[Resenha] O aprendiz de assassino

Esta resenha foi feita com base no e-book em inglês da Random House. A tradução de trechos foi feita por mim.

aprendizSinopse:

O jovem Fitz é o filho bastardo do nobre Príncipe Cavalaria e foi criado pelo cocheiro de seu pai, à sombra da corte real. Ele é tratado como um penetra por todos na realeza, com exceção do Rei Sagaz, que faz com que ele seja secretamente treinado na arte do assassinato. Porque nas veias de Fitz corre a mágica do Talento. Quando assaltantes bárbaros invadem a costa, Fitz está se tornando um homem. E embora alguns o vejam como uma ameaça ao trono, ele pode ser a chave para a sobrevivência do reino.

Fonte: Livraria Cultura

Este é o primeiro volume de uma série clássica de fantasia, a Saga do Assassino (em inglês, Trilogia Farseer). O livro levou algumas dezenas de páginas para começar a me envolver – mas, quando o fez, não consegui mais largá-lo. A obra de Robin Hobb (pseudônimo de Margaret Astrid Lindholm Ogden) apresenta uma mistura deliciosa do familiar com o original e é uma daquelas obras em que dá gosto de imergir: um mundo bem desenvolvido, magia interessante e intrigas políticas, mas mantendo os personagens em primeiro plano.

O livro narra a história de Fitz, contada por ele próprio muitos anos depois. Aos seis anos, o garoto é abandonado pelo avô nas mãos da realeza dos Seis Ducados, e descobre que é o filho bastardo de um príncipe, Chivalry (Cavalaria, na edição brasileira). Fitz nem chega a conhecer o pai, pois, quando o escândalo se torna conhecido, Chivalry abdica do trono e vai morar com a esposa Patience em uma propriedade afastada. Em vez disso, Fitz é criado pelo mestre dos estábulos do pai, Burrich, que era extremamente devotado a Chivalry e torna sua missão de vida educar Fitz para que se torne digno do pai.

O primeiro desafio da leitura foi superar os nomes um tanto bobos da realeza dos Seis Ducados: todos os membros da família Farseer recebem o nome de virtudes, que – diz a tradição – lhe são atribuídos magicamente e representam o caráter que terão na vida. Mas o livro deixa bem claro que não é sempre o caso: os personagens são todos de carne e osso, e é bem interessante comparar o nome de cada um com quem provam ser de fato.

Os irmãos de Chivalry são Verity (Veracidade) e Regal (Majestoso), este último filho da segunda esposa do pai deles, o rei Shrewd (Sagaz). Grande parte da trama se revolve em torno deles: quando Chivalry abdica, o pragmático Verity, um soldado que não esperava se tornar rei, se torna o primeiro na linha de sucessão, mas Regal também tem ambições fortes nesse sentido. O rei Shrewd mostra seu lado implacável (a palavra shrewd, antigamente, tinha conotações de abusivo e perigoso) quando decide treinar secretamente o neto bastardo para se tornar um assassino. Fitz não tem muita escolha: aceita a mentoria de Chade, uma figura misteriosa que poucos no palácio já viram, e começa a aprender a arte do assassinato.

Em meio ao drama político, a autora nos revela os poderes de Fitz. A realeza dos Seis Ducados tem um poder chamado de Skill (Talento): uma habilidade cujas características e limites a autora vai revelando aos poucos e que não vou explicar demais aqui para deixar o gostinho da descoberta na leitura. Desde o começo fica claro, no entanto, que o Talento é uma habilidade mental, usada para acessar a mente de outras pessoas.

Ao mesmo tempo, no entanto, Fitz demonstra outro poder: pode acessar a mente de animais e ver as coisas a partir de seus olhos (dois anos antes de Bran Stark!). O legal é que o garoto nem está ciente de que essas habilidades são “mágicas” – quando narra sua infância, fala delas com toda a naturalidade com que as experimentava, para então, à medida que cresce, explicá-las mais a fundo. O problema é que, enquanto o Talento é uma habilidade nobre e respeitada, Burrich fica horrorizado ao descobrir a outra tendência mágica do garoto – o homem considera – a nada menos do que uma perversão, e faz de tudo pra impedir Fitz de criar laços profundos com animais.

O relacionamento de Fitz e Burrich foi um dos meus aspectos favoritos do livro. Ele é bem complicado, pelo fato de os dois terem sido obrigados a conviver juntos. “Nós dois estávamos presos à solidão”, diz Fitz em certo momento, “e quando olhávamos um para o outro toda noite, cada um via aquele que culpava por isso.” Assim como Fitz, passamos boa parte do livro nos perguntando se o carrancudo mestre dos estábulos se importa de fato com o garoto, ou apenas quer evitar que o menino envergonhe o pai. A repressão dos instintos do menino cria uma barreira instransponível entre eles, e leva Fitz a odiar e temer o homem às vezes. Mesmo assim, ele é a pessoa mais próxima de Fitz por quase uma década, o que não vem sem certo afeto. Ver o desenvolvimento dessa relação foi fascinante, e um dos exemplos mais claros da sutilezade Hobb ao criar seus personagens.

Outra coisa boa da narrativa em primeira pessoa (como as Crônicas Saxônicas e A crônica do matador do rei fariam mais tarde também) é a mistura de uma perspectiva “presente” do narrador-personagem ao mesmo tempo que ele vê e revela coisas que na época não sabia. Quando começa a ser treinado no Talento, Fitz sofre nas mãos do mestre dessa habilidade, Galen, um homem abusivo que o odeia e não está pra brincadeira – quer realmente matar o garoto. O abuso do mestre é tanto físico como psicológico, e achei que Hobb trabalhou muito bem com essa temática, mostrando como o homem entra na cabeça de Fitz e faz o garoto perder toda a confiança e amor próprio. O Fitz-narrador nos conta com um afastamento temporal as coisas absurdas pelas quais passou, vendo claramente que estava sendo enganado, mas, apesar de sabermos que ele sobrevive ao treinamento, esses trechos são difíceis de ler: nessa altura do livro, eu já gostava muito do protagonista.

Um pouco como Kvothe, de O nome do vento (embora Fitz não seja tão ridiculamente bom em tudo), ele nos conquista na base do sofrimento. Gostei especialmente da abordagem da sua solidão na infância, de sua falta de conexão com todos exceto os animais (com os quais era proibido de se relacionar). ALGUÉM ABRAÇA ESSE MENINO PFVR. </3

Outra questão fascinante é o limite da obediência de Fitz. Curiosamente, em minha última resenha (Um mago de Terramar), mencionei que um diferencial da obra era conter uma batalha interna do protagonista, não um grande conflito externo. Fitz também passa por uma jornada de autoconhecimento e crescimento, enfrentando dilemas pessoais mais profundos que qualquer luta de espada. Desde o início, Shrewd revela que pretende transformá-lo em uma arma, e o garoto se rende à influência do avô – mas, até o final da obra, vemos sinais de que surgirão conflitos de lealdade nos próximos livros da trilogia. Como o Vagner, do Desbravando Livros, apontou, é difícil vê-lo como assassino: ele recebe o treinamento, mas em nenhum momento você sente que ele tem “fome de sangue“ ou uma grande vontade de matar em nome do rei. Mas não achei isso um defeito – fiquei agradavelmente surpresa, na verdade. Antes de ler o livro, temia que Fitz seria “plano” demais, só mais um cara que saía por aí matando pessoas e se achando foda, mas ele se mostra um personagem bem mais profundo.

Como disse, os personagens, de modo geral, são todos muito bons. A maior surpresa talvez seja Verity, porque acabei gostando muito dele e no início parecia que ele ia ser um personagem secundário não muito interessante. Outro destaque é o Bobo do rei Shrewd, um personagem misterioso que tem uns papos bem abstratos com Fitz e alguns poderes próprios, que devem ser mais explicados nos próximos livros.

As mulheres não são muitas, mas são interessantes ─ Patience, esposa de Chivalry, é uma pessoa bem excêntrica, e a noiva de Verity, Kettricken, tem potencial. Mas gostaria que as relações de gênero fossem um pouco mais desenvolvidas: a sucessão nos Ducados, por exemplo, segue a ordem de nascimento, independentemente de gênero, mas o fato de isso ser mencionado no livro sugere que não é o caso em outros lugares desse mundo. Ao mesmo tempo que mulheres guerreiras são mencionadas (como a mestre de armas de Fitz), as nobres da corte são retratadas como garotas sem cérebro, cuja ambição maior é casar com um príncipe e que não se ocupam de tarefas intelectuais ou manuais. Fiquei um pouco confusa com essa dinâmica.

Embora alguns pontos da trama sejam um tanto óbvios (você nunca tem a menor dúvida de que o chato do Regal vai tentar algum golpe), ela também quebrou minhas expectativas em outros aspectos, como o fato de Fitz não dar um jeito, no último segundo, de conseguir superar todos os desafios. Outro conflito central da história são os ataques dos salteadores dos Navios Vermelhos, que raptam reféns e os devolvem para os Seis Ducados como cascas sem alma, que espalham violência e terror. O mistério do que é feito com essas pessoas permanece pra ser desenvolvido nos outros livros.

As descrições são muito competentes, mas extensas demais às vezes, principalmente quando você está tenso pra saber o que vem em seguida. Talvez tenha sido de propósito, pra criar expectativa. E o final do livro vale a leitura. Não vou dar spoilers, só digo que não conseguia parar de ler. Difícil fazer o leitor suar frio quando ele sabe que o personagem sobrevive, mas Hobb conseguiu me deixar tensa.

SPOILERS NESTE PARÁGRAFO: Algumas questões que aguardo serem respondidas ou aspectos que torço pra que apareçam mais nos próximos livros: a famosa dúvida “E a mãe do bastardo, quem é e da onde veio?” (dois anos antes de Jon Snow!); ele não se lembra de nada antes dos 6 anos por algum motivo específico? (em certo momento ele fala sobre “segredos mais antigos que não revelava nem para si mesmo” – meus sentidos de foreshadowing estão formigando!); alguém precisa ensinar o Talento direito pra esse menino; mais Fitz e Patience, adoro a dinâmica constrangedora entre eles e sinto que poderiam se apoiar um no outro; mais sobre Chivalry (bem trágico ele ter se afastado pra salvar o Fitz!); mais Burrich recebendo ferimentos fatais e voltando à rotina no dia seguinte, para a raiva das inimigas; Verity apreciando e defendendo Fitz mais ainda (Verity <3); e, por fim, Fitz ter um cachorro que não morra (a taxa de mortalidade canina desse livro é alta demais!).

Em resumo: não deve se tornar minha saga preferida de todos os tempos, mas é muito bem escrita e conseguiu me envolver. Estou bem animada para os próximos livros. Que venha O assassino do rei!

*

O aprendiz de assassino (Saga do Assassino, vol. 1)
Autora: Robin Hobb
Tradutor: Orlando Moreira
Editora: Leya
Ano de publicação: 1995
Ano desta edição: 2013
416 páginas

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Resenhas da série Realm of the Elderlings:

Trilogia Farseer/Saga do Assassino: O aprendiz de assassinoO assassino do reiA fúria do assassino

Trilogia Liveship Traders: Ship of MagicMad ShipShip of Destiny

Trilogia The Tawny Man: Fool’s ErrandGolden FoolFool’s Fate

Rain Wild Chronicles: Dragon KeeperDragon Haven – City of Dragons – Blood of Dragons

Trilogia The Fitz and the Fool: Fool’s AssassinFool’s Quest

 

Citações preferidas

Fico imaginando se conseguirei escrever essa história, ou se em cada página haverá algum indício sutil de uma amargura que eu pensava estar há muito morta. Gosto de pensar que estou curado de todo o rancor, mas quando encosto a pena no papel, as mágoas de um menino sangram com a tinta, até que suspeito que cada letra preta cuidadosamente desenhada esteja cobrindo alguma antiga ferida escarlate.

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Depois disso, Burrich dispendeu grandes esforços para que eu não tivesse nenhuma chance de me conectar com qualquer animal. Tenho certeza de que ele achou que foi bem sucedido nisso, e até certo ponto foi, no sentido de que não formei nenhum laço exclusivo com qualquer cão ou cavalo. Sei que ele tinha boas intenções. Mas eu não me senti protegido por ele, apenas confinado. Ele era o guardião que garantia o meu isolamento com fervor fanático. A solidão total foi plantada em mim em mim nessa época, e fincou suas raízes profundas em mim.

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“Um bastardo, Regal, é uma coisa única. Coloque um anel sinete em sua mão e o solte, e você terá criado um diplomata que nenhum governante estrangeiro vai ousar mandar embora. Ele pode ser enviado tranquilamente para onde um príncipe do sangue não pode ser arriscado. Imagine a utilidade de alguém que é, e ao mesmo tempo não é, do sangue real. Trocas de reféns. Alianças maritais. Trabalho discreto. A diplomacia da faca.”

*

“Vou te dizer uma coisa, garoto. E você deve se lembrar disso em todas as situações, não apenas nesta. Aprender nunca é errado. Mesmo aprender a matar não é errado. Ou certo. É só uma coisa para ser aprendida, uma coisa que posso ensinar a você. Só isso. Por enquanto, você acha que poderia aprender como fazê-lo, e depois decidir se quer fazê-lo?”

Que questão para ser colocada a um menino. Mesmo então, algo em mim rejeitou e desconfiou da ideia, mas, menino que eu era, não consegui levantar nenhuma objeção.

*

“A ferramenta do rei. Entendo.” Uma opressão se abateu sobre mim. Meu breve vislumbre de céus azuis se estendendo sobre estradas amarelas e eu viajando por elas sobre Sooty desapareceu de repente. Em vez disso, pensei em cães em seus canis, ou no gavião, encapuzado e amarrado, que viajava no pulso do rei e era liberado apenas para obedecer à sua vontade.

“Não tem que ser tão ruim”, Chade disse suavemente. “A maioria das prisões nós mesmos fazemos. Um homem pode fazer sua própria liberdade também.”

*

“A realeza”, Chade me alertara, “nunca viaja discretamente. Verity inicia essa viagem com o peso da espada do rei atrás dele. Todos que o virem passar saberão disso sem terem que ser informados. A notícia deve chegar com antecedência para Kelvar e Shemshy: a mão imperial está prestes a reconciliar as diferenças deles. Ambos desejarão nunca terem tido quaisquer diferenças. Esse é o segredo de um bom governo: fazer as pessoas desejarem viver de tal modo que não haja necessidade de sua intervenção.”

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17 respostas em “[Resenha] O aprendiz de assassino

  1. Isa, cê já viu o TAMANHO dos outros livros?! CARA, EU FIQUEI ASSUSTADA!
    A resenha de vocês são sempre muito gostosas de ler. Vocês conseguem dar detalhes sem dar spoilers, acho isso fascinante e tenho um pequena invejinha (branca!!! hahaha).

    Esse livro é fantástico e eu estou louca para ler os outros, mas depois que eles chegaram aqui em casa e eu vi o “pequeno” tamanho (eu nem sei AONDE eu vou guardar esses livros! Simplesmente não tenho mais espaço), vou ter que esperar um pouquinho antes de ver o destino do fofinho do Fitz ❤

    Beijos!!
    http://www.ummetroemeiodelivros.com

    • Eu li o ebook, o que engana quanto ao tamanho… mas é, são enormes, haha. Tô esperando ter um pouco de tempo pra começar o segundo. Mas pelo menos a escrita é deliciosa, né? Dá pra ler bastante e nem reparar. 😀
      Obrigada pelo comentário, Babi!

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