[Semana Victor Hugo] Os miseráveis

lesmisSinopse: 

O fio condutor da obra é o personagem Jean Valjean, que, por roubar um pão para alimentar a família, é preso e passa dezenove anos encarcerado. Solto, mas repudiado socialmente, é acolhido por um bispo. O encontro transforma radicalmente sua vida e, após mudar de nome, Valjean prospera como negociante de vidrilhos, até que novos acontecimentos o reconduzem ao calabouço.

Fonte: Livraria Cultura

Seguindo a ordem natural das coisas, resolvi ler este livro depois de ver o filme. De Victor Hugo, só tinha lido antes O corcunda de Notre Dame, que tem momentos impactantes mas não é exatamente meu livro preferido (confiram a resenha da Bárbara!). Enfim, cinema e literatura são meios muito diferentes, ainda mais porque o filme se baseia no musical da Broadway, então fiquei curiosa e me animei para embarcar nessa aventura de quase 2 mil páginas. É isso mesmo – não é à toa que, entre os fãs, o livro é afetuosamente chamado de “tijolo” (uma comparação).

O eixo central de Os miseráveis é a revolução de 1832, da qual eu jamais tinha ouvido falar (provavelmente porque fracassou), mas a história começa em 1815, quando o protagonista, Jean Valjean, é solto da prisão. Valjean tinha sido preso na juventude por roubar pão para alimentar a família e, de uma sentença original de cinco anos, acaba ficando preso por dezenove depois de inúmeras tentativas de fuga.

E aí é que começam os problemas dele. Um inspetor (o famoso Javert) sabe que, após ser libertado, ele evadiu o controle da polícia, e o encontra anos depois, quando Valjean está de boa numa cidadezinha, curtindo uma vida tranquila. Valjean realiza essa segunda fuga com uma menina órfã, Cosette, filha de Fantine – aquela cujos sofrimentos renderam um Oscar a Anne Hathaway. Diga-se de passagem, a Fantine do livro tem mais garra que a do musical, e uma vida ainda mais terrível.

Aliás, a primeira coisa que me impressionou no livro foi a profundidade dos personagens. Adoro esses romances enormes do século XIX porque eles desenvolvem as coisas à exaustão, mas o incrível sobre a escrita de Hugo é que, seja em várias páginas ou apenas em um parágrafo de descrição, ele consegue dar vida a um personagem.

Mais tarde no livro, numa Paris em polvorosa, somos apresentados aos revolucionários – “um grupo que esteve a ponto de ser tornar histórico”, composto por rapazes que se reúnem com sonhos de liberdade, igualdade e fraternidade, e que Hugo desvela a nossos olhos com palavras hábeis. As caracterizações são fenomenais. Talvez porque o autor não fuja das contradições inerentes a todas as pessoas, mas se apoie nelas. Acho que todo escritor ou aspirante invejaria a maestria daqueles poucos parágrafos.

A maior contradição, na verdade, se encontra fora do livro: Valjean e Javert são ambos inspirados na mesma pessoa, um criminoso que, depois de solto, se tornou detetive. Assim, são antagonistas que, de certo modo, se completam. E, enquanto Valjean não é o poço de bondade que eu imaginava antes de ler o livro (o arco do personagem é justamente o longo caminho que percorre do ódio ao amor), Javert também não é um vilão caricaturado. Isso não deve surpreender quem leu O corcunda de Notre-Dame (na minha opinião Frollo é, de longe, o personagem mais interessante). E digamos apenas que o destino de Javert também é determinado, no fim, por uma contradição.

O livro é muito mais complexo do que o musical poderia transmitir.  Quer dizer, a “tese” maior é simples: a ideia de que o amor é o caminho da redenção. Algo que se passa não só com Jean Valjean, mas também com outros personagens. Mas Hugo escreveu sobre o passado recente de seu país (o livro saiu em 1862; ele próprio esteve presente nas insurreições de 1832), para um público que conhecia esse passado, e por isso o livro está recheado de referências à política francesa, da qual eu pouco ou nada sabia.

A edição da CosacNaify tem mais notas de rodapé do que sonhava a minha vã filosofia, mas em certo ponto da leitura eu simplesmente decidi que ia parar de ler todas, ou nunca acabaria o livro. Alguma noção de história francesa deve ajudar bastante na compreensão do contexto, mas tenho de dizer que a leitura foi bem mais rápida depois que eu parei de ler cada referência (e, sim, ainda dá pra aproveitar imensamente o livro sem elas!). Claro que, mesmo sem contar as referências, não é algo que sê lê distraidamente: este é um romance filosófico, que exige dedicação do seu leitor.

Mas a crítica maior do livro é óbvia, e facilmente apreendida. Hugo é a contraparte francesa de Dickens, e Os miseráveis é um romance crítico por excelência, que valeria a pena ser lido só pelo impacto que teve à época e pela mensagem humanista por trás da história.

Você está certo, senhor, quando diz que Os miseráveis é escrito para todas as nações. Não sei se será lido por todas, mas eu o escrevi para todas. É destinado à Inglaterra tanto quanto à Espanha, à Itália tanto quanto à França, à Alemanha assim como para a Irlanda, a repúblicas que têm escravos assim como a impérios que têm servos. Problemas sociais ultrapassam fronteiras. As chagas da raça humana, aquelas grandes chagas que englobam o mundo, não se detêm nas linhas vermelhas ou azuis traçadas sobre os mapas. Em todo lugar onde o homem é ignorante ou desesperado, em todo lugar onde a mulher é vendida por pão, em todo lugar onde falta à criança o livro que deveria instruí-la e a lareira que deveria aquecê-la, Os miseráveis bate à porta e diz: “Abra, eu venho por você”.

Carta de Hugo ao editor italiano de Os miseráveis (1862)

A miséria nunca fica afastada por muito tempo da história, e Hugo explora a fundo o que o ambiente faz com o indivíduo – trabalhando também esse ambiente e seus personagens, com a vivacidade de um realista (e os métodos de um: ele chega a visitar uma colônia penal). Prostitutas e criminosos, bispos e freiras, oficiais e vagabundos, estudantes e indigentes: a vida parisiense fora dos salões aristocráticos compõe a maior parte do livro, e a imagem oferecida não é nada bonita, especialmente quando Hugo se foca nas crianças – e várias permeiam o livro, pobres, esfomeadas e abusadas.

Uma delas é Eponine – conhecida geralmente por cantar na chuva sobre o amor não correspondido. Hugo nos conta sobre sua infância e a descreve como “uma rosa na miséria”, uma expressão que caberia a muitos outros personagens. Abusada e faminta, aparenta “cinquenta anos e quinze anos misturados”, tendo pouco a ver com as belas atrizes que normalmente a interpretam. Hugo está sempre traçando paralelos, e Eponine forma um contraste nítido com Cosette – as duas foram criadas juntas até Cosette ser resgatada por Valjean. A vida desgraçada que leva se revela não só na aparência de Eponine, mas também num espírito feral, meio escondido, nas adaptações, detrás de sua paixão por Marius (um jovem que se une aos revolucionários meio por acaso, ao mesmo tempo que se apaixona por Cosette).

Não sou filha de cachorro porque sou filha de lobo. Vocês são seis, e que me importa? São homens. Pois bem; eu sou mulher e não tenho medo de vocês. […] Diabo! Medo é que não tenho. Neste verão vou passar fome, e no inverno vou sentir frio. […] Que me importa se me encontrarem amanhã nas pedras da Rue Plumet morta a facadas pelo meu pai, ou que em um ano me encontrem nas redes de Saint-Cloud, ou na ilha dos Cisnes no meio de madeiras podres e cachorros afogados!

Mas nem tudo é tragédia. Aliás, uma grande surpresa – aquelas coisas que você nem imagina quando pega um clássico desses – é o humor do livro. Além dos inúmeros trocadilhos (que Hugo claramente adorava e que são explicados nas notas aos não falantes de francês), há também alguns momentos (não intencionais?) de hilaridade com Javert, cujo foco na lei às vezes o deixa pasmo diante de certos eventos. E é impossível não pensar que Hugo estava se divertindo ao nomear seus capítulos, entre os quais há as seguintes pérolas:

O MOLEQUE TERIA CLASSIFICAÇÃO ESPECIAL ENTRE AS CASTAS DA ÍNDIA

COMO É BOM IR À MISSA PARA SE TORNAR REVOLUCIONÁRIO

AVENTURAS DA LETRA U ENTREGUE A CONJECTURAS

SEMPRE SE DEVE COMEÇAR POR PRENDER AS VÍTIMAS

OS VELHOS SÃO FEITOS PARA SAIR NA HORA CONVENIENTE

Pra não falar da trilogia:

MARIUS INDIGENTE

MARIUS POBRE

MARIUS PROGRIDE

Entre muitos outros. Falando em Marius, ele é um herói um tanto improvável, mas do qual não posso deixar de gostar. Gentil e sensível, é um jovem com ares de adolescente: desajeitado e inábil, inspira os maiores momentos de vergonha alheia do livro, mas é impossível não se compadecer de sua infância difícil. Aliás, todo o seu passado e história familiar – ele é criado pelo avô, um monarquista severo que deserdou o filho bonapartista – compõem uma das subtramas que ficaram de fora do musical, e são muito interessantes. Para mim, um dos momentos mais bonitos do livro envolve justamente esse avô inflexível.

O romance de Marius e Cosette também proporciona ótimos momentos: algumas das cenas mais sentimentais e felizes do livro (Hugo se opunha a todo esse ceticismo sobre o amor à primeira vista!), mas também momentos hilários, como quando Marius encontra um lenço que pensa ser de Cosette e dorme com ele por dias, sem desconfiar que é na verdade de Valjean. Também é legal notar como, entre o casal, é ele quem perde totalmente a cabeça no desenrolar do romance – uma inversão interessante do estereótipo da mulher apaixonada. Ela, por sua vez, é um dos grandes símbolos de esperança e amor no livro, essencial para Jean Valjean chegar aonde precisa, e também não é a garota um tanto sem graça do musical – “havia em suas veias o sangue da boêmia e da aventureira que anda descalça”.

Por fim, um aviso: o Hugo gosta de envolver o leitor na história só para, quando você está interessado na vida dos personagens, começar uma longa digressão sobre assuntos paralelos. Ele faz isso n’O corcunda, e aqui é ainda pior. Logo depois de Jean Valjean escapar em uma cena tensíssima, o autor resolve que é um bom momento para descrever a batalha de Waterloo por umas cem páginas. Mais tarde, temos um interlúdio sobre os conventos na França e, no final do livro, quando a coisa está mais emocionante, ele resolve descrever o sistema de esgoto parisiense em detalhes. Sem brincadeira. Passar por essas partes é um desafio ao leitor, mas vale a pena.

A edição da Cosac, como disse, é recheada de notas para os interessados. A tradução é de 1957, mas foi revista pelo tradutor para esta edição comemorativa e é muito boa – exceto que, em certo ponto, se diz que um dos personagens, “além da capoeira, sabia dançar e era exímio malabarista” (não, não era capoeira no original!). Enfim, bizarrices à parte, é uma excelente tradução, que não exagera na erudição e consegue lidar com o elegante texto de Hugo. Sem dúvida a melhor opção para o leitor brasileiro.

Não é um livro fácil nem rápido de ler, mas, como muitos clássicos, acaba se revelando muito mais difícil de largar. Quando se passa dos interlúdios históricos e ensaios urbanísticos, o que se tem são histórias de dor e redenção narradas magistralmente, numa escala épica, tanto pela extensão temporal como pela gama de ideias oferecidas. É um livro que dificilmente deixará de ser relevante; que, 150 anos após a publicação, continua atualíssimo; que tem uma mensagem profunda e tocante e é cheio de esperança – e que nós, mais que os contemporâneos, não podemos deixar de ler com um pouco de melancolia. Como não, quando Hugo afirma: “Cidadãos, o século XIX é grande, mas o século XX será feliz”?

*

Os miseráveis
Autor: Victor Hugo
Tradutor: Frederico Ozanam Pessoa de Barros
Editora: Cosac Naify
Ano de publicação: 1862
Ano desta edição: 2012
1976 páginas

Citações

A cólera pode ser louca e inconsequente; pode a gente irritar-se sem motivo; mas a indignação só é possível quando se está de algum modo com a razão: Jean Valjean sentia-se indignado.

*

Um cético que se une a um crente é tão simples quanto a lei das cores complementares. O que nos falta nos atrai. Ninguém ama tanto a luz como o cego.

*

O amor não reconhece meios-termos; ou perde ou salva. Nesse dilema se resume todo o destino do homem.

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