[Resenha] O ódio que você semeia

Esta resenha foi escrita com base no audiolivro em inglês da Harper Audio. Todas as traduções de trechos foram feitas por mim.

ódio-que-você-semeiaSinopse:

Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos. Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos – no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.

Fonte: Saraiva

Você já leu um livro tão bom que é impossível escrever uma resenha à altura, mas tão importante que você precisa convencer todo mundo a ler? Esse é meu dilema com minha última leitura: O ódio que você semeia, livro de estreia de Angie Thomas, um YA inspirado no movimento Black Lives Matter (que denuncia a violência policial contra jovens negros nos Estados Unidos). O título em inglês, The Hate U Give, é um trecho de um rap sobre racismo (e forma o genial anagrama THUG – “bandido ”–, que infelizmente se perdeu na tradução).

Starr tem 16 anos e mora em um bairro de negros nos Estados Unidos. Logo no começo do livro, a realidade vivida por ela fica bem clara quando Starr conta que, quando tinha apenas 12 anos, seus pais lhe ensinaram uma série de regras de como se comportar durante batidas policiais, para evitar ser vítima da violência dos guardas. Porém, na noite em que Starr e seu amigo Khalil são abordados pela polícia enquanto voltam de uma festa, Khalil não segue nenhuma dessas regras. Em uma abordagem policial violenta e despropositada, o melhor amigo da protagonista é assassinado. Assim, logo no começo.

A narrativa tocante de Starr, que conta a história em primeira pessoa, já destrói o coração do leitor nessa cena, que vai continuar assombrando a garota. A partir daí, Starr narra as semanas e meses posteriores ao assassinato, e o leitor acompanha os desdobramentos jurídicos e sociais do incidente (que desencadeia uma onda de protestos pedindo a condenação do policial envolvido) e também o estado emocional de Starr, que, além de perder um amigo, se torna a única testemunha do crime.

Esse não é o primeiro assassinato presenciado pela garota. Quando ela era mais nova, viu sua amiga Natacha ser baleada na rua – incidente que fez seus pais decidirem transferir Starr para outro colégio, em um bairro mais seguro. Lá, Starr e seus irmãos são praticamente os únicos estudantes negros, e vivem uma realidade completamente diferente da de seu bairro. Starr se divide entre esses dois mundos tão opostos, e acaba se tornando duas pessoas diferentes, sem entender qual é a verdadeira Starr.

Starr é cativante. É uma garota meiga e tranquila, que ama sua família e que precisa aprender a mostrar sua força e usar sua voz para se impor. Uma personagem complexa e verossímil, com preocupações com as quais todo adolescente pode se identificar – mas também com crises muito próprias da situação que está vivendo. Ela desenvolve sua consciência racial e política em meio a essa história que é toda permeada por questões raciais e sociais, numa jornada difícil e cheia de escolhas e de aprendizados.

 

“Jesus negro, olhe pelas minhas crianças hoje. Mantenha-os a salvo, afaste-os do mal e ajude-os a discernir entre galhos e serpentes. Dê-lhes a sabedoria para pensarem por si próprios. Ajude Seven com essa situação na casa da mãe dele, e faça-o saber que ele sempre pode vir para casa. Obrigado pela miraculosa e repentina cura de Sekani, que aconteceu justo quando ele descobriu que hoje teria pizza na escola.”

 

Eu amei a família de Starr. É bonito como Angie Thomas consegue criar personagens simpáticos ao leitor sem que eles sejam idealizados como uma versão romantizada e bonitinha de moradores de um gueto. Em vez de uma versão negra da “família do comercial de margarina”, o leitor encontra personagens pobres que passam por diversos apertos e que não têm uma vida muito fácil. O pai de Starr, além de ter um filho fora do casamento, já foi condenado e preso, e perdeu vários anos da vida da filha. Foi nessa época que a mãe da garota, Lisa, quase largou a faculdade para criar e sustentar Starr, e precisou do apoio de amigos e família para conseguir se formar.

Uma das pessoas que esteve ao lado de Lisa e Starr durante esse período foi o irmão de Lisa, Carlos. Este sim está mais próximo do estereótipo da família tradicional – morando em um condomínio fechado em meio a várias famílias brancas e ricas, ele e sua família têm uma casa grande, conforto e estabilidade. Carlos é uma figura paterna para Starr ao lado de Maverick, e a personalidade desses personagens, assim como os conflitos entre eles – e entre toda a família – é muito bem construída.

É bonito e raro ler sobre uma família com problemas reais. Maverick teve um filho fora do casamento, Seven, que é dois anos mais velho que Starr. Lisa continuou ao lado do marido após a traição, mas em uma relação que não é idealizada pela trama; em uma conversa com Starr ela fala sobre como essa decisão foi difícil.

Seven também tem seus próprios problemas – ele passa grande parte do tempo com a família de Maverick, onde todos os amam e cuidam dele, mas mora com sua mãe, que tem outras filhas e é casada com um grande traficante. Como Starr, Seven é dividido entre duas realidades conflitantes, e tem que se virar para sobreviver em meio às duas.

 

“Você é branco. Eu sou negra. Você é rico. Eu não.”
“Isso não importa”, ele diz. “Eu não ligo pra esse tipo de coisa, Starr. Eu ligo pra você.”
“Esse tipo de coisa é parte de quem eu sou.”

 

Outro personagem que merece ser mencionado é Chris, o namorado branco de Starr. Morando em uma mansão num condomínio de luxo, o garoto jamais esteve no bairro de Starr e não tem nenhuma vivência dos problemas da garota. Mas é meigo, carinhoso e completamente apaixonado por ela, e sabe ouvi-la e respeitá-la. O relacionamento entre eles é um quentinho que alivia o coração de Starr (e do leitor) em meio a tantos problemas e tragédias, e é lindo ver como eles resolvem seus problemas dialogando (aliás, as breves conversas deles sobre sexo e consentimento já seriam suficientes para que eu recomendasse o livro!).

Como já deu para perceber, os personagens são um ponto muito forte desse livro – até os mais secundários (e há muitos deles, desde a avó da garota até o cabeleireiro do bairro ou a advogada que lidera os protestos por Khalil) são interessantes e cheios de personalidade, fazendo o leitor se apegar e compartilhar os sentimentos de Starr por cada personagem.

Além disso, a trama é bem amarrada e a narrativa é envolvente e muito convincente. É impossível não se comover com todo o desenrolar do caso de Khalil; mesmo quando não estava lendo, eu me pegava refletindo sobre a situação dele e de todos no livro. É legal notar que as questões raciais e sociais levantadas pela autora estão bem explicadas e exemplificadas, tornando a obra bem acessível e didática para quem não está inteirado das discussões sobre o assunto.

Com tantas discussões importantes, personagens cativantes e bem construídos, uma ambientação realista e um final comovente, O ódio que você semeia é um livro impecável. Provavelmente o YA mais importante dos últimos tempos.

*

O ódio que você semeia
Autora: Angie Thomas
Tradutora: Regiane Winarski
Editora: Galera Record
Ano desta edição: 2017
378 páginas

 

Citações favoritas:

A verdade lança uma sombra na cozinha. Pessoas como nós e situações como esta se tornam hashtags, mas raramente ganham justiça.

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Uma vez nós conversamos sobre como era legal que Will [de Um maluco no pedaço] continuou sendo ele mesmo em seu novo mundo. Eu deixei escapar que eu queria poder ser assim na escola. “E por que não pode, Fresh Princess?” perguntou Chris. Desde então, eu não tenho que decidir qual Starr eu tenho que ser quando estou com ele. Ele gosta das duas. Quer dizer, as partes que eu deixei ele ver.

*

Engraçado. Senhores de escravos pensavam que estavam fazendo a diferença na vida dos negros também. Salvando eles de seu modo de vida selvagem e africano. Mesma merda, outro século. Eu queria que gente como eles parasse de pensar que gente como eu precisa ser salva.

*

Ter coragem não significa não ter medo. Significa seguir em frente, mesmo sentindo medo.

*

“Nós deixamos as pessoas falarem certas coisas. E eles falam tanto, que se torna normal pra eles e para nós. Qual é o sentido de ter uma voz, se ficamos calados quando não deveríamos?”

Uma resposta em “[Resenha] O ódio que você semeia

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