[Resenha] O histórico infame de Frankie Landau-Banks

historicoTrecho:

Como uma pessoa se torna o que ela é? Quais são os fatores de sua cultura, infância, educação, religião, condição financeira, orientação sexual, raça, interações cotidianas – que tipo de estímulos a levam a fazer escolhas que farão com que outras pessoas a odeiem depois?

Este relato é uma tentativa de identificar os elementos da personalidade de Frankie Landau-Banks que contribuíram para o que aconteceria depois: coisas que mais tarde ela veria com uma mistura curiosa de arrogância e arrependimento.

*

Quando Frankie nasceu, seu pai, Franklin, queria um filho homem, para dar o próprio nome à criança. Porém, sendo ela uma menina, lhe deu um nome parecido com o seu: Frances. Essa informação já revela a tônica do livro. Frankie nasceu em um mundo para meninos, fato que aprenderia de uma maneira difícil e nunca aceitaria.

A garota começa o segundo ano do Ensino Médio parecendo uma nova pessoa: seu corpo mudou muito durante o verão, e ela se tornou uma mulher que atrai olhares por onde passa. Logo no primeiro dia de aula, chama a atenção de Matthew, um veterano esportista que logo se torna seu namorado.

É a partir daí que começam os conflitos da garota. Estudiosa e membro do clube de debates, Frankie é inteligente, curiosa e tem pensamento crítico. Mas logo percebe que ninguém se importa com suas ideias, apenas com seu rosto bonito. Para piorar, descobre a existência de uma sociedade secreta entre os alunos da escola, que existe há décadas e da qual seu grupo de amigos e seu namorado participam. O problema é que ela não pode fazer parte (e nem saber da sua existência), porque é um clubinho só para homens.

A trama se desenvolve em torno do fato de Frankie não aceitar todas as limitações impostas a ela apenas por ser menina. Muitas questões feministas são levantadas e fazem pensar. Lockhart desenvolve linhas de pensamento e expõe exemplos de forma muito clara, sem perder o ritmo da narrativa. E, por meio de sua personagem, consegue verbalizar alguns sentimentos com os quais me identifiquei, mas que apenas com esta leitura pude enxergar como possíveis consequências do sexismo.

De forma geral, a autora tem a capacidade de cativar o leitor e fazê-lo se identificar com seus personagens, graças a traços sutis de suas personalidades – geralmente opiniões e pensamentos que você nunca tinha articulado, mas com os quais se sente familiarizado. Foi assim no maravilhoso e mais recente Mentirosos, e o mesmo acontece nesta obra. Em Histórico infame, essa identificação do leitor (e principalmente da leitora) é reforçada pela complexidade da protagonista. Frankie não é uma feminista caricata, tampouco idealizada. E também não é a típica “mulher forte”, arquétipo tão usado na ficção atual. Do contrário, é uma menina confusa quanto a seus sentimentos e ideias. Seus pensamentos oscilam entre a indignação por causa de uma atitude do namorado e uma paixonite adolescente que lhe diz para relevar essas “pequenas coisas” e apenas curtir o garoto de quem tanto gosta.

“Se ela fosse tão sensível, pensou, não ficaria muito tempo com aquele garoto, aquele garoto maravilhoso que a deixava tonta quando a beijava.”

Frankie vive dúvidas e conflitos. Não aceita as injustiças que enxerga à sua volta, mas acha difícil acreditar que sejam intencionais e mal intencionadas – pois vêm das pessoas de que mais gosta. Então, tenta apenas explicar seu ponto de vista para essas pessoas e corrigir tais problemas. A resposta que recebe será provavelmente familiar à leitora: o sentimento de que é necessário um grande (e muitas vezes vão) esforço para ser ouvida e respeitada como os homens são.

Outra questão de gênero muito forte no livro é o companheirismo que Frankie percebe existir no mundo masculino, em oposição à convivência entre as garotas. Aliás, as meninas com quem convive na escola são bastante ingênuas e não entendem os questionamentos de Frankie. Com isso não quero dizer que os meninos da história sejam muito politizados ou espertos, nem que as meninas sejam bobas e estereotipadas. Do contrário, a maioria dos personagens não é mal intencionado, apenas age conforme o status quo. A única personagem que (quase) entende Frankie é sua irmã, que é basicamente a sua tutora em assuntos feministas.

“… em cada uma daquelas páginas frágeis, Frankie conseguiu sentir a ligação fundamental entre os garotos. Eles enfrentariam a vida juntos – quer suas travessuras tenham sido idiotas ou geniais.

Ela enfrentaria a vida sozinha.”

Aliás, usei bastante a palavra “feminismo” nesta resenha, e faço um apelo para que os leitores que tenham qualquer ressalva quanto a essa linha de pensamento não se intimidem: Histórico infame aborda o tema de maneira sutil, mostrando pequenas diferenças de gênero que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia, e portanto traz uma discussão que pode ser bem interessante para apresentar uma perspectiva nova sobre questões feministas.* Ao mesmo tempo, fala de forma mais generalizada sobre sentimentos de pertencimento e exclusão, que são universais.

O livro tem uma trama muito interessante e inteligente, na qual Frankie põe em prática diversos planos mirabolantes e cheios de significado. Parte de suas ideias vêm de uma disciplina optativa na qual está aprendendo sobre intervenções urbanas, protestos e os conceitos de pan-óptico e vigilância na sociedade. Tudo isso traz à tona uma reflexão sobre obediência versus transgressão, que se aplica à vida escolar e à sociedade que Frankie enxerga à sua volta.

A narrativa em terceira pessoa mostra o ponto de vista da protagonista, mas é composta como um relato imparcial sobre os acontecimentos “criminosos” que ocorrem ao longo do ano letivo e cuja responsabilidade seria assumida por Frankie, como é informado logo no primeiro capítulo. Apesar do formato de dossiê, tem uma linguagem leve e divertida (você pode ter um gostinho no trecho que abre esta resenha).

Histórico infame é provavelmente o YA mais inteligente que já li. Questionador e provocativo, é uma ótima leitura, que recomendo fortemente para leitores e leitoras de qualquer idade.

* Para saber um pouco mais, vale a pena ler o post do Conversa Cult sobre o feminismo nesta obra.

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O histórico infame de Frankie Landau-Banks
Autora: E. Lockhart
Tradutor: André Czarnobai
Editora: Seguinte
Ano de publicação: 2013
344 páginas

Citações favoritas

Quem não gosta de comida, não gosta de sexo.

*

“Qualquer coisa que vale a pena ser feita, vale a pena ser feita até enjoar.”

*

Matthew tinha dito que ela era inofensiva. Inofensiva. E estar com ele fazia Frankie se sentir como se estivesse dentro de uma caixa – uma caixa onde ela deveria ser encantadora e sensível (mas não sensível demais); uma caixa para as garotas jovens e bonitas que não eram tão brilhantes ou poderosas quanto seus namorados. Uma caixa para pessoas cuja força não merecia ser levada em conta.

*

[Frankie Landau-Banks é] uma mente dentro de um corpo que está recebendo toda a atenção.

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2 respostas em “[Resenha] O histórico infame de Frankie Landau-Banks

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