesma coisa, só que com uma vantagem que a Fênix nunca teve. Nós sabemos a estupidez que acabamos de cometer.

2 respostas em “[Resenha] Fahrenheit 451

  1. Pingback: [Resenha] Nós | Sem Serifa

O que achou deste post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s