[Resenha] Fool’s Quest

foolsquestEsta resenha foi feita com base na edição da Del Rey e a tradução de trechos foi feita por mim. Ela contém spoilers de TUDO ─ na verdade, até a sinopse revelava tanta coisa que resolvi cortá-la. Em vez disso, você pode se convencer a ler esta série só com base nos meus elogios:

Não deve se tornar minha saga preferida de todos os tempos” – Eu, dois meses atrás

“Com licença enquanto eu hiberno na minha caverna de lágrimas até 2017” – Eu, ao terminar Fool’s Quest

 

Ainda mantenho que Fool’s Assassin foi o livro mais fraco da série, mas não devia ter duvidado da Hobb. Fool’s Quest não é apenas incrivelmente melhor que o antecessor, mas um dos melhores livros (se não o melhor) de Realm of the Elderlings. Certamente foi um dos que eu mais gostei de ler, apesar de ser uma montanha-russa emocional (mas quando eles não são?).

Como de praxe, o livro começa imediatamente após o anterior, mas Fitz ainda não vai descobrir que sua casa foi invadida e sua filha sequestrada. Até lá, várias coisas incríveis vão acontecer. Na verdade, tudo muda no capítulo 8. PREPARE-SE PARA O CAPÍTULO 8. É um daqueles momentos que fazem valer a pena ler uma série dessa extensão, quando você sente a emoção do personagem quase como se fosse a sua. Sim, o capítulo 8 (PREPARE-SE) já valeria o livro todo. Felizmente, a obra inteira é muito mais bem equilibrada que a anterior e, assim que Fitz descobre que a filha foi raptada, é lógico que começam as investigações.

Para a minha surpresa, os inevitáveis pensamentos autodestrutivos de Fitz não ocuparam tanto espaço quanto eu temia. Ao contrário: Fitz percebe que, para recuperar a filha, vai ter que abandonar suas outras “personas” e se tornar o assassino que Chade lhe ensinou a ser. É claro que ele não deixa de sentir a dor, frustração e os arrependimentos que o acontecimento lhe traz, mas encontramos um Fitz focado e determinado, que leva o livro adiante. Quando outros eventos mudam as circunstâncias da trama (estou sendo o mais vaga possível…), ele igualmente se mantém um homem de ação – por mais que, por dentro, seja um poço de desesperança. Ai, Fitz. Por que a autora não deixa você ser feliz?

Aliás, falando em Fitz, ele notavelmente está com um senso de humor mais negro. Uma das minhas partes preferidas é quando encontra os filhos de Dutiful:

 

“Bem. Certamente o veremos no jantar hoje à noite. Talvez possamos conversar mais então.”

“Talvez,” eu concordei, mas duvidava. Eu não queria contar a eles histórias de velho sobre como as coisas tinham sido. As pessoas que eu tinha matado, como o tio-avô deles tinha me torturado.

 

Ah, os bons e velhos tempos.

A quantidade de capítulos da Bee diminui bastante. De fato eu ainda prefiro acompanhar Fitz, e nesse livro não havia tanta necessidade do ponto de vista dela. Também fiquei contente ao ver que Shun se torna um pouco mais suportável, embora Lant ainda me pareça um jovem chatinho e teimoso. Por outro lado, Perseverance encontra Fitz e marca presença em grande parte do livro, para a minha alegria. Este rapaz é uma pérola, protejam-no a todo custo.

Dutiful e Nettle também aparecem mais neste livro, e a relação de Fitz com a filha finalmente evolui para um estágio de maior respeito e compreensão mútua. Além disso, adorei como os Farseers e agregados – incluindo Elliania, os filhos de Burrich, todo o pessoal – formam numa família de verdade. Finalmente Fitz tem um apoio para as merdas que acontecem na vida dele. (Não que ele reconheça que eles o amam; afinal, é o Fitz…)

Quanto a Chade, digo apenas que a sua situação muda radicalmente. E já não era sem tempo, porque faz 8 livros que o homem continua o mesmo.

Mas vamos ao que interessa: como vai o Bobo? Bom, péssimo, já que passou 20 anos sendo torturado (não, nunca vou perdoar a Hobb por isso). Porém, aos poucos ele começa a se recuperar, embora continue cego, todo quebrado e morrendo de medo de tudo (meu querido, por quê?). Ele se aproxima de Ash, o garoto sendo treinado por Chade, e descobre um segredo sobre ele (que achei ótimo!).

Quanto a Fitz, por um lado o cuidado que ele tem com o amigo nesse livro é bem lindo; ele sabe o que é ser torturado e o que isso faz com uma pessoa. Por outro lado, comete novamente um erro que já fez na trilogia passada. (O Fitz cometendo os mesmos erros? Que novidade!) Eles também finalmente conversam sobre Bee e quem ela é de verdade – o que o Bobo reconhece imediatamente, é claro! – e Fitz finalmente aceita que sua filha é uma Profeta (não sem um pouco de negação primeiro, é claro). E, além disso, acontece algo maravilhoso de que eu falo mais abaixo. Basta dizer que Fitz finalmente, FINALMENTE, tem um enorme crescimento como personagem, no sentido de reconhecer a(s) identidade(s) de Beloved.

Meu maior problema com esse livro é que ele acaba num cliffhanger e, por ser mesmo o meio de uma história única, como eu supus antes, não resolve o problema principal da trama. Também há algumas referências à série Rain Wild Chronicles, que se passa antes desta trilogia. Embora eu já tenha resenhado esses quatro livros, os li depois deste aqui. Minha impressão inicial foi de que você não precisa lê-los para entender o que acontece neste, mas eu sentia que estava perdendo várias referências. (De fato, após ler RWC e reler esses trechos, tudo fica muito mais interessante. Mas a leitura na ordem errada também teve sua graça, especialmente em relação a Rapskal…) Também ocorrem coisas importantíssimas ligadas a Liveship Traders, e já mencionei que você devia muito ler essa trilogia???

Fool’s Quest é um livro extraordinário que parece ter bem menos que suas 700 e tantas páginas, e vai te deixar tão animado quanto preocupado com o final da série. Comentários mais empolgados abaixo, com muitos spoilers. E termino a resenha com uma questão: COMO PREENCHER ESSE VAZIO NA MINHA ALMA?

 

COMENTÁRIOS COM SPOILERS:

  • Bobo continua cego, estou chateada e cansada disso. Mesmo sem ter lido Rain Wild Chronicles antes desse, já disse “Vai dar merda” quando li que deram sangue de dragão pra ele. E, embora tudo aparentemente esteja indo bem, tenho certeza de que ele vai se arrepender disso antes do final, porque afinal é a Robin Hobb.
  • Quem reparou que o Chade chamou os filhos de Lantern e Shine? Hehehehe.
  • Adorei aquele corvo! (Boa sorte pro tradutor que tiver que traduzir “Motley”, aliás. Que eu saiba não existe uma palavra equivalente em português.)
  • Jek agindo como espiã, meu deus!
  • A mãe do FitzVigilant… gente… quê.
  • O Fitz ganhar uma guarda própria foi bem emocionante. ASSIM COMO TODO O CAPÍTULO 8. Eu não acreditava que ia acontecer até o último segundo.
  • Vamos admitir que a Kettricken quer o Fitz, né. Eu sempre suspeitei, mas sério. Esses dois precisavam de uma noite pra tirar isso do caminho. A VIDA DELA NÃO FOI FÁCIL, CARA, DÁ ISSO PRA ELA PELO MENOS.
  • PARA TUDO: A CARTA DO VERITY DECLARANDO O FITZ COMO HERDEIRO DELE. Impressionante como um bilhão de livros depois ainda sinto dores no peito sempre que o Verity é mencionado. E quando o Fitz ouve a voz dele eu só me joguei no chão. VERITY SEU LINDO. ❤
  • “Sua e minha, e sem dúvida a criança mais linda e inteligente que já existiu!” Rindo pra sempre. Novamente, Deus abençoe a Hobb por me dar uma criança filha de 3 pessoas e 1 lobo. Melhor série.
  • Não podia me importar menos com o drama sobre o Lant sobre estar a fim da irmã dele, mas resultou em uns momentos engraçadinhos.
  • VAI DEIXAR O BOBO PRA TRÁS DE NOVO? PORRA FITZ CÊ NUNCA APRENDE MESMO
  • Aliás, adoro como Fitz toma decisões cretinas do tipo “Vou fazer isso sozinho e desaparecer na vida com a minha depressão” e todo mundo já prevê.
  • AMBER. ESTÁ. DE. VOLTA. Eu não sabia como eu precisava disso até acontecer mas foi minha parte preferida do livro. Amber e Fitz! E o fato de Fitz não agir como um asno – pelo contrário, aceitar e entender as múltiplas identidades dela. AI MEU DEUS. SÓ LEVOU 8 LIVROS PRA VOCÊ CHEGAR AQUI. E essa trama de comédia romântica no final? “Ah, você é tipo o protetor dela… vem cá, fiquem nesse quarto juntos.” Causa de morte: Robin Hobb.
  • Malta fazendo piadas internas com o Fitz sobre já conhecê-lo e ele sem entender que é por causa do Paragon. ESTAREI RINDO ATÉ 2057 SOBRE ISSO COM LICENÇA.
  • Eu preciso que o Fitz conheça o Paragon no próximo livro. PRECISO. Sério, é tudo que eu quero, POR FAVOOOOOR.
  • Li uma entrevista com a Hobb em que ela diz que o livro tinha 35 mil palavras a mais que foram passadas pro próximo. Vou escolher supor que nessas palavras ela resolvia os problemas lá em Kelsingra. O que me faz pensar que o livro originalmente não acabava nesse cliffhanger medonho, e me faz odiar todos os editores da Hobb.
  • Desejos para Assassin’s Fate: Fitz salva Bee nas primeiras cinquenta páginas; Amber leva ele para Bingtown; 500 páginas de eles sendo felizes. FIM DO LIVRO. (Me deixa sonhar, eles provavelmente vão todos sofrer e morrer.)

*

Fool’s Quest
Autora: Robin Hobb
Editora: Del Rey
Data de publicação: 2015
756 páginas

*

Resenhas da série Realm of the Elderlings:

Trilogia Farseer/Saga do Assassino: O aprendiz de assassinoO assassino do reiA fúria do assassino

Trilogia Liveship Traders: Ship of MagicMad ShipShip of Destiny

Trilogia The Tawny Man: Fool’s ErrandGolden FoolFool’s Fate

Rain Wild Chronicles: Dragon KeeperDragon Haven – City of Dragons – Blood of Dragons

Trilogia The Fitz and the Fool: Fool’s AssassinFool’s Quest

 

Citações preferidas

“Você sabe alguma coisa que não está me contando?”

“Sempre. E isso sempre será verdade.”

*

“Bobo! Por que está agindo assim?”

“Você realmente quer saber?” O antigo toque de zombaria estava de volta em sua voz.

“Sim.”

Ele falou mais suave e sobriamente do que tinha antes. “Porque eu sei que você se sente melhor quando eu estou zombando de você.”

*

“Então. Você vai finalmente dar uma resposta definitiva à questão que Starling pôs a ele tantos anos atrás? Ele é, então, um homem?”

Eu inspirei, hesitei, então respondi. “Kettricken, ele é o que é. Uma pessoa muito privada.”

*

“Eu gostaria de poder viver outra vez, antes de ter que morrer.”

*

Por um momento eu olhei para fora das janelas do castelo. Fazia anos desde que eu estudara essa vista. A floresta tinha recuado. Eu podia ver cabanas de fazendeiros onde uma vez houvera apenas pastos de ovelhas, pastos onde tinha existido floresta, e uma extensão de tocos além disso. Meu coração desabou; no passado havíamos caçado lá, meu lobo e eu, onde agora as ovelhas pastavam. O mundo tinha que mudar e por algum motivo a prosperidade dos homens sempre resulta neles tomando cada vez mais das criaturas e dos lugares selvagens.

*

Eu me peguei falando suavemente, como se estivesse contando uma velha história para uma criança. E dando um final feliz a ela, quando todos sabemos que as histórias nunca acabam, e o final feliz é apenas um momento para recuperar o fôlego antes do próximo desastre.

*

O melhor jeito que eu conheço de parar de pensar é apanhando um machado e tentando matar alguém com ele.

*

“Eu odeio você,” eu disse a ele, afável. “Eu gosto de machucá-lo. Talvez você não queira me dar uma desculpa para fazê-lo sangrar mais.” Eu inclinei a cabeça. “Um estuprador não precisa ser bonito. Um estuprador não precisa de um nariz. Ou de orelhas.”

*

Agonia e raiva eram uma única força em mim. Eu queria quebrar tudo na sala, mas, principalmente, queria me destruir por ser tão impotente. Eu tinha cortado meu cabelo até o escalpo quando Molly morrera, uma destruição simbólica e punição a mim mesmo por ter fracassado em salvá-la. Agora eu queria retalhar meu rosto, bater meu crânio contra a parede, me jogar da janela. Eu me odiava por meu fracasso total. Eu era uma coisa tão inútil a ponto de ser má. Eu era um assassino e capaz de tortura, um homem desprovido de bondade. Mas mesmo minha perversidade era impotente.

*

O luto e a perda nunca morrem. Nós os guardamos num baú e os trancamos a sete chaves, mas sempre que ele é aberto, mesmo só um pouquinho, o aroma da doçura perdida se ergue para preencher e pesar nossos pulmões.

*

O Bobo e eu raramente mentíamos um para o outro. Exceto quando o fazíamos.

*

“Te incomoda?” ela me perguntou.

Eu não tive que perguntar o que ela queria dizer com isso. “Por mais estranho que seja, não. Você é você. Bobo, Lorde Golden, Amber e Beloved. Você é você, e nós nos conhecemos tão bem quanto é possível duas pessoas se conhecerem.”

Uma resposta em “[Resenha] Fool’s Quest

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