[Resenha] Ordem Vermelha

ordemvermelhaSinopse:

A última região habitada do mundo, Untherak, é povoada por humanos, anões e gigantes, sinfos, kaorshs e gnolls. Nela, a deusa Una reina soberana, lembrando a todos a missão maior de suas vidas: servir a Ela sem questionamentos. No entanto, um pequeno grupo de rebeldes, liderado por uma figura misteriosa, está disposto a tudo para tirá-la do trono.

Fonte: Intrínseca

 

Você já deve ter ouvido falar sobre Ordem Vermelha. Isso porque o livro é a primeira fantasia nacional da editora Intrínseca, lançada com destaque na CCXP 2017, com autoria de Felipe Castilho em cocriação com Rodrigo Bastos Didier e Victor Hugo Sousa. A Intrínseca e o Omelete investiram pesado na divulgação e o livro já representa um passo enorme no cenário da literatura especulativa nacional. Ao longo da leitura fui deixando minhas impressões no Twitter — mas a thread tem spoilers, então se não leu ainda, evite e leia só esta resenha!

O livro é uma fantasia épica, o primeiro de dois volumes, e se passa na cidade de Untherak. A abertura da obra nos dá um panorama do passado do mundo, explicando que seis deuses se decepcionaram com as raças que criaram, resolveram puni-las e se uniram na deusa Una, que passou a dominar essa cidade e essas raças: humanos, anões, gigantes, sinfos, kaorshs e gnolls.

Não sou muito fã da tática de começar o livro apresentando uma mitologia — me parece um tanto antiquado, e prefiro quando a obra já apresenta um personagem e aos poucos vai introduzindo o seu universo. No entanto, até o fim do livro essa introdução se torna mais justificada e suavizou essa primeira impressão. Também admito que não costumo ler fantasias com diferentes raças, em um estilo mais RPG, mas logo superei essa ressalva — os sinfos e os kaorsh, em especial, têm particularidades muito interessantes e fogem de clichês. Embora as outras raças fiquem mais próximas dos padrões que conhecemos, os personagens são bons o bastante para conduzir a história e me fazer esquecer minhas ressalvas.

Falando neles, a trama é uma história à la Mistborn — diferentes pessoas se unindo para derrubar um governo tirânico. A princípio temos um humano, o falcoeiro Aelian, rapaz que só queria continuar sua vidinha miserável roubando alguns momentos de liberdade aqui e lá, mas que se vê envolvido com um personagem misterioso e rebelde chamado Aparição; e Raazi, uma kaorsh que, junto com a esposa Yanisha, pretende matar a deusa Una no chamado Festival da Morte (um puta evento agradável, como podem imaginar). Esse grupo vai aumentando ao longo do livro com a adição de um anão, um sinfo e duas humanas.

Fora um membro do grupo que achei pouco desenvolvido, todos os outros têm personalidade, passado e motivações claras. A dinâmica do grupo é muito divertida e faz as partes 2 e 3 do livro passarem voando, também nos permitindo ver as peculiaridades de cada raça em um grupo tão diverso. O autor conseguiu fugir da síndrome de Smurfette e seu elenco é recheado de mulheres (inclusive, não posso enfatizar o suficiente como me alegra o fato de um casal lésbico ter destaque em uma obra que está tendo um impacto desses no cenário de fantasia nacional!). Uma das mulheres, em especial, ocupa um papel geralmente reservado aos homens em fantasias clássicas, o que achei fenomenal.

Há menções a um relacionamento entre dois membros do grupo, mas isso é abordado apenas de passagem e com muita naturalidade, o que adorei. Não que eu não goste de romance (amo, inclusive), mas achei refrescante uma história em que os personagens estão focados em sua missão e o relacionamento não é a prioridade do protagonista nem ocupa a maior parte dos seus pensamentos.

A construção do mundo é muito bem feita: vê-se que o funcionamento de Untherak foi pensado com cuidado, e conhecemos personagens em diversos níveis sociais, incluindo nossos (vários!) vilões, que se encontram no topo da hierarquia do local. Há diversos toques de brasilidade nesse mundo (o próprio autor descreveu o livro como Cidade de Deus em Westeros), não só o fato de a cor vermelha ser proibida (risos) e haver uma prática muito próxima da capoeira, mas também, de um jeito mais amplo, nas relações de poder — e abuso deste.

Achei o começo do livro um pouco pesado na apresentação do mundo: por algumas dezenas de páginas, a leitura foi lenta. Depois, porém, o ritmo e a estrutura contrariaram minhas expectativas e ficaram bem acelerados: em alguns casos achei ótimo (eventos que pensei que seriam o clímax do livro ocorrem ainda na primeira parte), em outros me pareceu um tanto brusco. Apesar disso, o ritmo mais veloz favorece a leitura e, com o desenvolvimento da ação, revelações surpreendentes e o aprofundamento dos personagens e seus relacionamentos, nem vi as últimas 300 páginas passarem.

A edição está caprichada — além de uma bela capa, o mapa que se abre no meio do livro é lindo — e inclui um glossário no fim com os termos do mundo. Ordem Vermelha é uma fantasia de respeito não só no cenário brasileiro como no gênero de modo geral: um universo que tem muito potencial para sequências, um primeiro livro muito bem escrito que deixa um (ou dois) ganchos enormes para o próximo volume, e personagens complexos que evocam empatia e nos fazem torcer por eles.

Pra quem quer saber mais, recomendo o Papricast #240 sobre a criação do livro, com presença de Castilho e do editor Daniel Lameira, e pra quem já leu, o episódio do Rei Grifo em que um grupo de convidados discute o livro.

*

Ordem Vermelha
Série: Filhos da Degradação v. 1
Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
448 páginas

2 respostas em “[Resenha] Ordem Vermelha

  1. Estava esperando um post do Sem Serifa sobre esse livro. Vocês manjam muito mais de fantasia! Haha (E também porque, se não me engano, dois colaboradores do blog foram mencionados nos agradecimentos.) Tive algumas impressões semelhantes às suas, como um dos personagens ter sido pouco desenvolvido, o romance não ser o foco da trama quando coisas muito mais importantes estão acontecendo (coisa que me irrita muito) e “eventos que pensei que seriam o clímax do livro ocorrem ainda na primeira parte”. Eu gostei bastante, mas minhas expectativas eram baixas, porque eu não sou a maior fã de fantasia. A leitura foi bem lenta pra mim. Adorei Raazi e Yanisha!

    Beijo,
    Brenda

    • Fala, Brenda! (Viu como temos colaboradores ilustres no blog? hahaha)
      Li sua resenha e vi que não era seu gênero preferido, mas que legal que deu uma chance. Eu gostei muito apesar das críticas, fico feliz que um livro desses está tendo destaque e acho que prenuncia coisas boas para o cenário nacional de literatura especulativa!

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