[Semana Aconteceu naquele verão] Resenha

aconteceu-naquele-veraoSinopse:

Bem-vindos à estação mais ensolarada e apaixonante de todas! No verão, somos todos iguais, diz um dos personagens do conto “Mil maneiras de tudo isso dar errado”. No Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar do globo, uma coisa é certa: no verão, nossos corações ficam mais leves, mais corajosos, impetuosos e confiantes – talvez por isso esta seja a estação perfeita para se apaixonar… e Aconteceu naquele verão é o livro ideal para quem adora histórias de amor.

Fonte: Intrínseca

Dois anos atrás, a editora Intrínseca lançou O presente do meu grande amor, uma coletânea de contos YA de Natal, escritos por diferentes autores e organizados por Stephanie Perkins. Este ano, um livro similar veio fazer par com ele. Aconteceu naquele verão tem o mesmo tipo de conto e organizadora, mas desta vez todas as histórias acontecem no verão. (Engraçado notar que, para os brasileiros, histórias de Natal são sempre no verão, então uma diferenciação assim não aconteceria em coletâneas escritas no hemisfério Sul.)

Aconteceu naquele verão traz doze histórias românticas vividas por adolescentes, a maioria deles em suas últimas férias antes de terminar o Ensino Médio. Um ponto positivo é que, apesar de todos os contos terem um casal como personagens principais, a maioria deles não tem como foco apenas o relacionamento entre os dois. Outros temas muito importantes em obras YA foram bem trabalhados, tais como a relação com a família, o luto, transtornos psiquiátricos, amizade e a enorme pressão para que os adolescentes escolham uma carreira. Este último tema se repete em vários contos, e a pressão é agravada pelo fato de que, nos Estados Unidos, espera-se também que os jovens deixem a casa dos pais e até a cidade natal, logo após terminar o Ensino Médio.

Com mais diversidade do que sua antecessora, esta coletânea tem um conto com protagonistas gays e outro com protagonistas lésbicas, e nas outras histórias há vários personagens LGBT, além de bastante diversidade de etnias. Um dos melhores contos é Lembranças, de Tim Federle, no qual o protagonista está sofrendo antecipadamente com o término de seu namoro e relembra todos os aspectos positivos e negativos desse relacionamento. É sempre bom encontrar um personagem adolescente que lida bem com a família e com sua sexualidade, em uma história que sabe tratar, de forma madura e bastante sensível, do fim de um relacionamento, tantas vezes inevitável. Em O fim do amor, de Nina Lacour, o principal conflito da protagonista é o iminente divórcio dos pais (assunto importante e que aqui é tratado de forma muito delicada), mas a garota também vai ter a chance de, em meio a essas férias conturbadas, se aproximar da garota por quem está apaixonada.

Mais um conto bem simpático com personagens lésbicas, mesmo que não sejam o casal principal, é Boa sorte e adeus, de Brandy Colbert, no qual a protagonista tem que lidar com a perda de sua prima, que é o mais próximo que ela tem de uma mãe, e que está prestes a se mudar para outro estado com a namorada. A despedida e o luto da perda são bem trabalhados aqui, e ganham mais destaque do que o romance que a garota vai iniciar ao longo do conto.

Gosto muito de como a homossexualidade não é um conflito em nenhuma dessas histórias. Em “O fim do amor”, a protagonista chega a mencionar que houve alguns atritos quando se assumiu para a família, mas isso está no passado, e sua sexualidade, como a de todos os outros personagens da coletânea, é tratada de um jeito natural.

Por falar em diversidade, pela primeira vez li um conto em que um dos protagonistas tem síndrome de Asperger: Mil maneiras de tudo isso dar errado, de Jennifer E. Smith. É uma história curtinha e fofa de um romance adolescente, que trata do Asperger de forma realista: não transforma em um problema gigantesco, mas também não finge que o personagem é igual aos outros adolescentes.

Outra boa surpresa foi ler a continuação de um conto de O presente do meu grande amor: Stephanie Perkins retoma seus personagens Marigold e North, de “É um milagre de Yule, Charlie Brown”, alguns meses depois. No conto Em noventa minutos, vá em direção a North, lemos um novo conflito entre o casal, que se reencontra no meio do verão, depois de Marigold ter ido para a faculdade. Não é preciso ter lido o conto anterior para entender este, mas foi gostoso relembrar esses personagens e a escrita de Perkins, que tem um equilíbrio ótimo entre esperança e realismo, e doses gostosas de humor.

Várias das histórias da coletânea têm elementos de fantasia. São ambientadas no nosso mundo, mas em cada uma alguma magia acontece ou criaturas mágicas aparecem. Logo no primeiro conto, Cabeça, escamas, língua, cauda, de Leigh Bardugo, acompanhamos as investigações de uma garota sobre um monstro do lago em sua pequena cidade cheia de lendas em que ninguém acredita, mas que ela (e uma velha esquisita que mora por ali) sabe ser verdade. O último suspiro do Cinemorte, de Libba Bray, é protagonizado por adolescentes que trabalham no decadente cinema de terror em uma cidadezinha pacata, e se revela uma divertida, caricata e absurda história de fantasia/terror. E é claro que o conto escrito por Cassandra Clare tem demônios como personagens: em Nova atração, o dono de um parque itinerante de terror (com atrações reais, e cuja energia é alimentada pelo simpático demônio Melphit) abandona o negócio da família, deixando-o nas mãos de sua filha adolescente. Este último é o mais fraquinho entre os contos de fantasia, com personagens não muito cativantes e um conflito interessante, mas que se resolve rápido demais. Mas os outros dois compensam; são divertidos e gostosos de ler.

Para minha surpresa, o livro também traz dois contos de ficção científica (bem leve, mas ainda assim). Inércia, de Veronica Roth, lembra bastante “San Junipero”, o famoso episódio de Black Mirror. Nessa história, a tecnologia permite que pessoas em coma e prestes a morrer recebam uma última visita de seus entes queridos – e essa visita acontece dentro de suas mentes, onde o paciente e seu visitante podem conversar e reviver suas lembranças juntos. É uma história fofíssima e bem escrita, com um final feliz que combina bastante com esse livro. Já O mapa das pequenas coisas perfeitas, de Lev Grossman, conta a história cativante de um garoto que está preso em um loop temporal: todos os dias, ele acorda em 4 de agosto. É uma narrativa em primeira pessoa engraçadinha e gostosa de ler, um dos melhores contos do livro.

Por falar nisso, houve dois contos de que eu não gostei. Um deles trazia justamente uma narrativa engraçadinha em primeira pessoa, e parecia promissor: Amor é o último recurso, de Jon Skovron, tem um narrador sarcástico que dialoga com o leitor, à la Lemony Snicket. Infelizmente, a história que ele conta (sobre vários desencontros amorosos em um resort no verão) é bastante fraca. Os personagens (tão numerosos que fazem o leitor se perder) são grandes estereótipos sem nenhuma profundidade, com diálogos bastante artificiais. Além disso, a história se propõe a apresentar um grande plano mirabolante, que na verdade acaba sendo simplório e se resolvendo muito fácil. Se você quer um romance de verão envolvendo funcionários de um hotel, vai se entreter mais assistindo High School Musical 2.

Outro que não cativou foi Prazer doentio, de Francesca Lia Block. É uma história curta narrada em primeira pessoa por uma garota que conta das festas que frequentou na adolescência e das pessoas com quem conviveu. Nenhuma das pessoas recebe nome, apenas iniciais, o que dá à história um ar de realidade. A narrativa se propõe a mostrar as frustrações de uma adolescente que está experimentando diversas experiências novas, como drogas e sexo. Infelizmente, quem acaba frustrado é o leitor – nenhum dos personagens é cativante, a protagonista chega a ser apática, e suas atitudes, além de irresponsáveis e extremamente perigosas, são bem infundadas. Em poucas páginas, ela vai de “nunca beijei ninguém” para “vou transar com este cara que acabei de conhecer”. A construção dos personagens é bem ruinzinha, e o conto não teve nenhum destaque positivo.

Mesmo com essas duas ressalvas, Aconteceu naquele verão foi uma excelente leitura. Ainda melhor que seu antecessor, traz diversidade, temas importantíssimos e personagens interessantes e bem desenvolvidos. E, de bônus, a edição tem uma capa gracinha, na qual é possível identificar o casal principal de cada um dos contos.

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Aconteceu naquele verão
Organizadora: Stephanie Perkins
Tradutoras: Ana Rodrigues, Flora Pinheiro, Larissa Helena
Editora: Intrínseca
Ano desta edição: 2017
384 páginas

Exemplar cedido em parceria com a Intrínseca.

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Citações favoritas

Por mais que as pessoas queiram ver o lado bom, pular direto para o futuro quando tudo estará bem, a verdade é que sempre tem esses momentos em que às vezes fica difícil de respirar e vem uma sensação de impotência. Como se você estivesse gritando, mas ninguém pudesse ouvir. E o mito do futuro feliz não é uma coisa palpável com que você possa contar, e a única coisa que faz sentido é fugir. (“O fim do amor”)

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Eu nunca quis ser como meu pai, que conseguia cortar laços sem o menor esforço e cair fora sem levar nada além de esperança consigo. Mas agora eu encarava as coisas de um jeito diferente. Às vezes, a melhor coisa que você podia fazer era queimar tudo e recomeçar. (“O último suspiro do Cinemorte”)

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Kieth nunca usa a palavra “amor”.
Mas eu uso. Meus avós eram todos hippies. Amor é a moeda corrente da minha família. Gastamos amor como se fosse dinheiro, como se fôssemos as pessoas mais ricas do mundo. (“Lembranças”)

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Essa talvez seja a melhor coisa de estar em um relacionamento: poder compartilhar o fardo de estar vivo. (“Lembranças”)

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– Algumas pessoas podem abandoná-la. […]– Mas não significa que você seja alguém que mereça ser abandonada. De jeito nenhum. (“Inércia”)

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Ainda há mil maneiras de tudo isso dar errado. Mas há mil maneiras diferentes de dar certo também. (“Mil maneiras de tudo isso dar errado”)

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É por isso que não sou um grande fã da gloriosa revolução dos e-books. Eles não têm cheiro de nada. (“O mapa das pequenas coisas perfeitas”)

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