[Resenha] Nós

nós capaSinopse:

D-503 é um engenheiro que vive pleno e feliz (exatamente como ordena o grandioso Estado Único), mas começa a duvidar das próprias convicções ao conhecer uma misteriosa mulher que comete a ousadia de burlar regras, e que o contamina com a doença chamada imaginação. Escrita em 1923, a renomada distopia Nós imaginou a vida sob um governo totalitário que eliminou por completo a noção de individualidade, em uma história que inspirou clássicos como 1984 e Admirável mundo novo.

Fonte: Editora Aleph

Como alguém que amou distopias clássicas como Revolução dos bichos, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, fiquei bastante empolgada ao descobrir a existência desta que é a “distopia original”, uma subversiva história de um autor soviético que influenciou esses grandes nomes do gênero.

Ambientada em uma sociedade perfeita construída em um mundo pós-guerra, a trama de Nós tem como protagonista D-503, um engenheiro orgulhoso de ser útil ao Estado e de cumprir seus deveres cívicos. Em seu mundo, as pessoas vivem em apartamentos de vidro (para se vigiar mutuamente) e obedecem a uma rigorosa agenda estipulada pelo governo, que dita seus horários de trabalho, refeições, lazer e até sexo. O livro é composto das anotações diárias de D-503, que está exultante em participar do projeto da Integral, que enviará ao espaço, e a quaisquer civilizações que nele habitem, um compilado de informações sobre esse Estado perfeito (quase como um prenúncio da sonda Voyager).

As experiências de D-503, padronizadas e comuns dentro da sociedade em que vive, são fascinantes para o leitor, e por meio de suas descrições podemos entender o mundo insípido e sem sentimentos imaginado por Zamiátin. As considerações do protagonista sobre a nossa época (que ficou num passado quase esquecido) são ao mesmo tempo cômicas e desesperadoras, à medida que D-503 critica direitos básicos como a liberdade individual, acusando-os de ter levado a humanidade ao caos. Suas reflexões se aprofundam quando ele conhece I-330, uma mulher que comete crimes imperdoáveis, como mentir para faltar ao trabalho. É assustador perceber como a sociedade retratada nessa obra é parecida com a atual Coreia do Norte, e provavelmente com outras ditaduras reais.

A escrita desse autor russo é bem parecida com a de Bradbury em Fahrenheit 451: um tanto poética, repleta de metáforas e digressões que nos permitem entender o funcionamento da sociedade imaginada pelo autor. A maior diferença é que, enquanto Bradbury baseou suas metáforas e descrições em elementos da natureza, o narrador de Zamiátin vê matemática em tudo. Sua narrativa brinca com elementos de álgebra e geometria para explicar as estruturas sociais e até para descrever a fisionomia dos personagens. E as digressões nas quais ele embarca com o leitor, embora às vezes um pouco confusas, dão o charme à obra – o forte de Nós não está na ação, que muitas vezes fica em segundo plano e ganha descrições confusas, deixando o foco estilístico nas reflexões do narrador.

A edição da Aleph traz dois textos complementares. O primeiro é uma resenha de ninguém menos que George Orwell, exaltando a obra. O segundo é uma carta de Zamiátin a Stálin solicitando permissão para sair da União Soviética, onde seu trabalho vinha sofrendo censura.

Com um estilo que claramente inspirou seus sucessores, aliado a reflexões que se mantêm pertinentes até hoje, Nós é uma excelente leitura para todos os que amam uma boa distopia.

*

Nós
Autor: Ievguêni Zamiátin
Tradutora: Gabriela Soares
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1923
Ano desta edição: 2017
344 páginas

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