[Resenha] Blood of Dragons

Essa resenha foi feita com base no e-book da Harper Collins e contém spoilers para as trilogias anteriores e para os livros anteriores desta. A tradução de trechos foi feita por mim.

91puhtX4DXL._SL1500_Sinopse:

Contra todas as probabilidades, eles encontraram a cidade lendária, mas uma série de desafios se impõe. Sintara, Mercor, Heeby, Relpda e o resto dos dragões lutam para encontrar suas asas ─ e sua independência. Seus acompanhantes humanos também devem enfrentar um desenvolvimento perturbador: estão se transformando em Elderlings, verdadeiros companheiros de dragões. Conforme antigas regras dão lugar a novas alianças, medos secretos e desejos adultos, os guardiões devem redefinir suas vidas enquanto tentam reviver Kelsingra à sua glória passada.

Fonte: Livraria Cultura

Kelsingra está sendo redescoberta e voltando à vida, e os dragões de Cassarick finalmente estão aprendendo a voar. O último livro da quatrilogia vai fechar as pontas soltas da trama e terminar em um daqueles equilíbrios frágeis que já são característicos de Robin Hobb.

Mantemos os pontos de vista do livro anterior. Em Kelsingra, Alise enfrenta o fato de que não é um Elderling e não tem um lugar determinado nessa nova sociedade que está se formando. Depois que bate uma bad, ela decide lidar com isso e reconstruir sua vida. (You go, girl!) E claro que, bem nesse momento, os dragões estão capturando o barco que está portando Hest para Kelsingra ─ o que já era previsível, porque a série não podia acabar sem um confronto de Hest com a esposa e o ex-amante.

Thymara está lidando com os mesmos dilemas de sempre, que se complicam pelo fato de que Rapskal parece ter sido dominado pela personalidade do belicoso Tellator, cujas memórias absorveu tão avidamente. Isso, infelizmente, bem quando ela, Tats e Rapskal pareciam estar chegando a um acordo bem razoável (e poliamoroso) para o triângulo deles. Por mais que suas dúvidas quanto ao que fazer em relação aos rapazes sejam meio cansativas, são muito verossímeis e é um retrato bem realista (apesar dos dragões e das asas!) de dilemas adolescentes. Ela também é obrigada a confrontar grandes medos e decidir o que fazer em relação às memórias de Kelsingra, que a chamam para viver outras vidas.

E há problemas maiores à vista, porque os dragões avisam seus Elderlings de que, se não conseguirem encontrar a “Prata”, todos eles morrerão. Incluindo, é claro, o filho de Malta e Reyn. Sem saber nada sobre a criança, Tintaglia está se movendo, lentamente, para Kelsingra, esperando, por sua vez, que seus Elderlings a curem de seus ferimentos.

Enquanto isso, em Chalded, Chassim e Selden tentam sobreviver ao louco do pai dela, o Duque, que resolve beber o sangue de Selden (eca) para se manter vivo. Chassim é uma personagem maravilhosa e queria ter visto mais dela: a amizade que os dois criam é muito bonita, e gostei de como eles começam a se entender por meio da empatia. Além disso, as intrigas políticas de Chalced me lembram as outras trilogias da autora e são bem interessantes. (E, como já li a trilogia mais recente antes de Rain Wild Chronicles, sei que serão importantes para livros futuros.)

Infelizmente, também temos o ponto de vista de Hest, que nesse livro achei bem mais cansativo do que no anterior. Possivelmente porque o homem egoísta e desprezível continua assim até o final do livro (rapidamente superando pensamentos que poderiam tê-lo levado a ser uma pessoa minimamente decente), o que dá a sensação de que você perdeu tempo lendo os capítulos dele. Além disso (leve SPOILER), Sedric não tem muito destaque nesse livro ─ embora, claro, reveja Hest e o confronte, achei essas cenas levemente exageradas (com um toque de comédia romântica totalmente alheio ao resto da obra de Hobb). Porém, foi bem legal ver o relacionamento dele com Carson ser tão naturalizado em Kelsingra: vemos a formação de uma sociedade menos machista e homofóbica do que as outras do universo de Hobb.

Além de Tintaglia, Icefyre também marca presença nesse livro. O antigo dragão, furioso, propõe que os dragões acabem com os ataques a eles pela parte dos chalcedeanos, e os guardiões não podem fazer nada exceto aceitar a vontade de seus companheiros mais poderosos. Esse é outro fato que pode irritar alguns leitores: esses livros são bem focados em dragões. Imagino que nem todo mundo vá se interessar pelos dramas e surtos de lagartos alados gigantes, embora eu tenha me divertido bastante com eles. (Aliás, o humor acidental deles é ótimo: como quando dizem que um homem que resistiu à prisão tinha “exigido ser devorado”.) Gosto de como eles têm personalidades distintas e foram caracterizados muito bem na série como criaturas diferentes dos humanos, com outras perspectivas de vida. Também apreciei as reflexões trazidas pelo contato entre dragões e humanos ─ um pouco como, na ficção científica, muitos autores trabalham o que aconteceria se nós deparássemos com uma raça mais inteligente e mais poderosa.

Mas devo dizer que o clímax do livro foi meio estranho: o grande acontecimento é narrado muito rapidamente (pelo menos em comparação ao ritmo normal da Hobb!), quase sem mostrar o ponto de vista dos personagens mais envolvidos na ação. Deu a sensação de que a autora precisava acabar o livro rápido, e foi um tanto quanto brusco.

Em conclusão: Rain Wild Chronicles foi de longe a minha série menos preferida de Realm of the Elderlings. Não que seja ruim ─ se só tivesse lido estes, diria são livros de fantasia bem escritos, com uma trama legal e personagens bem bolados. Mas, em comparação com as outras séries de Hobb, ficam apagados. Os personagens não são apaixonantes como os das outras séries, e a trama é mais superficial. (Aliás, as partes que mais me emocionavam no livro eram menções aos personagens de Liveship Traders: saber o que Wintrow e Etta andam fazendo! Ler uma carta da Ronica! Rever Paragon! Uma menção super indireta a ações da Amber!) Porém, é uma leitura cheia de respostas importantes sobre o universo da série em geral (e que tem consequências para a última trilogia da série), e acho que se você leu todo o resto, vale a pena passar por eles.

*

Blood of Dragons
Autora: Robin Hobb
Editora: HarperCollins
Ano de publicação: 2013
E-book

*

Resenhas da série Realm of the Elderlings:

Trilogia Farseer/Saga do Assassino: O aprendiz de assassinoO assassino do reiA fúria do assassino

Trilogia Liveship Traders: Ship of MagicMad ShipShip of Destiny

Trilogia The Tawny Man: Fool’s ErrandGolden FoolFool’s Fate

Rain Wild Chronicles: Dragon KeeperDragon Haven – City of Dragons – Blood of Dragons

Trilogia The Fitz and the Fool: Fool’s AssassinFool’s Quest

 

Citações preferidas

Ele a amava. Isso não devia ser o suficiente para ela?

Por um momento, ela considerou aceitar o que tinha. Um homem que a amava: do que mais uma mulher precisava na vida? Então cerrou os dentes como se fosse arrancar uma atadura de uma ferida parcialmente curada.

Não. Não era suficiente. Não para ela.

*

A mudança fincou raízes nela e cresceu. “Me matar? Em desespero pelos dias que desperdicei, por todos os modos pelos quais me enganei? O que isso faria exceto provar que, no fim, eu ainda não consegui escapar da minha própria tolice? Não. Eu não vou acabar com a minha vida, dragão. Estou tomando controle dela. Estou fazendo-a minha.”

*

“Se esses dragões procriarem e trouxerem mais membros da sua espécie ao mundo, inevitavelmente acabarão controlando o mundo em seu próprio benefício.”

“Isso é tão egoísta!”

“É? Não é o que os humanos têm feito por gerações? Nós reivindicamos a terra como nossa e a destinamos aos nossos propósitos. Mudamos os canais dos rios e a face da terra para podermos viajar por barco ou fazer um plantio ou criar gado. E achamos que é inteiramente natural que moldemos o mundo todo para que se torne confortável e flexível para a humanidade. Por que os dragões deveriam ser diferentes em como encaram o mundo?”

*

“Eu acho que ela me ama, sim”, Thymara disse rigidamente. “Tanto quanto os dragões conseguem amar seus guardiões. Bom, talvez ‘valorize’ seja uma palavra melhor. Sei que ela não gosta quando eu cuido de um dos outros dragões.”

“Isso é ciúme, não amor”, Tats disse.

*

“Ele é um dragão”, Reyn concordou. “Mas apenas um. Talvez os outros sejam diferentes.”

“Eles não eram diferentes quando os visitei em Cassarick. Eram mesquinhos e egoístas.”

“Eles estavam infelizes, famintos e impotentes. Não acho que já conheci alguém que estivesse infeliz, faminto e impotente que também não fosse mesquinho e egoísta. Essa situação faz emergir o pior em todo mundo.”

*

Talvez uma vez que se percebesse quão profundamente alguém podia se ligar a uma criatura tão diferente como um dragão, todas as formas de amor parecessem mais aceitáveis.

*

E quando tinha acabado, uma estranha calma havia caído sobre ela. Ele pensou que talvez fosse o jeito das mulheres, emergir de uma tal tempestade de emoção e dor como um navio emergindo em mares tranquilos. Ela parecia, não em paz, mas esvaziada de pesar. Como se tivesse esgotado essa emoção em particular e nenhuma outra houvesse surgido para tomar o seu lugar.

*

“Mudar a história parece correr na sua família. Primeiro Wintrow e Malta, e agora Selden.” Ele tomou um gole de chá.

Paragon se intrometeu, seu tom irônico. “Sorte sua que se casou com a fêmea sã e responsável da família.”

Brashen engasgou. Althea lhe bateu nas costas, talvez um pouquinho mais forte do que o necessário.

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