[Resenha] Os despossuídos

capa nova Despossuídos

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Ganhador do prêmio Nebula, em 1974, além do Hugo e do Locus em 1975, Os despossuídos lida com temas fundamentais a sua época, como embate entre o capitalismo, o comunismo russo e o anarquismo. O romance se passa em dois planetas-gêmeos, Uras e Anarres, com sistemas políticos opostos e prestes a entrar em conflito, numa alusão à Guerra Fria.

Fonte: Editora Aleph

 

 

Vamos começar pelas beiradas: para quem já teve contato com a obra da Ursula, Os despossuídos é um pouco mais solene que A curva do sonho, mas sua leitura é menos desafiadora do que A mão esquerda da escuridão. Como este último, Os despossuídos faz parte do Ciclo Hainish, composto por livros que podem ser lidos em qualquer ordem. A Aleph recentemente reeditou Os despossuídos em capa dura, mas o meu exemplar é da edição anterior.

Essa é a capa da edição que eu tenho, publicada em 2017.

O protagonista de Os despossuídos é Shevek, um brilhante físico que estuda temporalidade. E sua narrativa se desenvolve em duas linhas temporais entrelaçadas: uma desde a sua partida do seu planeta natal até o ápice do estranhamento em um planeta alienígena, e a outra da sua infância até a partida.

“Bem, pensamos que o tempo ‘passa’, que flui por nós, mas e se formos nós que nos movemos para frente, do passado para o futuro, sempre descobrindo o novo? Seria um pouco como ler um livro, entende? O livro está todo ali, todo de uma vez, entre as capas. Mas se você quer ler a história e entendê-la, deve começar na primeira página e avançar, sempre na ordem, Então o universo seria um grande livro, e nós, leitores muito pequenos.”

De fato me senti uma leitora muito pequena desvendando as relações entre Anarres e Uras: planetas que são um a lua do outro. Anarres, onde Shevek nasceu, é um lugar árido ao qual os anarquistas de Uras foram enviados para construir a própria sociedade, que funciona há 150 anos. É organizada de maneira anarco-sindicalista, prezando simultaneamente pela coletividade e pela liberdade. Ninguém possui nada, estando assim livre para tomar decisões de onde (e se) trabalhar, com quem se relacionar…

A sociedade de Anarres segue os ensinamentos de Odo, uma mulher nascida em Uras que percebia limitações no sistema capitalista – mas que nunca viu seu sonho se concretizar na lua. Essa sociedade idílica, porém, faz Shevek se sentir isolado, porque ele tem tendências egoístas e mais que isso: vê certa justiça nelas, mesmo que revestida por culpa.

“Estava sozinho ali porque viera de uma sociedade autoexilada. Sempre estivera sozinho em seu próprio mundo porque se exilara de sua sociedade. Os Colonos tinham dado um passo para fora. Ele dera dois. Estava sozinho porque assumira o risco metafísico.”

A grande frustração de Shevek, que o leva a almejar contato com Uras, é justamente o desenvolvimento de sua teoria temporal, que lhe permite acessar os progressos feitos pelos urrastis. Esse movimento começa com o aprendizado da língua urrasti  e termina com a viagem que centraliza a narrativa. A grande questão é que, por ser uma sociedade experimental e nova, Anarres não permite o desembarque de nenhum forasteiro. E, ao partir, Shevek se tornaria um.

A língua odoniana não é uma língua natural como a urrasti. Ela foi projetada para evitar as armadilhas linguísticas que levariam ao pensamento proprietário e religioso. Um dos exemplos que mais gostei são os termos distintos para o trabalho que se faz para a comunidade do que se faz por vocação ou prazer.

Não posso deixar de mencionar a delicadeza da construção do relacionamento de Shevek com Takver, sua parceira romântica/sexual. Eles se conhecem no início da vida adulta, mas se interessam um pelo outro apenas alguns anos depois. O relacionamento deles tem uma cumplicidade muito interessante e que parece ser também fruto da visão de perpétua irmandade de todos os odonianos. Ela é uma bióloga especializada em piscicultura e faz um trabalho muito mais essencial à sobrevivência da sociedade naquele planeta hostil do que o de Shevek, e é muito interessante observar as consequências dessa distinção.

A presença de Shevek em Uras tangencia a temática do “bom selvagem”, enquanto ele é induzido a conhecer apenas as partes belas e agradáveis e se deixa deslumbrar pela fartura de recursos de Uras. Ele percebe, porém, que o interesse dos urrastis em sua teoria é a aplicação prática no campo bélico intergaláctico.

A riqueza de detalhes de cada sociedade é dolorosamente verossímil e eu poderia passar horas apontando os meus favoritos. Este livro de 1974, embora aluda claramente à Guerra Fria, dialoga muito bem com a nossa realidade – como toda a obra de Le Guin. A ficção científica é sempre uma experiência de pensamento, mas nos toca no que é universal na experiência humana.

“As luzes solares variam, mas a escuridão é uma só.”

Com essa citação que tanto me lembra o início de Ana Karenina, reforço a recomendação de leitura.

 

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Os despossuídos
Autora: Ursula K. Le Guin
Tradutora: Susana L. de Alexandria
Editora: Aleph
Ano de publicação: 1974
Ano desta edição: 2017
384 páginas

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Citações favoritas

Se um livro fosse escrito só com números, seria verdadeiro. Seria justo. Nada expresso em palavras jamais resultava em algo equilibrado. Coisas em palavras tornavam-se distorcidas e embaralhadas, em vez de diretas e ajustadas. Mas, por baixo das palavras, no centro, como o centro do Quadrado, tudo se equilibrava. Tudo poderia mudar e, no entanto, nada se perderia.

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– (…) O problema com você, Shev, é que você não fala nada até acumular um caminhão de argumentos pesados como tijolos, que então descarrega de uma vez, sem nunca olhar o corpo ensanguentado e mutilado debaixo do monte…

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É da natureza da ideia ser comunicada, escrita, falada, realizada. A ideia é como a grama. Anseia pela luz, gosta de multidões, prolifera por cruzamento, cresce melhor para ser pisada.

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– “Para fazer um ladrão, faça um proprietário; para criar o crime, crie leis.” O organismo social.

– Pois bem. Onde há papéis em salas trancadas, há pessoas com as chaves das salas!

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Não se pode destruir ideias reprimindo-as. Só se pode destruí-las ignorando-as. Recusando-se a penas, recusando-se a mudar.

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Então vocês descartaram todas as imposições, todos os “faça isso”, “não faça aquilo”. Mas, sabe, acho que vocês, odonianos, não entenderam nada. Descartaram os padres, os juízes, as leis do divórcio e tudo o mais, mas mantiveram o problema real por trás deles. Só inseriram o problemas em suas consciências.

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Quebrar uma promessa é negar a realidade do passado; portanto, é negar a esperança de um futuro real. Se o tempo e a razão são funções um do outro, se somos criaturas do tempo, é melhor sabemos disso e tirarmos o melhor proveito. Agir com responsabilidade.

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Mas eu tenho mais sorte. Um cientista pode fingir que o seu trabalho não o representa, que é apenas a verdade impessoal. Um artista não pode se esconder atrás da verdade. Não pode se esconder em lugar nenhum.

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Anarquistas mortos viram mártires, você sabe, e continuam vivos por séculos. Mas os ausentes podem ser esquecidos.

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Ninguém que se recuse a ir tão longe quanto estou disposto a ir tem o direito de impedir que eu vá.

4 respostas em “[Resenha] Os despossuídos

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