[Resenha] A curva do sonho

curvadosonhoSinopse:

Em um mundo assolado por instabilidade climática e superpopulação, George Orr, um cidadão pacato e mundano, descobre que seus sonhos têm o poder de alterar a realidade. Quando acorda, o mundo que conhecia tornou-se um lugar estranho, quase irreconhecível, em que apenas ele tem a memória de como era antes.

Sem rumo, ele busca a ajuda do Dr. William Haber, psiquiatra que logo deixa de lado o seu ceticismo e entende o poder que George possui, transformando-o em um peão de um perigoso jogo, em que o destino da humanidade fica mais ameaçado a cada instante.

Fonte: Morro Branco

A curva do sonho foi meu livro favorito de 2018, quando o li em inglês com seu título original The Lathe of heaven. Eu me demorei nessa leitura porque não queria que acabasse e, quando acabou, tive vontade de começá-la de novo. E de fato tive o prazer de reler o livro este ano, com um segundo olhar que apenas reforçou meu amor pela obra, agora lançada em português pela Morro Branco com uma capa que brilha no escuro.

Esse romance de Ursula K. Le Guin se passa em Portland, nos Estados Unidos, onde vive um homem chamado George Orr. Desde os 17 anos, Orr tem tido o que chama de “sonhos efetivos”: seus sonhos são capazes de alterar a realidade, de tal forma que Orr seja o único que se lembra de ter vivido em outra realidade. Temendo os possíveis efeitos desse poder, ele entra em desespero e começa a usar drogas para suprimir o sono e os sonhos, o que o faz ser encaminhado a uma terapia compulsória com um psiquiatra. O dr. Haber logo descobre que Orr está falando a verdade sobre os sonhos – e enxerga um potencial gigantesco no uso desse dom. Então tem início um jogo de poder entre paciente e psiquiatra, e a cada sessão Haber vai mais longe em suas manipulações da realidade através dos sonhos de Orr.

 

Até onde ele sabia, Haber era incapaz de agir com sinceridade porque mentia para si mesmo. Ele podia ter compartimentado a própria mente em duas metades herméticas: em uma delas, sabia que os sonhos de Orr alteravam a realidade e os empregava com esse objetivo; na outra, o que sabia era que estava usando hipnoterapia e ab-reação para tratar um paciente esquizoide que acreditava ter sonhos que alteravam a realidade.

 

Os capítulos alternam o ponto de vista de Orr com o do médico, o que possibilita ao leitor ter uma visão mais completa deste personagem e de suas intenções. Dr. Haber é um personagem ambíguo e assustador, um psiquiatra tão manipulador e inescapável quanto o Hannibal Lecter de Mads Mikkelsen, da série televisiva. Um homem que ostenta profissionalismo e cavalheirismo, de trato acolhedor e um tanto paternalista, ao mesmo tempo que é um maníaco sedento por poder.

 

Não é de admirar que Haber me use. Como ele poderia evitar? Não tenho força alguma, não tenho personalidade alguma, nasci para ser um instrumento. Não tenho destino algum. Tudo o que tenho são sonhos. E, agora, outras pessoas os comandam.

 

Já Orr é, como a própria trama menciona, o estereótipo do idiota da aldeia. Infinitamente passivo, ele tenta a todo custo se livrar dos conflitos à sua volta. Seus desejos imediatos são tão simples quanto escapar dos transtornos diários do transporte público até o trabalho; sua maior ambição talvez seja deixar de ser o protagonista dessa história. Ainda assim, Orr é cativante. Apesar de sua passividade e da aversão a conflitos, ele possui um forte senso de moralidade e de preservação da própria identidade, o que o transforma de idiota a herói e faz com que o leitor torça por ele.

Um terceiro ponto de vista que surge em alguns capítulos é o da personagem Heather Lelache, uma advogada a quem Orr pede ajuda. Curiosa e sagaz, Lelache se torna um elemento interessante da história – é através dela que a autora insere uma inesperada (mas nada usual) trama romântica, além de dar uma leve alfinetada em questões raciais.

 

Pensou: naquela vida, ontem, sonhei um sonho efetivo, que extinguiu 6 bilhões de vidas e alterou toda a história da humanidade pelo último quarto de século. Mas nesta vida, que criei na mesma hora, eu não sonhei um sonho efetivo. Eu estava no consultório de Haber, certo, e sonhei; mas não alterei nada. Tem sido assim desde o princípio, eu simplesmente tive um sonho aflitivo sobre a Era da Peste. Não há nada de errado comigo, não preciso de terapia.

 

A trama desse livro é tão imprevisível quanto um sonho, envolvendo elementos bastante absurdos. As reflexões sobre a realidade e sobre as perturbações que a alteram trazem um ar de Philip K. Dick. Parece que Le Guin aproveita os melhores elementos da obra desse autor e acrescenta sua escrita primorosa, com reflexões mais refinadas e personagens muito mais complexas. Assim como Dick faz em suas histórias, em A curva do sonho Le Guin fala sobre a harmonia do ser humano com o universo, traçando paralelos com religiosidade e filosofia. Isso, é claro, além da discussão central sobre poder, corrupção e submissão.

É impressionante como uma obra tão curta consegue contar uma história tão marcante, e ao mesmo tempo tocar em diversos assuntos recorrentes da ficção científica: conflitos internacionais, superpopulação, diferenças raciais, conflito entre ser humano e máquina. É um trabalho que só poderia ser assinado por um gênio como Ursula K. Le Guin.

*

A curva do sonho
Autora: Ursula K. Le Guin
Tradutora: Heci Candiani
Editora: Morro Branco
224 páginas
Ano de publicação: 1971
Ano desta edição: 2019

Livro cedido em parceria com a Morro Branco.

 

Citações favoritas

Mas ele não é um cientista maluco, Orr pensou, de forma nada brilhante; ele é consideravelmente são, ou era. O que o desvirtua é a possibilidade de poder que meus sonhos lhe dão. Ele continua atuando em um papel, e isso lhe dá um papel incrivelmente grande a interpretar. De modo que está até usando a ciência como meio, não como fim… Mas seus fins são bons, não são? Ele quer melhorar a vida da humanidade. Está errado?

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A possibilidade infinita, a integridade ilimitada e incondicional do ser que não está comprometido, não reage, não foi entalhado: o ser que, não sendo nada além de si mesmo, é tudo.

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A característica da sede por poder é, precisamente, o crescimento. O êxito é sua anulação. Para existir, a sede por poder deve aumentar a cada realização, tornando essa realização apenas um passo em direção a outro. Quanto mais vasto o poder conquistado, maior o apetite por mais. Como não havia limite visível para o poder que Haber exercia através dos sonhos de Orr, não havia fim para sua determinação de melhorar o mundo.

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Na cama, fizeram amor. O amor não fica apenas ali, como uma pedra, ele tem que ser feito, como pão; refeito o tempo todo, feito como novo.

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