[Resenha] A arte do descaso

A arte do descasoSinopse: 

Em pleno Carnaval, quatro homens invadiram o Museu da Chácara do Céu, no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro, e roubaram cinco obras de arte: um Dalí, um Matisse, um Monet e dois Picassos, cujo valor estimado, na época, ultrapassava 10 milhões de dólares. Decidida a desvendar o mistério, a jornalista Cristina Tardáguila chegou a se colocar em situações de risco a fim de encontrar respostas. Em sua jornada, ela viajou para a Europa e mergulhou no mundo obscuro dos crimes de arte.

Fonte: Livraria Cultura

Primeiramente: OLHA ESSA CAPA LINDA. Segundo: eu me considero uma pessoa relativamente informada e bem interessada em arte (vide essa resenha aqui), e nunca tinha ouvido falar do maior roubo de arte do Brasil: o do Museu Chácara do Céu. Em maio deste ano visitei o Rio de Janeiro pela primeira vez e subi até Santa Teresa em ótima companhia para visitar a Chácara do Céu e o Parque Ruínas, que fica ao lado.

Eu, flagrada de tênis. Para chegar em Santa Teresa subi pela famosa Escadaria Selarón, que, para a minha surpresa, é imensa e tem curvas. E depois tem mais um monte de ladeiras pela frente até chegar à Chácara do Céu.

Eu, flagrada de tênis. Para chegar em Santa Teresa subi pela famosa Escadaria Selarón, que, para a minha surpresa, é imensa e tem curvas. E depois tem mais um monte de ladeiras pela frente até chegar à Chácara do Céu.

Como me apaixonei pelo Rio e pelo museu, que conta com um jardim imenso e agradável e uma vista linda da cidade, fiquei bem instigada pela proposta do livro. O roubo aconteceu no carnaval de 2006, e, como o título do livro antecipa, não recebeu a devida atenção das autoridades – embora seja o 8º maior roubo de arte na lista do FBI (cujos critérios são misteriosos).

A autora é uma jornalista que fez uma extensa pesquisa, acessando todos os documentos disponíveis da investigação policial e relatando em detalhes para o leitor não apenas o roubo, como sua própria investigação. Conta também a história da mansão, que pertenceu a Castro Maya, e apresenta imagens dos quadros e do museu. A escrita é clara e bem informativa – embora em alguns momentos eu tenha tido a sensação de condescendência com o leitor, no reforço desnecessário de algumas informações. Mas nada que atrapalhasse efetivamente minha leitura. O ritmo do livro é gostoso, alternando entre relatos das testemunhas (com a inteligente escolha de inserir os diálogos em discurso direto) com o curso de investigação da autora. Este incluiu maquetes da cena do crime, noites em claro e uma viagem internacional, e culminou na descoberta de uma informação importantíssima negligenciada pela polícia.

Os trechos que relatam a experiência da autora na conferência anual da Arca (Association for Research into Crimes Against Art) e os contatos derivados da conferência estão entre os meus favoritos. Só o fato de existir uma convenção em que as pessoas se reúnem para discutir roubos de arte já é empolgante, e a isso se somam vários relatos de roubos famosos que mais parecem anedotas, de tão engraçados. Há também a descrição dos sete perfis de criminosos da arte, traçados por Tijihuis, e uma visita à sede dos Carabinieri, a polícia italiana especializada em crimes contra o patrimônio cultural.

O projeto gráfico é bem bonito e complementa a capa. Cada capítulo começa em página dupla dourada com uma citação contundente da fala de alguém. Outro ponto positivo é que ao fim do livro há a bibliografia que a autora consultou – e que me deu comichões para ler mais sobre crimes contra arte.

É uma leitura que recomendo para quem gosta de arte, do Rio ou de se revoltar com a ineficiência do maquinário estatal.

*

A arte do descaso
Autora: Cristina Tardáguila
Editora: Intrínseca
Ano desta edição: 2016
188 páginas

Livro cedido em parceria com a Intrínseca.

SELO_BLOGSPARCEIROS_2015 (2)

Citações favoritas:

A fim de arrebentar os fios de náilon que a sustentavam, eles tiraram todas as peças do móvel, subiram nele com uma faca na mão e, depois de cortarem os fios e removerem a pintura, tiveram a delicadeza – ou a cômica gentileza – de devolver as louças ao seu lugar de exposição.

*

“Os policiais e políticos padecem da síndrome de Robin Hood. Tratam com desdém os ataques a museus, galerias de arte e coleções privadas por três motivos muito simples. Primeiro, porque é raro haver mortos nesses ataques. Logo, a comoção popular é menor. Segundo, porque a arte é normalmente tratada como algo supérfluo, dispensável, acessório. Terceiro, porque a vítima, em geral, é membro da elite, é alguém ou alguma entidade que, de certa forma, parece ter mais do que o necessário para sobreviver. Então o ladrão estranhamente vira uma figura glamorosa, que está tirando um pouco dos ricos para dar aos pobres. Mas, por favor, pensar dessa forma revela um desconhecimento total sobre como os roubos de arte acontecem e a que propósito servem hoje em dia.”

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