[Resenha] O presente do meu grande amor: doze histórias de Natal

opresentedomeugrandeamorSinopse:

Se você gosta do clima de fim de ano e tudo o que ele envolve — presentes, árvores enfeitadas, luzes pisca-pisca, beijo à meia-noite —, vai se apaixonar por O presente do meu grande amor. Nas doze histórias escritas por alguns dos mais populares autores da atualidade, há um pouco de tudo, não importa que você comemore o Natal, o ano-novo, o Chanucá ou o solstício de inverno.

Fonte: Saraiva

Não sou uma leitora assídua de contos. Mas sou fã de YA e das festas de fim de ano, por isso fiquei encantada com essa coletânea – principalmente devido à lista de autores, grandes nomes da literatura YA contemporânea, vários dos quais eu já estava muito interessada em ler. O sumário do livro é o seguinte:

“Meias-noites”, de Rainbow Rowell
“A dama e a raposa”, de Kelly Link
“Anjos na neve”, de Matt de la Peña
“Encontre-me na estrela do Norte”, de Jenny Han
“É um milagre de Yule, Charlie Brown”, de Stephanie Perkins
“Papai Noel por um dia”, de David Levithan
“Krampuslauf”, de Holly Black
“O que diabo você fez, Sophie Roth?”, de Gayle Forman
“Baldes de cerveja e menino Jesus”, de Myra McEntire
“Bem-vindo a Christmas, Califórnia”, de Kiersten White
“Estrela de Belém”, de Ally Carter
“A garota que despertou o sonhador”, de Laini Taylor

Uma das premissas da obra é contemplar a diversidade, o que por si só já é um bom motivo para dar uma chance ao livro. Os contos têm personagens de diferentes etnias e orientações sexuais. E apesar de todas as histórias fazerem menção ao Natal, nem todos os personagens são cristãos e comemoram essa data – alguns celebram ano-novo, Chanucá ou solstício de inverno. Acho que o livro poderia ter ainda um pouco mais de diversidade (de doze contos, apenas um tem temática LGBT, e apenas um tem um personagem negro no casal principal), mas já dá um grande passo nesse sentido, e pode servir de inspiração e modelo para os autores do gênero. Ponto pra eles!

Fiquei surpresa ao ver que vários dos contos continham elementos de fantasia. Essas foram as histórias mais criativas e diferentes – entre si e se comparadas aos demais contos do livro. Seus estilos são bem variados: em “Encontre-me na estrela do Norte”, lemos sobre Natalie, uma garota adotada por Papai Noel, e sobre sua vida no Polo Norte, na companhia dos duendes. É uma história bem meiga e gostosa de ler. “Krampuslauf” e “A dama e a raposa” são ambientadas na nossa realidade, e nelas a magia se revela para a protagonista. Já “A garota que despertou o sonhador” foi o conto mais diferente da coletânea, pois se passa num universo de fantasia próprio – uma ilha onde as moças se casam por obrigação, na qual a protagonista recorre a antigas divindades para se livrar de um pretendente grosseiro.

De todos esses, acho que “Krampuslauf” merece um destaque. Os personagens são adolescentes comuns que têm problemas comuns, mas não fúteis: além de decepções amorosas, as três garotas são marginalizadas por estudarem em escola pública e serem de famílias simples (e às vezes problemáticas). A narradora conta algumas curiosidades sobre os costumes natalinos de sua cidade, sempre com uma visão crítica sobre como o mundo moderno corrompeu os mitos tradicionais. O final da história é bastante surpreendente.

Já os contos que não me cativaram estavam todos entre os mais realistas. É o caso de “Baldes de cerveja e menino Jesus”. Ele tinha potencial para ser uma ótima história: quando uma de suas brincadeiras incendeia o palco, o cenário e os figurinos da peça de Natal da igreja, Vaughn é obrigado a ajudar na montagem de uma nova peça. No dia da apresentação tudo começa a dar errado, e o menino se desdobra para realizar a peça e impressionar Gracie, a filha do pastor. A história podia ser bastante cômica e desesperadora, daquelas em que você fica torcendo para tudo dar certo, mas Vaughn consegue resolver os problemas bem rápido e na primeira tentativa, então o leitor nem tem tempo de se preocupar. Além disso, Gracie e seu pai são perfeitos e bondosos de um jeito exagerado e até irritante (lembram um pouco os Flanders, de Os Simpsons) – a menina faz vários discursos motivadores e tem belas reflexões na ponta da língua, o que não soa nem um pouco natural.

Os outros dois que não chamaram minha atenção, “Meias-noites” e “Papai Noel por um dia”, não são ruins, mas ficam para trás quando comparados ao resto do livro. Em geral, os estilos de escrita são bem parecidos (o que nos leva à discussão bastante recorrente sobre originalidade em obras YA), e os autores que não criam um personagem ou uma situação especialmente cativante ficam ofuscados.

Embora todas as histórias tenham um casal se formando (na maioria das vezes duas pessoas que acabaram de se conhecer e ficam juntas no Natal), algumas se aprofundam em outras questões, o que as torna mais interessantes. Eu gostei em especial de “Bem-vindo a Christmas, Califórnia” e “Estrela de Belém”, porque focam nas relações familiares dos personagens, um tema rico que poderia ser mais trabalhado em obras YA. As autoras conseguem tratá-lo em dois contos com histórias intrigantes e protagonistas bem interessantes. A narradora de White é um tanto revoltada com sua vida de garçonete numa cidade minúscula, mas tem seu lado sentimental na relação com a mãe. Já a de Carter decidiu fugir de sua antiga vida, pegando um avião sem saber o destino e depois assumindo a vida de outra garota – uma das histórias mais envolventes do livro, que nos faz torcer pela garota, apesar da bagunça que se torna a sua vida.

Outro elemento comum a todos os contos é um milagre de Natal – alguns, na forma de interferências mágicas na vida das personagens, outros, simplesmente com a conexão ou conciliação entre um casal ou entre um personagem e sua família. Meus contos favoritos conseguiram ser bastante originais ao transmitir, no final, a mensagem de esperança e de otimismo das festas de fim de ano.

Apesar de algumas ressalvas, achei a leitura agradável, e um livro bem fofo para quem está a fim de ler histórias diversas com finais felizes.

*

O presente do meu grande amor: doze histórias de Natal
Organizadora: Stephanie Perkins
Tradutora: Cássia Zanon, Rachel Agazino e Regiane Winarski
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2014
352 páginas

Livro cedido em parceria com a Intrínseca.

 Intrínseca

Citações favoritas

“Eu não conheço você. Apenas não acho muito inteligente ficar parado aqui fora só porque está mal-humorado. Mas talvez você não seja muito inteligente. Minha mãe diz que as pessoas bonitas não se dão ao trabalho.”

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“Você preferiria ser excelente em algo de que gosta ou apenas bom em algo que ama?”

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[O diabo] punia os malvados e recompensava os bons. Assim como uma certa pessoa que usava muito vermelho. Pensando bem, a semelhança de cor é suspeita.

*

De todas as coisas e pessoas de que sentia falta ultimamente, era estranho ver a si mesma no topo da lista.

*

Eu estive errada durante anos. Estar errada é uma sensação incrível.

12 respostas em “[Resenha] O presente do meu grande amor: doze histórias de Natal

  1. Eu detestei “Deixe a neve cair” que fiquei com receio de comprar este livro novo de contos natalinos. =x Haha Acho que prefiro anotar o nome dos autores que ainda não conheço e procurar por seus livros.

    • Ah, eu tive vontade de ler “Deixe a neve cair”, mas o Natal passou e eu não estava mais no clima ahhaha. Vou conferir sua resenha pra saber por que não gostou!

  2. Pingback: [Especial] Minhas leituras de 2014 + Planos pra 2015 | Sem Serifa

  3. Também não sou muito chegada em livros de contos, mas acabei me apaixonando por este! Alguns contos não são lá grande coisa, apesar de não serem ruins, mas, os que são bons, são bons mesmo. “Bem-vindo a Christmas, Califórnia” foi o meu favorito ♥

  4. Oi Bárbara!
    Eu também não sou uma leitora assídua de contos, mas li “O Presente do meu grande amor” e também gostei (mesmo não sendo uma entusiasta de histórias natalinas).
    Engraçado é que os contos que você mais gostou foram os que eu menos gostei e vice-versa, rsrs. Achei mais interessantes os mais “realistas” e não consegui me conectar muito com os “fantásticos”. Inclusive, “Meias-noites” e “Papai Noel por um dia” foram alguns dos meus favoritos, rsrs. Para ver como a leitura de uma pessoa nunca é igual a de outra, né? Por outro lado, isso mostra que o livro é indicado para vários tipos de leitores.
    Beijos
    alemdacontracapa.blogspot.com

    • Oi, Mariana! Também achei muito legal essa diferença de gostos. Acho que essa é a vantagem de um livro de contos, sempre há chances de encontrarmos algo que nos agrade!

  5. Pingback: [Semana Aconteceu naquele verão] Resenha | Sem Serifa

    • “YA” é uma sigla para Young Adult. É uma categoria de livros protagonizados por jovens no fim da adolescência e começo da vida adulta (e geralmente voltados também para o público dessa faixa etária).

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