[Resenha] A mãe de todas as perguntas

mae-de-todasSinopse:

Nos doze ensaios que compõem este livro, Rebecca Solnit, uma das principais figuras do feminismo contemporâneo, oferece reflexões cristalinas e poderosas acerca de temas fundamentais à realidade da mulher de hoje, como a desigualdade no espaço de trabalho, a cultura do estupro, o silenciamento feminino e a imposição da maternidade. Incisiva e divertida, Solnit restitui à questão da igualdade de gêneros a gravidade que merece, sem abrir mão da voz irreverente que trouxe renome à autora.

Fonte: Companhia das Letras

A divisão de papéis entre os gêneros é natural e sempre foi a mesma? Quais são os preconceitos de gênero mais comuns na contemporaneidade? Como o patriarcado prejudica homens e mulheres? De que formas as mulheres vêm sendo silenciadas ao longo dos séculos? Afinal, falsas denúncias de estupro são um bom argumento para duvidar das vítimas?

Nos ensaios da coletânea A mãe de todas as perguntas, a historiadora e ativista Rebecca Solnit responde essas e outras perguntas, em doze textos acessíveis e bem-humorados, sempre do ponto de vista do feminismo. Todos os textos são recentes e tratam de temas contemporâneos e frequentes em discussões sobre papéis de gênero, o que a autora faz de forma bastante didática e inteligente.

O primeiro ensaio, que dá nome à coletânea, fala sobre a imposição da maternidade e os conceitos e “receitas” socialmente impostos para alcançar a felicidade. A autora reflete sobre o desrespeitoso hábito social de opinar sobre as escolhas de vida das mulheres, e fala que nosso útero é considerado público. (É uma excelente leitura pra quem acredita que O conto da Aia está distante da nossa realidade.) Além disso, ela aponta que os modelos de felicidade propagandeados pela sociedade são, paradoxalmente, uma grande fonte de infelicidade: somos ensinadas que só seremos felizes se formos heterossexuais, monogâmicas, casadas e mães. Isso gera frustração não apenas para quem não deseja viver de acordo com esse modelo, como também para quem o faz e descobre que ele não garante a felicidade. Solnit também apresenta algumas reflexões históricas sobre a nossa obsessão com a felicidade, e lembra que, em outras épocas, esse conceito não apenas era diferente, como não ocupava um papel tão central e obrigatório na vida das pessoas.

Nos demais textos, a historiadora questiona várias outras visões de mundo que consideramos verdadeiras e únicas, e apresenta fatos históricos muito interessantes em seus argumentos, além de contar um pouco sobre a história do movimento feminista. Esses fatos vão desde leis e estatísticas que refletem o silenciamento e a violência contra as mulheres – dados tristes, mas não tão surpreendentes – até estudos que põem em cheque as informações que tínhamos sobre os primeiros grupos humanos e as primeiras divisões de papéis por gêneros. Por meio desses argumentos, Solnit questiona as imposições feitas a cada gênero, além de diversos preconceitos, contemporâneos ou não, a respeito de homens e mulheres.

Ela também comenta temas atuais, como a onda de denúncias de estupro, um fenômeno social que vê de forma positiva e esperançosa – silenciadas ao longo de toda a história, as mulheres recentemente começaram a ser ouvidas e poder expor seu ponto de vista, no que Solnit acredita ser um movimento sem volta. A autora vê a internet como um advento fundamental para a insurreição feminina, e fala da importância de protestos virtuais e de hashtags como #yesallwomen, em resposta a movimentos misóginos.

Esse não é apenas um livro para mulheres. Pelo contrário, Solnit considera bem-vindo o recente interesse masculino pelo movimento, e também explica como o patriarcado prejudica os homens e lhes impõe restrições e violências desde antes do nascimento. A forma didática como a autora aborda assuntos polêmicos, como piadas misóginas e falsas denúncias de estupro, pode, inclusive, ajudar os homens a entender a visão feminista sobre esses temas. Nem por isso ela pega leve como os homens. O estupro e outras formas de violência masculina são temas recorrentes em seus ensaios, sempre embasados em fatos e estatísticas.

Solnit tem a habilidade de nos fazer olhar o mundo por um outro viés. Foi lendo este livro que entendi que, embora os tiroteios em massa sejam considerados anomalias, eles são muito frequentes (em especial nos Estados Unidos) e têm um padrão: são quase sempre cometidos por homens. É difícil perceber padrões como esse quando se referem a homens brancos, que, como a autora explica, são comumente protegidos e aliviados de qualquer responsabilidade por seus atos (seja esse ato engravidar uma mulher ou massacrar uma sala cheia de estudantes). Porém, quando uma mulher ou um homem não-branco ou não-hétero comete um crime, o indivíduo é imediatamente tomado como uma representação do “grupo” ao qual faz parte.

A mãe de todas as perguntas é um daqueles livros que nos faz querer grifar quase todos os parágrafos, e é uma leitura que indico a todos. Solnit consegue ser sucinta e precisa, e ao mesmo tempo usar fatos científicos e históricos para fazer reflexões importantes, que mudam a nossa forma de pensar.

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A mãe de todas as perguntas: reflexões sobre os novos feminismos
Autora: Rebecca Solnit
Tradutora: Denise Bottman
Editora: Companhia das Letras
Ano desta edição: 2017
200 páginas

Citações favoritas:

[Questionamentos sobre por que uma mulher não quer ter filhos] não são perguntas e sim declarações que afirmam que nós, com a nossa veleidade de nos imaginar como indivíduos, definindo nosso próprio curso, estamos erradas. O cérebro é um fenômeno individual que gera as mais variadas criações; o útero gera apenas um tipo de criação. […] A pergunta pressupõe que, para as mulheres, só existe uma maneira certa de viver.

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Se nossas vozes são aspectos essenciais da nossa humanidade, ser privado de voz é ser desumanizado ou excluído da sua humanidade. E a história do silêncio é central na história das mulheres.

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Se o direito de falar, de ter credibilidade, de ser ouvido é uma espécie de riqueza, essa riqueza agora vem sendo redistribuída.

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Você pode dizer que as mulheres são dependentes, mas apenas se se dispuser a dizer que os homens também o são. A dependência não é um bom critério; interdependência seria melhor. As mulheres, na maioria, não foram e continuam não sendo inúteis e dependentes. As histórias sobre o Homem, o Caçador, que carregam essa ideia de que os homens dão e as mulheres tomam, de que os homens trabalham e as mulheres são ociosas, não passam de justificativas de posições políticas atuais.

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O patriarcado – significando tanto a dominação masculina como as sociedades obcecadas com a sucessão patrilinear, que exige um controle rigoroso sobre a sexualidade feminina – tem criado, em muitos tempos e lugares distintos, diversas versões de mulheres dependentes e improdutivas, que ficam incapacitadas pela alteração do corpo ou das roupas, restritas ao lar, com acesso limitado ao ensino, ao emprego e à profissionalização por leis e costumes respaldados por ameaças de violência. Alguns misóginos reclamam que as mulheres são fardos imóveis, mas em grande parte foi a misoginia que levou as mulheres a serem assim.

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Qualquer mulher individual é capaz de ser tratada como um referendo ambulante sobre as mulheres – somos todas emotivas, intrigantes, ruins em matemática? –, enquanto os homens estão relativamente livres desse tipo de categorização. Não ouvimos muitas generalizações sobre ser branco, e Roof ou Charles Manson não são considerados uma desgraça para a sua raça ou para o seu gênero. Ser tratado fora ou além das categorias pode ser uma espécie de privilégio, com status mais de indivíduo do que de espécie. É poder definir a si mesmo e ter espaço para isso.

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Lemos muitas coisas em que pessoas como nós são descartáveis ou são escória, ou ficam em silêncio, são ausentes ou indignas, e isso influi em nós. Porque a arte cria o mundo, porque ela importa, porque ela nos cria. Ou nos destrói.

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